{"id":23569,"date":"2022-12-04T21:10:58","date_gmt":"2022-12-04T21:10:58","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/04\/os-espioes-de-israel-que-cacavam-e-assassinavam-nazistas-ao-redor-do-mundo\/"},"modified":"2022-12-04T21:10:58","modified_gmt":"2022-12-04T21:10:58","slug":"os-espioes-de-israel-que-cacavam-e-assassinavam-nazistas-ao-redor-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/04\/os-espioes-de-israel-que-cacavam-e-assassinavam-nazistas-ao-redor-do-mundo\/","title":{"rendered":"Os espi\u00f5es de Israel que ca\u00e7avam e assassinavam nazistas ao redor do mundo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/s__AeEBZX_vzYQbbf7iPiMyCIcQ=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/2\/H\/kewt4gSkSyux2uw5rdsA\/imagem1.jpg\"><br \/>   Entre as opera\u00e7\u00f5es do Mossad, servi\u00e7o secreto israelense, est\u00e3o a captura do fugitivo nazista Adolph Eichmann na Argentina, a execu\u00e7\u00e3o de Herberts Cukurs no Uruguai e assassinatos de cientistas nucleares alem\u00e3es. Adolf Eichmann, conhecido como &#8216;arquiteto do Holocausto&#8217;, foi capturado pelo Mossad e julgado em Jerusal\u00e9m por crimes de guerra<br \/>\nCentral Press\/Getty Images via BBC<br \/>\nA fotografia em preto e branco mostra um homem idoso ajoelhado. Suas m\u00e3os est\u00e3o erguidas para o alto, seus olhos, cheios de terror. Em p\u00e9, sorrindo, dois oficiais da Gestapo apontam seus rifles na dire\u00e7\u00e3o do homem.<br \/>\nCompartilhe esta reportagem no WhatsApp<br \/>\nCompartilhe esta reportagem no Telegram<br \/>\nDurante anos, essa foto ficou pendurada na parede do escrit\u00f3rio de Meir Dagan, antigo diretor do Mossad \u2013 o servi\u00e7o de intelig\u00eancia de Israel.<br \/>\n&#8220;Olhe para esta pessoa. Este homem \u00e9 o meu av\u00f4, Erlich Sloshny, no gueto polon\u00eas de Lukow, em junho de 1942, segundos antes de ser morto por esses b\u00e1rbaros da Gestapo.&#8221;<br \/>\n&#8220;N\u00f3s estamos aqui, e eu estou aqui, para garantir que isso nunca mais aconte\u00e7a. Os judeus nunca mais v\u00e3o se ajoelhar e nunca haver\u00e1 um segundo aniquilamento.&#8221;<br \/>\n \u00c9 assim que o jornalista e escritor israelense Ronen Bergman descreve, no livro &#8220;Rise up and kill first \u2013 The secret history of Israel&#8217;s targeted assassinations&#8221; (em tradu\u00e7\u00e3o livre, &#8220;Levante-se e mate Primeiro \u2013 A hist\u00f3ria secreta dos assassinatos planejados por Israel&#8221;), a experi\u00eancia dos que visitavam o escrit\u00f3rio de Dagan.<br \/>\nCom base em mais de mil depoimentos, v\u00e1rios deles pelos pr\u00f3prios agentes do temido servi\u00e7o secreto israelense, o livro de Bergman conta em detalhes algumas das mais audaciosas (e por vezes ilegais) opera\u00e7\u00f5es do Mossad \u2013 entre elas, o sequestro do fugitivo nazista alem\u00e3o Adolph Eichmann na Argentina, o assassinato do oficial let\u00e3o Herberts Cukurs no Uruguai e assassinatos de cientistas nucleares alem\u00e3es.<br \/>\nEm entrevista ao programa &#8220;Start the Week&#8221;, da R\u00e1dio 4 da BBC, o jornalista falou sobre o livro. E contou como convenceu os agentes de uma organiza\u00e7\u00e3o cercada de mist\u00e9rio a revelar alguns de seus segredos.<br \/>\nNo mesmo programa, o advogado e escritor Philippe Sands, especialista em direito internacional, advertiu contra a glorifica\u00e7\u00e3o do que a lei qualifica como &#8220;assassinatos extrajudiciais&#8221; e reafirmou a import\u00e2ncia do caminho legal na busca de justi\u00e7a.<br \/>\nEle destacou, em particular, o legado &#8220;revolucion\u00e1rio&#8221; do Tribunal de Nuremberg, onde nazistas finalmente responderam por seus crimes diante da lei, e onde surgiram conceitos jur\u00eddicos como &#8220;genoc\u00eddio&#8221; e &#8220;crimes contra a humanidade&#8221;.<br \/>\nA BBC News Brasil destaca, a seguir, alguns trechos do programa. E, para dar contexto \u00e0 discuss\u00e3o, inserimos aqui uma breve explica\u00e7\u00e3o sobre o que foi o Tribunal de Nuremberg.<br \/>\nHermann G\u00f6ring (canto inferior esq., de \u00f3culos escuros,), seguido por Rudolf Hess, os r\u00e9us mais not\u00f3rios: julgamentos de Nuremberg come\u00e7aram em 20 de novembro de 1945<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nFormado ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial por acordo entre a ent\u00e3o URSS, Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha e Fran\u00e7a, o Tribunal Internacional Militar de Nuremberg (nome da cidade alem\u00e3 que o sediou) julgou membros do Partido Nazista, militares e colaboradores do nazismo. Os julgamentos ocorreram entre 1945 e 1949.<br \/>\nNo banco dos r\u00e9us estavam, por exemplo, figuras como Herman Goering, bra\u00e7o direito de Adolph Hitler.<br \/>\nGoering foi condenado \u00e0 morte, mas cometeu suic\u00eddio antes de ser executado.<br \/>\nAdolph Eichmann, &#8216;o arquiteto do Holocausto&#8217;<br \/>\nAnos depois, um outro julgamento, este realizado em Jerusal\u00e9m, em 1961, chamou a aten\u00e7\u00e3o do mundo. Nele, o tenente coronel nazista Adolph Eichmann, tido como o arquiteto do Holocausto, foi condenado \u00e0 morte por enforcamento.<br \/>\nEichmann foi sequestrado em Buenos Aires e levado pelo Mossad para Israel, onde foi julgado<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nEichmann chegou \u00e0 Justi\u00e7a por uma interven\u00e7\u00e3o do Mossad, que, em uma opera\u00e7\u00e3o at\u00edpica, optou por sequestrar o nazista em Buenos Aires para que ele fosse julgado em Israel.<br \/>\n&#8220;Foi algo muito raro&#8221;, comenta Bergman.<br \/>\n&#8220;A maior parte do que o Mossad fazia n\u00e3o tinha nada a ver com trazer criminosos de guerra para a Justi\u00e7a. O que o Mossad fazia naquela \u00e9poca, e ainda faz hoje, \u00e9 lidar com os desafios do agora.&#8221;<br \/>\nA decis\u00e3o do ent\u00e3o primeiro-ministro de Israel, David Ben Gurion, de autorizar uma opera\u00e7\u00e3o &#8220;altamente arriscada, e ilegal&#8221;, de sequestrar uma pessoa em um Estado soberano, a Argentina, em vez de solicitar uma extradi\u00e7\u00e3o \u2013 que, a promotoria acreditava, n\u00e3o seria concedida \u2013 foi tomada porque os israelenses viam em Eichmann uma oportunidade \u00fanica, ele explica.<br \/>\n&#8220;Eichmann era o centro desse plano maligno&#8221;, diz o escritor.<br \/>\n&#8220;Ele era o c\u00e9rebro por tr\u00e1s de grande parte do Holocausto e oferecia uma grande oportunidade n\u00e3o apenas de julg\u00e1-lo e fazer justi\u00e7a, mas tamb\u00e9m de trazer ao mundo, pela primeira vez, a hist\u00f3ria do Holocausto. E contar ao povo de Israel \u2013 que, de certa forma, n\u00e3o queria ouvir os sobreviventes \u2013 o que tinha acontecido na Europa naqueles seis anos.&#8221;<br \/>\nEichmann foi executado no dia 30 de maio de 1962.<br \/>\nHerberts Cukurs \u2013 sentenciado sem julgamento<br \/>\nUma outra opera\u00e7\u00e3o detalhada no livro de Bergman levou os agentes do Mossad ao Brasil e ao Uruguai.<br \/>\nTrata-se do assassinato do oficial da For\u00e7a A\u00e9rea da Let\u00f4nia Herberts Cukurs, um caso que repercutiu de forma bastante negativa para Israel e para o Mossad.<br \/>\nO aviador let\u00e3o Herberts Cukurs chegou ao Brasil no dia 4 de mar\u00e7o de 1946<br \/>\nKeystone-France\/Gamma-Rapho via Getty Images<br \/>\nCukurs desembarcou no Rio de Janeiro com sua fam\u00edlia em 1946 e viveu 20 anos no Brasil antes de ser morto.<br \/>\nEm seu pa\u00eds, era tido como um her\u00f3i aviador, mas no Brasil tornou-se empres\u00e1rio. De in\u00edcio, abriu uma empresa de aluguel de pedalinhos na lagoa Rodrigo de Freitas.<br \/>\nEm 1950, foi acusado pela Federa\u00e7\u00e3o das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro de ser um criminoso de guerra.<br \/>\nDurante a ocupa\u00e7\u00e3o nazista da Let\u00f4nia, iniciada em 1941, Cukurs integrara o Comando Ar\u00e3js, um dos principais grupos colaboracionistas do pa\u00eds. Entre o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o e o final da guerra, em 1945, a comunidade judaica let\u00e3, composta por cerca de 80 mil pessoas, tinha sido praticamente extinta.<br \/>\nDepois da guerra, Cukurs foi acusado por sobreviventes de executar, muitas vezes de maneira s\u00e1dica, milhares de pessoas, incluindo mulheres e crian\u00e7as. Tamb\u00e9m teria praticado tortura e estupros. Ele admitiu ter integrado um grupo colaboracionista, mas sempre negou as acusa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAssediado pela imprensa, mudou-se para S\u00e3o Paulo.<br \/>\nAtra\u00eddo por um agente do Mossad posando como homem de neg\u00f3cios, Cukurs viajou para um balne\u00e1rio pr\u00f3ximo a Montevid\u00e9u, no Uruguai, para inspecionar uma propriedade que pretendia comprar.<br \/>\nAo chegar, no dia 23 de fevereiro de 1965, foi emboscado pelos israelenses. O plano, segundo depoimento de um dos agentes, era imobiliz\u00e1-lo, ler para ele sua &#8220;senten\u00e7a&#8221; e depois execut\u00e1-lo.<br \/>\nMas Cukurs reagiu e acabou sendo morto a marteladas e tiros.<br \/>\nSeu corpo s\u00f3 foi encontrado no dia 6 de mar\u00e7o, dentro de um ba\u00fa. Junto, um bilhete dizia: &#8220;Considerando a gravidade dos crimes de que \u00e9 acusado Herberts Cukurs, especialmente o assassinato de 30 mil homens, mulheres e crian\u00e7as, n\u00f3s o condenamos \u00e0 morte&#8221;.<br \/>\nAssinavam o bilhete &#8220;aqueles que n\u00e3o esquecer\u00e3o&#8221;.<br \/>\nUma oportunidade perdida?<br \/>\nUma das raz\u00f5es oferecidas na \u00e9poca para a opera\u00e7\u00e3o contra Cukurs seria a de que um assassinato conduzido de forma espetacular obrigaria o mundo a se lembrar de que, 20 anos ap\u00f3s o final da guerra, ainda havia nazistas impunes e \u00e0 solta.<br \/>\nNa realidade, pela forma como foi conduzida, a opera\u00e7\u00e3o foi desastrosa para o servi\u00e7o secreto de Israel, comenta Bergman.<br \/>\nRegistros oficiais sobre a miss\u00e3o nunca foram publicados, mas, com base em suas entrevistas, o jornalista relata a seguinte cena, ocorrida durante uma reuni\u00e3o de chefes do Mossad para falar sobre fugitivos nazistas:<br \/>\n&#8220;Quando o oficial que chefiava o escrit\u00f3rio de intelig\u00eancia [que coletava informa\u00e7\u00f5es sobre os nazistas] leu a lista [de fugitivos], e leu o nome de Herberts Cukurs, o chefe de intelig\u00eancia desmaiou&#8221;, conta Bergman.<br \/>\n&#8220;Quando ele voltou a si, disse que Cukurs era a pessoa que tinha queimado sua fam\u00edlia na Let\u00f4nia.&#8221;<br \/>\nEmbora Cukurs n\u00e3o fosse alem\u00e3o e n\u00e3o fosse um oficial de alto escal\u00e3o, em sinal de apre\u00e7o pelo colega, e em ato simb\u00f3lico de uma vingan\u00e7a pessoal, o chefe do Mossad &#8220;deu ordens para que se fizesse um esfor\u00e7o especial para pegar Cukurs&#8221;, diz.<br \/>\nO jornalista prossegue:<br \/>\n&#8220;Cukurs foi escolhido porque era t\u00e3o v\u00edvido ver esse general desmaiar e dizer, &#8216;ele queimou minha fam\u00edlia, vamos mat\u00e1-lo&#8217;, que eles foram l\u00e1 e fizeram isso&#8221;.<br \/>\nPor ter sido um piloto famoso antes da guerra, Cukurs teria sido facilmente identificado por suas v\u00edtimas e pelos sobreviventes. No entanto, o fato de n\u00e3o ter respondido pelas acusa\u00e7\u00f5es em vida, diante de um tribunal, deixa margem para d\u00favidas.<br \/>\nCukurs foi alvo de uma investiga\u00e7\u00e3o criminal p\u00f3stuma na Let\u00f4nia. Nela, seu envolvimento em crimes do Holocausto foi questionado, e, na aus\u00eancia de muitas das testemunhas, ent\u00e3o falecidas, v\u00e1rias das evid\u00eancias dos crimes que o piloto teria cometido foram invalidadas.<br \/>\nA ca\u00e7a aos cientistas nucleares alem\u00e3es<br \/>\n&#8220;Rise up and kill first&#8221; tamb\u00e9m descreve campanhas do Mossad na d\u00e9cada de 1960 para matar e intimidar cientistas alem\u00e3es previamente envolvidos em programas nazistas para desenvolver armas. Ap\u00f3s a guerra, tinham ido trabalhar para o governo eg\u00edpcio.<br \/>\n&#8220;O Mossad descobriu muito tarde que [Gamal] Nasser [presidente do Egito entre 1954 e 1970] tinha contratado cientistas e engenheiros alem\u00e3es que tinham trabalhado para a SS [tropa paramilitar ligada ao Partido Nazista]&#8221;, conta Bergman.<br \/>\nDurante a guerra, os cientistas tinham constru\u00eddo as bombas voadoras V-1 e os m\u00edsseis de longa dist\u00e2ncia V-2, as chamadas &#8220;armas da Vingan\u00e7a&#8221;, para Adolph Hitler. Mas, com o fim do conflito, haviam ficado desempregados, explica o jornalista.<br \/>\n&#8220;Receberam ofertas generosas para ir para o Egito construir para o Nasser uma esquadrilha de m\u00edsseis com a qual, ele dizia, iria destruir todos os alvos ao sul de Beirute.&#8221;<br \/>\nRonan Bergman descreve o clima em Israel no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 quando os planos do governo eg\u00edpcio foram revelados aos israelenses:<br \/>\n&#8220;Imagine a histeria em Israel, em 1962, antes da Guerra dos Seis Dias, antes de que Israel se tornasse um superpoder e tivesse armas nucleares, as ruas cheias de sobreviventes do Holocausto com n\u00fameros [tatuados] nas palmas de suas m\u00e3os&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;Agora, ficam sabendo que os mesmos cientistas que tinham trabalhado na constru\u00e7\u00e3o da &#8216;arma do apocalipse&#8217; para Adolph Hitler est\u00e3o trabalhando para Nasser, que Ben Gurion chamava de o &#8216;segundo Hitler.&#8221;<br \/>\nFoi nesse contexto que o Mossad iniciou uma ofensiva e &#8220;come\u00e7ou a matar os cientistas&#8221;, diz Bergman. Alguns, ele conta, foram sequestrados na Alemanha.<br \/>\n&#8220;Um deles, chamado Heinz Krug, simplesmente desapareceu. A filha e o filho dele nunca souberam o que tinha acontecido. Fui eu, 50 anos mais tarde, que contei a eles.&#8221;<br \/>\nSegundo relatos de Bergman a outros ve\u00edculos, Krug teria sido levado para Israel e submetido a violentos interrogat\u00f3rios antes de ser morto.<br \/>\nO jornalista conta, no entanto, que, depois de um tempo, os agentes israelenses conclu\u00edram que teriam de mudar de estrat\u00e9gia. Matar os cientistas n\u00e3o colocaria fim ao projeto de Nasser, porque ele simplesmente oferecia um monte de dinheiro aos sobreviventes.<br \/>\n&#8220;Eles s\u00f3 tinham um caminho: contratar algu\u00e9m que fosse muito pr\u00f3ximo dos cientistas. E esse algu\u00e9m era o chefe de opera\u00e7\u00f5es especiais de Hitler, o general da SS Otto Skorzeny&#8221;, diz o escritor.<br \/>\nSkorzeny tinha sido um nazista dedicado. Incendiara sinagogas e matara judeus. Procurado pelo Tribunal de Nuremberg, Skorzeni tinha fugido para a Espanha.<br \/>\nDois anos ap\u00f3s a execu\u00e7\u00e3o de Adolph Eichmann, o Mossad procurou Skorzeni e ofereceu a ele algo que ningu\u00e9m mais poderia lhe proporcionar, prossegue Bergman. &#8220;Uma vida sem medo.&#8221;<br \/>\nO general aceitou trabalhar para os israelenses em troca de um passaporte novo, dinheiro e uma carta de imunidade do primeiro-ministro de Israel.<br \/>\n&#8220;Skorzeny tornou-se um importante ativo do Mossad no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960&#8221;, conta. &#8220;E resolveu o problema dos cientistas alem\u00e3es trabalhando para Nasser.&#8221;<br \/>\nOtto Skorzeni morreu de c\u00e2ncer, na Espanha, em 1975. Fotos de seu funeral mostram pessoas fazendo sauda\u00e7\u00f5es nazistas. &#8220;O pragmatismo prevaleceu. Skorzeny foi recrutado para resolver quest\u00f5es do presente. Fantasmas do passado foram deixados de lado&#8221;, diz o jornalista. Mas ele pergunta:<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea pode recrutar o dem\u00f4nio para prevenir outros males?&#8221;.<br \/>\nA opera\u00e7\u00e3o que matou o cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh<br \/>\nUma outra quest\u00e3o que os assassinatos de cientistas nucleares levantam \u00e9: seria justific\u00e1vel matar hoje uma pessoa para impedir que ela \u2013 possivelmente ou at\u00e9 provavelmente \u2013 cometa atos malignos no futuro?<br \/>\nA resposta do Mossad, ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas, para essa pergunta, parece ter sido um sim.<br \/>\n&#8220;O modus operandi adotado na d\u00e9cada de 1960 para lidar com os cientistas alem\u00e3es no Egito continuou a ser usado contra cientistas iraquianos e eg\u00edpcios nos anos 1970 e continua a ser usado agora contra cientistas iranianos&#8221;, diz Ronan Bergman.<br \/>\nSegundo o jornalista, a mais importante opera\u00e7\u00e3o desse tipo em anos recentes foi o assassinato, em novembro de 2020, do homem que chefiara, nas tr\u00eas d\u00e9cadas anteriores, o programa nuclear iraniano: o professor Mohsen Fakhrizadeh.<br \/>\nL\u00edderes do Ir\u00e3 culparam Israel pelo assassinato do cientista, morto a tiros enquanto dirigia um carro em uma rodovia nos arredores de Teer\u00e3. Israel n\u00e3o confirmou nem negou seu envolvimento no ataque.<br \/>\nMas o jornal americano &#8220;The New York Times&#8221; publicou um relat\u00f3rio detalhado descrevendo como o ataque foi realizado por Israel.<br \/>\nO ex-chefe do Mossad revelou mais tarde que o cientista havia sido um alvo &#8220;por muitos anos&#8221; e que a ag\u00eancia de intelig\u00eancia israelense estava preocupada com seu conhecimento.<br \/>\nDe acordo com Bergman, enquanto planejava o assassinato, o Mossad se deu conta de que o professor era t\u00e3o protegido, que seria imposs\u00edvel mat\u00e1-lo sem que os assassinos se envolvessem em um tiroteio com as for\u00e7as de seguran\u00e7a iranianas.<br \/>\n&#8220;[Fakhrizadeh] era a segunda pessoa mais protegida do Ir\u00e3 depois do supremo l\u00edder&#8221;, explica.<br \/>\n&#8220;Alguns [dos agentes] poderiam morrer, e no Mossad existe uma regra fundamental: o sucesso da opera\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante quanto o resgate dos assassinos.&#8221;<br \/>\nO Mossad decidiu, ent\u00e3o, testar uma tecnologia nova, de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, para assassinar o cientista, escreveu Bergman em uma reportagem publicada no jornal americano &#8220;The New York Times&#8221;.<br \/>\nOs agentes usaram um rob\u00f4 acoplado a uma metralhadora e dotado de m\u00faltiplas c\u00e2meras posicionado em um local estrat\u00e9gico dentro do Ir\u00e3 (uma estrada por onde, o Mossad sabia, Fakhrizadeh iria passar em seu carro) e controlado por computador. Em frente \u00e0 tela do computador estava um &#8220;sniper&#8221; \u2013 um experiente atirador, trabalhando em local n\u00e3o revelado, a mais de mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia.<br \/>\nQuestionamentos<br \/>\nO governo iraniano afirma que seu programa nuclear tem fins pac\u00edficos.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 confirma\u00e7\u00e3o oficial, pelo governo de Israel, sobre a autoria do assassinato do Fakhrizadeh, mas a opera\u00e7\u00e3o foi caracteristicamente eficiente. Bergman conta que a miss\u00e3o foi realizada com tal precis\u00e3o, que a mulher do cientista, que viajava com ele, escapou ilesa do atentado.<br \/>\nEm sua entrevista \u00e0 BBC, Bergman relata, por\u00e9m, um epis\u00f3dio que pode surpreender muita gente. O momento em que uma pr\u00f3pria agente do Mossad teria questionado a legitimidade da opera\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Meu pai trabalha para o comit\u00ea at\u00f4mico de Israel. Se voc\u00eas dizem que esse cientista iraniano \u00e9 um alvo leg\u00edtimo, ent\u00e3o meu pai tamb\u00e9m \u00e9 um alvo leg\u00edtimo&#8221;, teria dito a oficial da intelig\u00eancia israelense.<br \/>\nO jornalista diz que a agente n\u00e3o est\u00e1 sozinha. Outros na organiza\u00e7\u00e3o v\u00eam expressando ambival\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o a essas a\u00e7\u00f5es \u2013 entre eles, o pr\u00f3prio Meir Dagan, tido como o c\u00e9rebro por tr\u00e1s do programa de assassinatos do Mossad.<br \/>\nDagan morreu em 2016. Segundo Bergman, em seus \u00faltimos anos de vida, ele teria se dado conta de que havia um limite para o uso da for\u00e7a.<br \/>\nO ex-diretor do Mossad teria compreendido que &#8220;se todas essas opera\u00e7\u00f5es incr\u00edveis, dram\u00e1ticas e bem-sucedidas, n\u00e3o fossem seguidas por uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica de negocia\u00e7\u00f5es internacionais, n\u00e3o se chegaria a lugar algum&#8221;.<br \/>\nOu seja, diz o jornalista: &#8220;N\u00e3o havia outra solu\u00e7\u00e3o sen\u00e3o o di\u00e1logo com o inimigo&#8221;.<br \/>\nAqui, fazendo um balan\u00e7o do que seria para ele a mensagem final de &#8220;Rise up and kill first&#8221;, Ronan Bergman diz:<br \/>\n&#8220;Por serem capazes de comandar opera\u00e7\u00f5es em territ\u00f3rio inimigo com um simples toque dos dedos, todos os l\u00edderes israelenses ao longo dos anos conclu\u00edram, erroneamente, que tinham o poder de mudar a hist\u00f3ria&#8221;.<br \/>\n&#8220;No final das contas, essa \u00e9, tamb\u00e9m, uma hist\u00f3ria de falta de compreens\u00e3o e de um fracasso estrat\u00e9gico muito perigoso.&#8221;<br \/>\nE por que, depois de tantos anos de sil\u00eancio, tantos dos participantes nessas opera\u00e7\u00f5es decidiram contar suas hist\u00f3rias?<br \/>\nA principal li\u00e7\u00e3o que o Holocausto deixou na mente das pessoas, verdadeira ou n\u00e3o, \u00e9 que &#8220;sempre vai haver algu\u00e9m por a\u00ed pronto para fazer o segundo aniquilamento&#8221;, diz Bergman.<br \/>\n&#8220;E, quando voc\u00ea se defronta com a possibilidade de extin\u00e7\u00e3o, voc\u00ea faz o que precisa ser feito. Em alguns casos, a resposta \u00e9: levante-se e mate primeiro&#8221;, prossegue o autor, fazendo refer\u00eancia ao t\u00edtulo de seu livro.<br \/>\n&#8220;Essas pessoas [os entrevistados] queriam ter certeza de que suas pegadas ficariam gravadas na Hist\u00f3ria. Queriam se gabar e compartilhar suas experi\u00eancias, vistas por eles, e pela maioria da popula\u00e7\u00e3o de Israel, como um mal necess\u00e1rio.&#8221;<br \/>\n&#8220;O que outros pa\u00edses veem como assassinatos e atos ilegais brutais significa, para os israelenses, manter a guarda, tomar conta e defender Israel.&#8221;<br \/>\nEm tom mais leve, o jornalista acrescenta:<br \/>\n&#8220;E se algu\u00e9m se recusava a falar, bastava eu dizer que fulano ou ciclano estava levando o cr\u00e9dito pela miss\u00e3o dele. A\u00ed, sim, me contava tudo!&#8221;.<br \/>\nEm debate: Queremos uma sociedade sem leis?<br \/>\nEm contraponto \u00e0 poderosa narrativa do jornalista israelense, o especialista em direito internacional e direitos humanos Philippe Sands faz um alerta contra a glorifica\u00e7\u00e3o do que, no final das contas, s\u00e3o atos ilegais.<br \/>\n&#8220;Segundo as leis internacionais, voc\u00ea n\u00e3o pode sair por a\u00ed matando as pessoas por acreditar que representem uma amea\u00e7a, e existem v\u00e1rios exemplos de gente que foi morta por engano&#8221;, diz.<br \/>\nEle prossegue:<br \/>\n&#8220;Me preocupa que [alguns pensem que] esse seja o caminho a ser seguido, que isso possa trazer justi\u00e7a no longo prazo&#8221;.<br \/>\nSands reconhece que a lei n\u00e3o alcan\u00e7a todos.<br \/>\n&#8220;A justi\u00e7a criminal s\u00f3 pega alguns&#8221;, admite. &#8220;As fam\u00edlias dos que n\u00e3o s\u00e3o pegos v\u00e3o dizer: &#8216;ele morreu inocente&#8217;.&#8221;<br \/>\nPor isso, no caso da Segunda Guerra Mundial, o advogado disse fazer uma distin\u00e7\u00e3o para assassinatos que s\u00e3o &#8220;repres\u00e1lias por atos anteriores&#8221;.<br \/>\n&#8220;Isso era o que se fazia antes de 1945, era leg\u00edtimo, acontecia e n\u00e3o havia lei contra isso. Mas a mudan\u00e7a que ocorreu ap\u00f3s 45 foi dizer que o poder do Estado n\u00e3o \u00e9 ilimitado. Voc\u00ea n\u00e3o pode sair por a\u00ed fazendo essas coisas, seres humanos t\u00eam direitos, e esses direitos s\u00e3o protegidos segundo as leis dom\u00e9sticas e internacionais.&#8221;<br \/>\nEsse, ele diz, \u00e9 o legado de Nuremberg.<br \/>\n&#8220;Nuremberg foi um momento singular e revolucion\u00e1rio onde, pela primeira vez, l\u00edderes foram responsabilizados por cometer crimes&#8221;, explica.<br \/>\n&#8220;E os crimes eram, em grande parte, novos. Crimes de guerra j\u00e1 existiam, mas crimes contra a humanidade e genoc\u00eddio, e o crime de fazer uma guerra ilegal, foram inventados. Isso mudou o mundo. Todos esses crimes hoje est\u00e3o cobertos [por um sistema jur\u00eddico]&#8221;.<br \/>\nSands diz que esse projeto, ainda em seus primeiros anos, est\u00e1 novamente em discuss\u00e3o por causa do conflito na Ucr\u00e2nia.<br \/>\n&#8220;Existe um desejo, pelo menos no lado da Ucr\u00e2nia, de colocar o conflito no contexto legal, focar nos crimes de guerra, focar nos crimes contra a humanidade. Isso \u00e9 o momento Nuremberg&#8221;, diz o advogado.<br \/>\nPor outro lado, comenta, &#8220;alguns est\u00e3o falando em matar o presidente da R\u00fassia&#8221;. &#8220;No contexto do que estamos discutindo neste programa, esse \u00e9 um caminho que muitas pessoas achariam atraente&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;Este n\u00e3o \u00e9 um caminho dispon\u00edvel hoje segundo a lei internacional, e isso \u00e9 uma consequ\u00eancia de Nuremberg.&#8221;<br \/>\n&#8220;A quest\u00e3o \u00e9: queremos rasgar o momento 1945 e voltar para &#8216;n\u00e3o, que ven\u00e7a o mais forte&#8217;? Ou queremos manter a ideia de que existem limites para o que Estados podem fazer para se proteger contra atos passados ou futuros? Essa \u00e9 a quest\u00e3o central, e esse \u00e9 o debate a respeito do papel da lei na nossa sociedade.&#8221;<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-63792332<br \/>\nO g1 agora est\u00e1 no Telegram; clique aqui para receber not\u00edcias diretamente no seu celular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre as opera\u00e7\u00f5es do Mossad, servi\u00e7o secreto israelense, est\u00e3o a captura do fugitivo nazista Adolph Eichmann na Argentina, a execu\u00e7\u00e3o de Herberts Cukurs no Uruguai e assassinatos de cientistas nucleares alem\u00e3es. Adolf Eichmann, conhecido como &#8216;arquiteto do Holocausto&#8217;, foi capturado pelo Mossad e julgado em Jerusal\u00e9m por crimes de guerra Central Press\/Getty Images via BBC<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23570,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-23569","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23569","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23569"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23569\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23570"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23569"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23569"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23569"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}