{"id":23481,"date":"2022-12-04T13:10:21","date_gmt":"2022-12-04T13:10:21","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/04\/por-que-algumas-pessoas-sao-genios-esquecidos\/"},"modified":"2022-12-04T13:10:21","modified_gmt":"2022-12-04T13:10:21","slug":"por-que-algumas-pessoas-sao-genios-esquecidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/04\/por-que-algumas-pessoas-sao-genios-esquecidos\/","title":{"rendered":"Por que algumas pessoas s\u00e3o g\u00eanios esquecidos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/q6Z2-Raw42o0ASOBqfW7rL-lXE4=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/K\/2\/ydBJ8OT6AWB0b0KTCPug\/a-vencedora-do-premio-nobel-crowfoot-hodgkin-1910-1994-usou-seu-interesse-em-mosaicos-bizantinos-em-pesquisas-na-area-bioquimica.jpg\"><br \/>   Diversos fatores psicol\u00f3gicos contribuem para que as pessoas atinjam n\u00edveis assombrosos de percep\u00e7\u00e3o e criatividade. A vencedora do Pr\u00eamio Nobel Crowfoot Hodgkin (1910-1994) usou seu interesse em mosaicos bizantinos em pesquisas na \u00e1rea bioqu\u00edmica<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nNo final dos anos 1920, um jovem de classe m\u00e9dia conhecido como Ritty passava a maior parte do tempo mexendo no seu &#8220;laborat\u00f3rio&#8221;, na casa dos pais em Rockaway, Nova York, nos Estados Unidos.<br \/>\nO laborat\u00f3rio era uma velha caixa de madeira, equipada com prateleiras que continham uma bateria e um circuito el\u00e9trico com l\u00e2mpadas, chaves e resistores. Uma das suas inven\u00e7\u00f5es mais not\u00e1veis era um alarme dom\u00e9stico contra intrusos que o alertava sempre que seus pais entrassem no seu quarto.<br \/>\nEle tamb\u00e9m usava um microsc\u00f3pio para estudar o mundo natural e, \u00e0s vezes, levava seu conjunto de qu\u00edmica para a rua, para fazer truques para as outras crian\u00e7as.<br \/>\nMas o registro escolar de Ritty no ensino fundamental era comum. Ele tinha dificuldades com literatura e l\u00ednguas estrangeiras. E, em um teste de QI quando crian\u00e7a, a pontua\u00e7\u00e3o ele teria sido de cerca de 125, que \u00e9 acima da m\u00e9dia, mas longe do espectro dos g\u00eanios.<br \/>\nNa adolesc\u00eancia, Ritty demonstrou talento para a matem\u00e1tica e come\u00e7ou a estudar sozinho com livros elementares. E, no final do ensino m\u00e9dio, ele conseguiu o primeiro lugar no concurso anual de matem\u00e1tica do Estado.<br \/>\nRitty \u00e9 parte da hist\u00f3ria da Ci\u00eancia. Ele tornou-se o f\u00edsico Richard Feynman (1918-1988), vencedor do Pr\u00eamio Nobel em 1965. Sua teoria da eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica revolucionou o estudo das part\u00edculas subat\u00f4micas.<br \/>\nOutros cientistas consideravam o funcionamento da mente de Feynman algo impenetr\u00e1vel. Para os colegas, ele parecia ter um talento quase sobrenatural, que levou o matem\u00e1tico polon\u00eas-americano Mark Kac a declarar, em sua autobiografia, que Feynman n\u00e3o era apenas um g\u00eanio comum, mas &#8220;um m\u00e1gico do mais alto calibre&#8221;.<br \/>\nA psicologia moderna pode nos ajudar a decodificar essa magia e compreender, de forma mais geral, o que torna uma pessoa um g\u00eanio?<br \/>\nA simples defini\u00e7\u00e3o do termo j\u00e1 \u00e9 uma dor de cabe\u00e7a. N\u00e3o existem crit\u00e9rios claros e objetivos. Mas a maior parte das defini\u00e7\u00f5es identifica que o g\u00eanio tem realiza\u00e7\u00f5es excepcionais em pelo menos um dom\u00ednio, com originalidade e talento que s\u00e3o reconhecidos por outros especialistas na mesma disciplina e podem impulsionar muitos outros avan\u00e7os.<br \/>\nIdentificar a origem da genialidade e as melhores formas de cultiv\u00e1-la \u00e9 uma tarefa ainda mais dif\u00edcil. Ela seria produto de uma alta intelig\u00eancia geral? Curiosidade sem limites? Coragem e determina\u00e7\u00e3o? Ou \u00e9 a combina\u00e7\u00e3o fortuita de felizes circunst\u00e2ncias que s\u00e3o imposs\u00edveis de se recriar artificialmente?<br \/>\nPesquisar a vida de indiv\u00edduos excepcionais, incluindo ganhadores do Pr\u00eamio Nobel, como Richard Feynman, pode oferecer algumas indica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nWilliam Shockley foi um inventor americano que ganhou o Nobel de F\u00edsica<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nOs Cupins<br \/>\nVamos come\u00e7ar com os Estudos Gen\u00e9ticos da Genialidade, um projeto extremamente ambicioso liderado pelo psic\u00f3logo Lewis Terman, da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o de Stanford, nos Estados Unidos, no in\u00edcio do s\u00e9culo 20.<br \/>\nTerman foi um dos pioneiros do teste de QI, ao traduzir e adaptar uma avalia\u00e7\u00e3o francesa da aptid\u00e3o acad\u00eamica das crian\u00e7as, desenvolvida no final do s\u00e9culo 19.<br \/>\nAs quest\u00f5es examinavam uma s\u00e9rie de capacidades diferentes, como vocabul\u00e1rio, matem\u00e1tica e racioc\u00ednio l\u00f3gico. Juntas, considerava-se que elas representassem a capacidade de aprendizado e pensamento abstrato de uma pessoa.<br \/>\nTerman criou tabelas das avalia\u00e7\u00f5es m\u00e9dias para cada idade. Ele podia ent\u00e3o comparar os resultados de qualquer crian\u00e7a com essa tabela e, assim, identificar sua idade mental. A avalia\u00e7\u00e3o de QI era calculada dividindo-se a idade mental pela idade cronol\u00f3gica, multiplicando essa rela\u00e7\u00e3o por 100.<br \/>\nUma crian\u00e7a com 10 anos de idade que tivesse a mesma avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia das crian\u00e7as de 15 anos, por exemplo, teria QI 150. Uma crian\u00e7a de 10 anos que raciocinasse como outra de nove teria QI 90.<br \/>\nOs gr\u00e1ficos de avalia\u00e7\u00f5es de QI pareciam formar uma &#8220;distribui\u00e7\u00e3o normal&#8221;, na forma de sino centralizado na avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de 100 pontos. Isso significava que a quantidade de pessoas acima e abaixo da m\u00e9dia era a mesma e os QIs nas extremidades eram incrivelmente raros.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 nada sobre um indiv\u00edduo que seja t\u00e3o importante quanto o QI&#8221;, declarou Terman em um artigo sobre o assunto, prevendo que a avalia\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a seria o pren\u00fancio de suas realiza\u00e7\u00f5es no transcurso da vida.<br \/>\nNo in\u00edcio dos anos 1920, Terman come\u00e7ou a examinar crian\u00e7as da Calif\u00f3rnia, nos Estados Unidos, em busca de estudantes com QI de pelo menos 140, que ele considerava o limite dos g\u00eanios. Mais de mil crian\u00e7as atingiram esse n\u00edvel. Terman e seus colegas as estudariam pelas sete d\u00e9cadas seguintes.<br \/>\nMuitos desses &#8220;Cupins&#8221;, como foram afetuosamente chamados, tiveram carreiras de sucesso. A romancista e correspondente de guerra Shelley Smith Mydans foi uma delas. Outro foi Jess Oppenheimer, produtor e roteirista que ficou famoso pelo seu trabalho com a comediante americana Lucille Ball. Ela o chamava de &#8220;o c\u00e9rebro&#8221; por tr\u00e1s da sua consagrada s\u00e9rie de TV I Love Lucy.<br \/>\nQuando Terman morreu, no final dos anos 1950, mais de 30 participantes do estudo haviam sido inclu\u00eddos no livro Who&#8217;s Who in America (&#8220;Quem \u00e9 quem na Am\u00e9rica&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre), que relaciona pessoas influentes nos Estados Unidos, e quase 80 haviam sido reconhecidos em um livro de refer\u00eancia que destaca os mais importantes cientistas norte-americanos, chamado American Men of Science (&#8220;Homens de ci\u00eancia americanos&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre &#8211; e mulheres podiam ser inclu\u00eddas no livro, embora o t\u00edtulo omitisse esse fato at\u00e9 os anos 1970).<br \/>\nMas, quando se observa cuidadosamente os dados, as estat\u00edsticas n\u00e3o sugerem que pessoas com alto QI s\u00e3o mesmo destinadas a realizar grandes feitos.<br \/>\n\u00c9 importante controlar fatores que podem causar confus\u00e3o, como as circunst\u00e2ncias socioecon\u00f4micas das fam\u00edlias dos Cupins. Crian\u00e7as com pais que receberam educa\u00e7\u00e3o e t\u00eam mais recursos em casa tendem a ter melhores avalia\u00e7\u00f5es nos testes de QI e, por sua vez, esse privil\u00e9gio facilita que elas tenham sucesso na vida.<br \/>\nConsiderando todos esses fatores, os Cupins n\u00e3o tiveram resultados muito mais relevantes do que outras crian\u00e7as com antecedentes similares.<br \/>\nOutros estudos observaram as diferen\u00e7as de QI no grupo de Terman para verificar se os estudantes com avalia\u00e7\u00e3o mais alta eram proporcionalmente mais propensos a ter sucesso do que aqueles que passaram &#8220;raspando&#8221;. N\u00e3o eram.<br \/>\nQuando o psic\u00f3logo americano David Henry Feldman examinou as medidas de distin\u00e7\u00e3o profissional, como um advogado que se tornou um juiz ou um arquiteto que ganhou um pr\u00eamio de prest\u00edgio, as pessoas com QI de mais de 180 foram apenas um pouco mais bem sucedidas que aquelas com 30 ou 40 pontos a menos.<br \/>\n&#8220;QI alto n\u00e3o parece indicar &#8216;g\u00eanio&#8217; no sentido geralmente compreendido da palavra&#8221;, concluiu ele.<br \/>\nE \u00e9 revelador observar que o estudo inicial de Terman rejeitou dois meninos da Calif\u00f3rnia \u2014 William Shockley e Luis Walter Alvarez \u2014 que ganharam o Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica, enquanto nenhuma das crian\u00e7as que conseguiram a avalia\u00e7\u00e3o m\u00ednima recebeu essa premia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCriado em Nova York, Richard Feynman nunca teria tido a oportunidade de participar dos Estudos Gen\u00e9ticos da Genialidade, que aconteceram na Calif\u00f3rnia. Mas, mesmo se ele tivesse vivido perto de Stanford, onde morava Terman, seu suposto QI 125 teria feito com que ele tamb\u00e9m n\u00e3o se qualificasse.<br \/>\nMaya Angelou foi poeta, jornalista, atriz, cineasta, bailarina e ativista dos direitos civis<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nMente multifacetada<br \/>\nAs hist\u00f3rias de vida dos Cupins n\u00e3o devem prejudicar a utilidade do QI como ferramenta cient\u00edfica. Os testes de QI est\u00e3o longe da perfei\u00e7\u00e3o, mas sabemos que eles est\u00e3o correlacionados a realiza\u00e7\u00f5es educacionais e \u00e0 renda da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEles certamente ajudar\u00e3o as pessoas a compreender conceitos abstratos que s\u00e3o importantes em muitas disciplinas, particularmente em matem\u00e1tica, ci\u00eancias, engenharia ou filosofia. Mas, quando o assunto \u00e9 prever as realiza\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias que podem ser consideradas geniais, parece que eles s\u00e3o apenas uma pequena parte do quadro.<br \/>\nConsidere a capacidade de pensar com originalidade e contribuir com algo de valor para a sua disciplina \u2014 um crit\u00e9rio fundamental para avalia\u00e7\u00e3o de um g\u00eanio.<br \/>\nOs testes de intelig\u00eancia envolvem tipicamente quest\u00f5es que examinam o racioc\u00ednio verbal e n\u00e3o verbal, frequentemente com apenas uma resposta certa. Eles n\u00e3o parecem capturar elementos importantes da criatividade, como o pensamento divergente, que \u00e9 a capacidade de gerar novas ideias.<br \/>\nPara medir as realiza\u00e7\u00f5es criativas de forma geral, os psic\u00f3logos desenvolveram question\u00e1rios detalhados que perguntam \u00e0s pessoas a frequ\u00eancia com que elas se dedicam a diversas atividades criativas, como escrever textos liter\u00e1rios, compor m\u00fasica, projetar edif\u00edcios ou propor teorias cient\u00edficas.<br \/>\nFundamentalmente, pede-se \u00e0s pessoas que descrevam o reconhecimento por esses projetos \u2014 se, por exemplo, o seu trabalho j\u00e1 recebeu algum pr\u00eamio e se mereceu cobertura da imprensa. Milhares de pessoas j\u00e1 preencheram esses question\u00e1rios para diversos estudos e todos eles demonstram que o QI apresenta correla\u00e7\u00e3o apenas modesta com os resultados dos participantes nestas avalia\u00e7\u00f5es.<br \/>\nConsiderando estas descobertas, parece prov\u00e1vel que a intelig\u00eancia seja uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para grandes feitos criativos \u2014 mas, sozinha, ela n\u00e3o \u00e9 suficiente.<br \/>\nMuito al\u00e9m da intelig\u00eancia \u2014 uma s\u00e9rie de fatores psicol\u00f3gicos contribui para atingir percep\u00e7\u00f5es e conquistas criativas<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nO que mais \u00e9 necess\u00e1rio?<br \/>\nSe voc\u00ea tiver QI mais alto, pode ser mais prov\u00e1vel que tenha percep\u00e7\u00f5es criativas. Mas a sua intelig\u00eancia acima da m\u00e9dia deve ser combinada com uma s\u00e9rie de outras caracter\u00edsticas para que surja algo verdadeiramente original que se destaque.<br \/>\nIsso ajudaria a explicar por que a ampla maioria dos Cupins n\u00e3o marcou a hist\u00f3ria da forma que havia sido prevista. Apesar da sua intelig\u00eancia acima da m\u00e9dia, eles simplesmente n\u00e3o tinham as outras qualidades necess\u00e1rias para os g\u00eanios.<br \/>\nAinda estamos evoluindo nossa compreens\u00e3o de quais podem ser essas outras caracter\u00edsticas essenciais, mas a curiosidade \u00e9 uma candidata importante. A curiosidade pode ser medida por meio de question\u00e1rios que examinam o quanto as pessoas gostam de explorar novas ideias e tentar experi\u00eancias diferentes. Elas parecem ser mais criativas em tarefas de brainstorm em laborat\u00f3rio e nas suas vidas pessoais.<br \/>\nA import\u00e2ncia da curiosidade para os g\u00eanios criativos pode tamb\u00e9m ser observada em estudos de caso de figuras importantes. Embora nem sempre seja poss\u00edvel conseguir com que essas pessoas preencham seus question\u00e1rios de personalidade, os pesquisadores pediram a seus bi\u00f3grafos, familiares com os detalhes das suas vidas, que preenchessem em nome deles.<br \/>\nA tend\u00eancia dos bi\u00f3grafos foi de atribuir avalia\u00e7\u00f5es acima da m\u00e9dia em caracter\u00edsticas relacionadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e interesse intelectual.<br \/>\nO m\u00fasico de jazz do s\u00e9culo 20 John Coltrane, por exemplo, era profundamente fascinado pela f\u00e9 religiosa. Ele estudou o Cristianismo, o Budismo, o Hindu\u00edsmo e o Islamismo. Grande parte dessa influ\u00eancia pode ser percebida na sua m\u00fasica.<br \/>\nPor que a curiosidade levaria algu\u00e9m a tornar-se um g\u00eanio? A sede de conhecimento certamente motivar\u00e1 voc\u00ea a for\u00e7ar seus limites dentro da sua pr\u00f3pria disciplina, enquanto outras pessoas, com menos necessidade de saber mais, podem simplesmente desistir.<br \/>\nA curiosidade pode tamb\u00e9m incentivar algu\u00e9m a ampliar seus horizontes al\u00e9m da sua especialidade, o que parece trazer seus pr\u00f3prios benef\u00edcios.<br \/>\nOs cientistas ganhadores do Pr\u00eamio Nobel, por exemplo, costumam ter tr\u00eas vezes mais hobbies pessoais do que a m\u00e9dia das pessoas e s\u00e3o particularmente dispostos a dedicar-se a tarefas criativas, como m\u00fasica, pintura ou poesia. Esses passatempos podem treinar o c\u00e9rebro para gerar e refinar ideias, alimentando mais percep\u00e7\u00f5es originais na disciplina principal do cientista.<br \/>\nE sair em busca de diversos interesses pode tamb\u00e9m gerar uma acidental &#8220;poliniza\u00e7\u00e3o cruzada&#8221; de ideias. A qu\u00edmica Dorothy Crowfoot Hodgkin, por exemplo, ganhou um Pr\u00eamio Nobel pelos seus avan\u00e7os na cristalografia de raio X, que permitiu a ela descobrir a estrutura de subst\u00e2ncias bioqu\u00edmicas, como a penicilina e a vitamina B12.<br \/>\nMas, desde a adolesc\u00eancia, ela tinha intenso interesse por mosaicos bizantinos. Seu conhecimento da sua simetria e geometria aparentemente a ajudou a compreender como padr\u00f5es repetidos de mol\u00e9culas poderiam ser dispostos em cristais, o que foi determinante para suas pesquisas cient\u00edficas.<br \/>\nComo diz Waqas Ahmed, autor do livro O Pol\u00edmata &#8211; Revelando o Poder da Versatilidade Humana (Ed. Qualitymark, 2022): &#8220;para prestar contribui\u00e7\u00f5es inovadoras a qualquer campo de atividade, voc\u00ea precisa observar aquele campo atrav\u00e9s da lente mais ampla e buscar o m\u00e1ximo de fontes de inspira\u00e7\u00e3o poss\u00edvel&#8221;. A maestria em diferentes campos treina voc\u00ea a observar os problemas de diversos pontos de vista, o que aumenta a possibilidade de ter percep\u00e7\u00f5es originais.<br \/>\nAhmed indica a poetisa, jornalista, escritora, cineasta e ativista dos direitos civis Maya Angelou, que tamb\u00e9m trabalhou como cantora e dan\u00e7arina, como um exemplo moderno de pol\u00edmata. Seus diversos interesses ofereceram muito mais que a soma das suas partes e, juntos, alimentaram sua assombrosa criatividade.<br \/>\nA vida de Richard Feynman certamente se encaixa nessas tend\u00eancias. Pense em todo o tempo que ele passou na inf\u00e2ncia mexendo no seu laborat\u00f3rio, dedicando-se a projetos diferentes em diversas disciplinas.<br \/>\nQuando adulto, ele aprendeu a desenhar, tocar bong\u00f4, falar portugu\u00eas e japon\u00eas, ler hier\u00f3glifos e chegou at\u00e9 a embarcar em um projeto paralelo no campo da gen\u00e9tica.<br \/>\nUm dia, no caf\u00e9 da universidade, ele observou por acaso um homem atirando pratos e os pegando de volta. Ele reparou que os pratos oscilavam enquanto se moviam e come\u00e7ou a rascunhar equa\u00e7\u00f5es para descrever aquele movimento.<br \/>\nLogo ele percebeu que havia paralelos com a atividade dos el\u00e9trons em \u00f3rbita em volta do \u00e1tomo \u2014 e essa percep\u00e7\u00e3o levou ao seu trabalho ganhador do Pr\u00eamio Nobel sobre eletrodin\u00e2mica qu\u00e2ntica.<br \/>\nDeste exemplo cient\u00edfico isolado, pode-se concluir facilmente que a intelig\u00eancia combinada com a curiosidade seria a f\u00f3rmula da genialidade. Mas \u00e9 claro que isso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdade e que existem muito mais pe\u00e7as neste quebra-cabe\u00e7a.<br \/>\nExiste, por exemplo, a determina\u00e7\u00e3o \u2014 a busca persistente das suas paix\u00f5es, mesmo quando surgem dificuldades.<br \/>\nQualquer g\u00eanio, em qualquer disciplina, deve primeiro dominar uma enorme quantidade de conhecimento e t\u00e9cnicas antes de poder fazer suas pr\u00f3prias descobertas. Isso normalmente s\u00f3 vem com anos de pr\u00e1tica.<br \/>\nA professora de psicologia Angela Duckworth, da Universidade da Pensilv\u00e2nia, nos Estados Unidos, \u00e9 pioneira na pesquisa da determina\u00e7\u00e3o. Suas descobertas indicam que, como o QI e a curiosidade, ela contribui com diversos graus de sucesso.<br \/>\nOs g\u00eanios tamb\u00e9m empregam &#8220;estrat\u00e9gias megacognitivas&#8221;, que descrevem todos os processos que usamos para elaborar nossos projetos, monitorar nosso progresso e encontrar estrat\u00e9gias melhores e mais eficientes para fazer o que precisamos fazer.<br \/>\nSem esta reflex\u00e3o \u00fatil sobre o nosso trabalho, podemos acabar perdendo tempo que poderia ter sido mais bem empregado em pr\u00e1ticas ou explora\u00e7\u00f5es frut\u00edferas. Pode parecer \u00f3bvio, mas algumas pessoas t\u00eam dificuldade para pensar estrategicamente e aproveitar melhor os seus esfor\u00e7os, o que ir\u00e1 dificultar em muito para atingir um alto grau de realiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nPor fim, existe a humildade intelectual, que \u00e9 uma caracter\u00edstica negligenciada, mas fundamental.<br \/>\nPesquisas recentes da professora Tenelle Porter, da Universidade Estadual Ball em Muncie, Indiana (Estados Unidos), demonstram que a capacidade de reconhecer suas falhas e limita\u00e7\u00f5es amplifica o aprendizado, pois incentiva voc\u00ea a lidar com seus erros sem baixar a cabe\u00e7a e preencher as suas lacunas de pensamento. Ela contribui, no longo prazo, para aumentar seu crescimento em qualquer disciplina.<br \/>\nFeynman parece ter reconhecido este ponto. &#8220;Consigo viver com a d\u00favida e a incerteza e n\u00e3o saber. Acho muito mais interessante viver n\u00e3o sabendo do que ter respostas que podem estar erradas&#8221;, disse ele em uma entrevista para a televis\u00e3o.<br \/>\nMas, mesmo se algu\u00e9m tiver todas essas caracter\u00edsticas positivas, a sorte, sem d\u00favida, desempenha um importante papel para determinar quem se destacar\u00e1 entre seus pares. Voc\u00ea precisa estar no lugar certo, no momento certo, rodeado pelas pessoas certas, para poder fazer o m\u00e1ximo uso poss\u00edvel dos seus talentos. E at\u00e9 os indiv\u00edduos mais promissores podem facilmente perder as oportunidades para brilhar.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar um cientista brilhante que recebeu a oferta do ambiente perfeito para cultivar suas capacidades, ou um artista que perdeu todas as conex\u00f5es sociais para se tornar conhecido.<br \/>\nIsso, sem mencionar as barreiras estruturais associadas \u00e0 etnia, g\u00eanero ou sexualidade \u2014 que evitam que muitas mentes brilhantes atinjam seu potencial e o reconhecimento que elas merecem. Como mencionou Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu (Ed. Nova Fronteira, 2019), as necessidades b\u00e1sicas de criatividade, como o tempo e a privacidade para trabalhar, foram (e continuam sendo) negadas para grandes segmentos da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO papel da boa sorte nas realiza\u00e7\u00f5es oferece outra boa raz\u00e3o para que as pessoas de sucesso mantenham sua humildade, mesmo depois de terem recebido reconhecimento pelos seus feitos.<br \/>\nA curiosidade insaci\u00e1vel pode ser a fagulha necess\u00e1ria para que algu\u00e9m se torne um g\u00eanio?<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nO g\u00eanio humilde<br \/>\nInfelizmente, muitas pessoas t\u00eam uma imagem cor-de-rosa do seu caminho at\u00e9 o reconhecimento da genialidade. Elas come\u00e7am a acreditar que suas mentes excepcionais foram a garantia do sucesso e que seus julgamentos s\u00e3o infal\u00edveis. E a perda da humildade, muitas vezes, acaba manchando sua reputa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEscritores sobre ci\u00eancias v\u00eam notando h\u00e1 tempos a exist\u00eancia da &#8220;doen\u00e7a do Nobel&#8221;. Trata-se de uma express\u00e3o ir\u00f4nica, usada para descrever a tend\u00eancia de alguns ganhadores do Pr\u00eamio Nobel de formar teorias um tanto irracionais com mais idade.<br \/>\nDiversos cientistas que compareceram ao palanque da prefeitura de Estocolmo, na Su\u00e9cia, para receber o mais alto reconhecimento na sua disciplina acabaram posteriormente expressando justificativas absurdas para o negacionismo da Aids, das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e das vacinas, o racismo cient\u00edfico e endossando tratamentos pseudocient\u00edficos, como a homeopatia.<br \/>\n\u00c9 claro que S\u00f3crates nos ensinou sobre isso mil\u00eanios atr\u00e1s. Plat\u00e3o descreve, na Apologia de S\u00f3crates, como seu mestre vagueava pelas ruas de Atenas, na Gr\u00e9cia, para encontrar os poetas, artes\u00e3os e pol\u00edticos mais bem sucedidos da cidade. E, \u00e0s vezes, ele reconhecia que as pessoas mais s\u00e1bias eram aquelas que conseguiam reconhecer os limites do seu conhecimento.<br \/>\nEsta li\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para os candidatos a g\u00eanio de hoje em dia, da mesma forma que 2,4 mil anos atr\u00e1s. N\u00e3o importa quanto talento voc\u00ea tenha, sempre haver\u00e1 algo que voc\u00ea desconhece.<br \/>\nLeia a vers\u00e3o original desta reportagem (em ingl\u00eas) no site BBC Future.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-63639344<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diversos fatores psicol\u00f3gicos contribuem para que as pessoas atinjam n\u00edveis assombrosos de percep\u00e7\u00e3o e criatividade. 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