{"id":23050,"date":"2022-12-02T16:11:18","date_gmt":"2022-12-02T16:11:18","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/02\/fraudes-escassez-e-tradicao-por-que-o-brasileiro-ainda-consome-pouco-mel\/"},"modified":"2022-12-02T16:11:18","modified_gmt":"2022-12-02T16:11:18","slug":"fraudes-escassez-e-tradicao-por-que-o-brasileiro-ainda-consome-pouco-mel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/02\/fraudes-escassez-e-tradicao-por-que-o-brasileiro-ainda-consome-pouco-mel\/","title":{"rendered":"Fraudes, escassez e tradi\u00e7\u00e3o: por que o brasileiro ainda consome pouco mel?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/fO97QB-2uAIPX-wfLlvlK87GlzM=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/H\/D\/5Ile5vQOCG6pncxBUAiA\/mel.jpg\"><br \/>   O alimento produzido pelas abelhas \u00e9 usado pela humanidade h\u00e1 mais de 10 mil anos \u2014 mas, no Brasil, n\u00e3o est\u00e1 entre as formas mais populares de ado\u00e7ar bebidas ou comidas. Entenda os motivos por tr\u00e1s disso e como os fabricantes planejam mudar esse cen\u00e1rio. O mel \u00e9 rico em a\u00e7\u00facares, especialmente glicose e frutose<br \/>\nGetty Images<br \/>\nNo Egito Antigo, os fara\u00f3s partiam para o outro mundo cercados de potes de mel. O guerreiro cartagin\u00eas An\u00edbal alimentou seu ex\u00e9rcito com mel e vinagre antes da luta contra Roma. No Antigo Testamento, Israel \u00e9 descrito como &#8220;a terra que corre leite e mel&#8221;.<br \/>\nApesar de esse produto ser consumido pela humanidade h\u00e1 pelo menos 10 mil anos, ele n\u00e3o est\u00e1 entre as principais formas de ado\u00e7ar as receitas em nosso pa\u00eds: segundo os dados das associa\u00e7\u00f5es do setor de apicultura, cada brasileiro consome menos de 2,5 colheres de sopa de mel a cada ano.<br \/>\nMEL FALSO: saiba quais os riscos, como identificar e denunciar<br \/>\nDE ONDE VEM O MEL? g1 mostra colmeia de perto e explica trabalho duro das abelhas, que incluir at\u00e9 vomitar o n\u00e9ctar<br \/>\nMAIS V\u00cdDEOS que mostram como os alimentos chegam \u00e0 sua mesa<br \/>\nDe onde vem o que eu como: Mel<br \/>\n Para ter ideia, os su\u00ed\u00e7os ingerem 1,5 quilo desse alimento todos os anos \u2014 o que representa umas 100 colheres de sopa. Na Alemanha, essa taxa fica em 960 gramas por pessoa a cada 12 meses.<br \/>\nMesmo em compara\u00e7\u00e3o com os nossos vizinhos, o consumo no pa\u00eds fica bem abaixo: os argentinos comem cerca de 285 gramas ao ano, ante menos de 60 gramas no Brasil.<br \/>\nConsumo ed mel pelo mundo<br \/>\nBBC<br \/>\n\u00c9 importante que ressaltar que mesmo com o consumo de mel dos brasileiros estando abaixo da m\u00e9dia de outros pa\u00edses, ele ainda assim est\u00e1 acima do limite recomendado para cada pessoa pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), considerando-se uma dieta de 2 mil calorias por dia (leia mais sobre isso no p\u00e9 da reportagem).<br \/>\nMas o que explica essa baixa popularidade do mel no pa\u00eds? Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil entendem que h\u00e1 v\u00e1rios motivos por tr\u00e1s disso, que v\u00e3o desde ra\u00edzes hist\u00f3ricas at\u00e9 a frequ\u00eancia das fraudes e as dificuldades de capacitar o setor no pa\u00eds.<br \/>\nPara entender todas essas quest\u00f5es, por\u00e9m, \u00e9 preciso dar um passo para tr\u00e1s e conhecer como as abelhas s\u00e3o capazes de produzir algo t\u00e3o \u00fanico na natureza.<br \/>\nAs jardineiras da floresta<br \/>\nA ec\u00f3loga Carolina Matos, diretora t\u00e9cnica do Centro de Agroecologia e Servi\u00e7os Ambientais da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de S\u00e3o Paulo, conta que as abelhas surgiram junto com as plantas com flores, h\u00e1 cerca de 135 milh\u00f5es de anos.<br \/>\n&#8220;Elas s\u00e3o decisivas para a evolu\u00e7\u00e3o de muitas esp\u00e9cies vegetais desde o in\u00edcio&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s temos plantas que dependem necessariamente das abelhas para se reproduzirem. Ou seja: a presen\u00e7a delas no ecossistema \u00e9 fundamental para a produ\u00e7\u00e3o de frutos que alimentam os animais e at\u00e9 os seres humanos&#8221;, complementa.<br \/>\nV\u00eddeo mostra iniciativa de quilombo com poliniza\u00e7\u00e3o de abelhas para fertilizar a produ\u00e7\u00e3o:<br \/>\nGente do Campo: quilombo Cafund\u00f3<br \/>\nMas essa fun\u00e7\u00e3o de jardinagem tamb\u00e9m \u00e9 essencial para as abelhas, pois \u00e9 justamente nas flores que elas coletam o n\u00e9ctar, a mat\u00e9ria-prima para a produ\u00e7\u00e3o do mel.<br \/>\nAp\u00f3s fazer a retirada na natureza, esses insetos voltam \u00e0 colmeia, onde o produto come\u00e7a a ser preparado. Outras abelhas acrescentam enzimas \u00e0 mistura, enquanto um terceiro grupo bate as asas com bastante for\u00e7a para retirar o excesso de \u00e1gua da receita.<br \/>\nLEIA MAIS:<br \/>\nDE ONDE VEM: Mel pode durar alguns anos e tem tipos venenosos<br \/>\nSA\u00daDE: Os benef\u00edcios do mel t\u00eam comprova\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<br \/>\nEVOLU\u00c7\u00c3O: Por que o mel \u00e9 um superalimento para as abelhas?<br \/>\nESP\u00c9CIES SOCIAIS: Cria\u00e7\u00e3o de abelhas sem ferr\u00e3o em casa ganha adeptos<br \/>\nAlgumas esp\u00e9cies ainda realizam uma quarta etapa: a fermenta\u00e7\u00e3o do produto.<br \/>\nO resultado final de todo esse trabalho \u00e9 o mel, um alimento riqu\u00edssimo em a\u00e7\u00facares, especialmente de dois tipos: a glicose e a frutose.<br \/>\nA reprodu\u00e7\u00e3o de algumas plantas depende exclusivamente do trabalho das abelhas<br \/>\nGetty Images<br \/>\nMas por que elas realizam todo esse trabalho?<br \/>\n&#8220;O mel \u00e9 o alimento e a principal fonte de a\u00e7\u00facares e de energia das abelhas&#8221;, responde o entom\u00f3logo Cristiano Menezes, chefe de Pesquisa &#038; Desenvolvimento da Embrapa Meio Ambiente.<br \/>\nAl\u00e9m do mel, as colmeias tamb\u00e9m fabricam outros produtos, como o p\u00f3len, o pr\u00f3polis e a cera.<br \/>\n&#8220;O p\u00f3len tamb\u00e9m serve como alimento para elas. Retirado das flores, ele \u00e9 a fonte de prote\u00ednas da alimenta\u00e7\u00e3o desses seres&#8221;, explica Matos.<br \/>\n&#8220;Fazendo uma compara\u00e7\u00e3o, o mel \u00e9 o arroz e o p\u00f3len \u00e9 o feij\u00e3o das abelhas&#8221;, brinca a especialista.<br \/>\nJ\u00e1 a cera serve como a estrutura que forma os favos ou os outros recipientes onde o mel \u00e9 estocado. O pr\u00f3polis, por sua vez, preenche buracos e funciona como uma esp\u00e9cie de produto de limpeza, para manter sujeiras, bact\u00e9rias, fungos, v\u00edrus e outros agentes infecciosos bem longe da colmeia.<br \/>\nBaixa popularidade no Brasil<br \/>\nEmbora o mel seja consumido por seres humanos h\u00e1 mil\u00eanios, no Brasil ele est\u00e1 longe de ser uma das principais formas de ado\u00e7ar bebidas e comidas \u2014 ou ser visto como uma sobremesa em si.<br \/>\nAl\u00e9m do baixo consumo mencionado no in\u00edcio da reportagem, a pr\u00f3pria produtividade do pa\u00eds est\u00e1 aqu\u00e9m do ideal.<br \/>\nDados compilados pela Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Estudos das Abelhas (conhecida pelo acr\u00f4nimo Abelha) revelam que a quantidade de mel gerado por cada colmeia ao longo do ano fica bem abaixo do observado em outros pa\u00edses.<br \/>\nNo Brasil, a produtividade \u00e9 de 15 kg\/colmeia\/ano. A taxa \u00e9 inferior ao obtido nos Estados Unidos (30 kg), na Argentina (35 kg), na China (50 kg) e na Austr\u00e1lia (105 kg).<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o das colmeias de acordo com cada pais<br \/>\nBBC<br \/>\n&#8220;Isso acontece porque n\u00f3s n\u00e3o somos profissionais. A apicultura \u00e9 vista como uma terceira ou quarta atividade para os pequenos produtores rurais&#8221;, avalia Daniel Cavalcante, doutor em tecnologia de alimentos pela Universidade Estadual de Campinas e CEO da Baldoni Corp.<br \/>\n&#8220;Ou seja, o sujeito cria su\u00ednos, tem algumas vacas de onde tira leite para vender \u00e0s cooperativas e, por acaso, tem umas 30 ou 40 colmeias, das quais ele retira o mel uma vez por ano&#8221;, descreve.<br \/>\nEm outras partes do mundo, os apicultores chegam a cuidar de mil colmeias e utilizam t\u00e9cnicas de melhoramento gen\u00e9tico para ampliar a quantidade de alimento obtido a cada temporada.<br \/>\nEm n\u00fameros absolutos, a produ\u00e7\u00e3o de mel no Brasil vem crescendo aos poucos: em 2004, foram 32,3 mil toneladas, n\u00famero que cresceu para 55,8 mil toneladas em 2021, de acordo com o IBGE.<br \/>\nProdu\u00e7\u00e3o de mel no Brasil<br \/>\nBBC<br \/>\nMesmo assim, a quantia fica bem abaixo de China (458,1 mil toneladas), Turquia (104,1 mil toneladas), Ir\u00e3 (80 mil toneladas) e Argentina (74,4 mil toneladas), segundo os registros das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<br \/>\nCavalcante tamb\u00e9m aponta outro problema: a maior parte do mel produzido no Brasil \u00e9 enviado para o exterior \u2014 e essa propor\u00e7\u00e3o vem aumentando ano ap\u00f3s ano.<br \/>\nEm 2016, 61% da produ\u00e7\u00e3o nacional foi exportada. Essa taxa cresceu para 84% em 2021.<br \/>\nOu seja: mesmo que os brasileiros resolvessem consumir mais mel a partir de hoje, n\u00e3o haveria uma quantidade suficiente para suprir de imediato esse aumento da demanda.<br \/>\n&#8220;O que precisamos \u00e9 profissionalizar o setor, conhecer melhor os n\u00fameros, treinar os agricultores e planejar o futuro para, no m\u00ednimo, dobrar a produtividade e chegar a 100 mil toneladas nos pr\u00f3ximos dois ou tr\u00eas anos&#8221;, projeta Cavalcante.<br \/>\nRa\u00edzes hist\u00f3ricas<br \/>\nNo livro Hist\u00f3ria da Alimenta\u00e7\u00e3o no Brasil, o historiador e soci\u00f3logo Lu\u00eds da C\u00e2mara Cascudo (1898-1996) faz algumas refer\u00eancias sobre o mel e o papel desse ingrediente na culin\u00e1ria nacional.<br \/>\nCascudo afirma que o mel era &#8220;amado pelas tr\u00eas bocas da etnia brasileira&#8221;.<br \/>\nSegundo o pesquisador, &#8220;nem os negros e nem os amerabas [ind\u00edgenas] faziam doces, al\u00e9m da pura degusta\u00e7\u00e3o da sacarose vegetal e mastigar os favos das colmeias, com cera, abelhas e mel, conjuntos&#8221;.<br \/>\nMas boa parte dessa tradi\u00e7\u00e3o se enfraqueceu a partir do s\u00e9culo 17, quando as planta\u00e7\u00f5es de cana de a\u00e7\u00facar dominaram o territ\u00f3rio brasileiro e viraram a principal commodity do pa\u00eds.<br \/>\n&#8220;O baixo consumo de mel tem ra\u00edzes hist\u00f3ricas e come\u00e7a quando os holandeses chegaram ao Brasil e plantaram a cana&#8221;, lembra Cavalcante.<br \/>\nA cultura canavieira facilitou o acesso ao a\u00e7\u00facar no Brasil<br \/>\nGetty Images<br \/>\nIsso garantiu uma alta disponibilidade de a\u00e7\u00facar para os brasileiros \u2014 e influenciou na confec\u00e7\u00e3o dos doces t\u00edpicos do pa\u00eds, como as conservas e as compotas de frutas tropicais.<br \/>\nEm seus escritos, Cascudo lembra que o excesso de do\u00e7ura dos pratos brasileiros chamava a aten\u00e7\u00e3o de quem vinha do exterior.<br \/>\n&#8220;Gilberto Freyre adverte a distin\u00e7\u00e3o entre o nosso e o paladar de estrangeiros pouco familiar ao a\u00e7\u00facar, que foi produto tropical, encontrando uma inalter\u00e1vel e mon\u00f3tona identidade na do\u00e7aria brasileira. O a\u00e7\u00facar, escondendo o sabor leg\u00edtimo do fruto, como se queixava Saint-Hilaire dos mineiros em 1818.&#8221;<br \/>\n&#8220;A Europa dependia da importa\u00e7\u00e3o do a\u00e7\u00facar da \u00c1frica ou do Brasil, que era muito caro. Com isso, muitos indiv\u00edduos de l\u00e1 dependiam do mel para fazer as receitas&#8221;, complementa Cavalcante.<br \/>\nCONHE\u00c7A AS ABELHAS:<br \/>\nAbelha sem ferr\u00e3o que constr\u00f3i entrada de ninho no formato de boca de sapo<br \/>\nSaiba como identificar a abelha que chega a dividir espa\u00e7o no ninho com formigas<br \/>\nEntenda como s\u00e3o as 2 esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o que fazem ninhos subterr\u00e2neos<br \/>\nE isso repercute nos h\u00e1bitos daqui at\u00e9 hoje. Os pesquisadores apontam que, para muitos brasileiros, o mel ainda \u00e9 encarado mais como um rem\u00e9dio para tosses, dores de garganta e resfriado do que como um ingrediente de receitas culin\u00e1rias.<br \/>\n&#8220;E, apesar de o mel de fato ter algumas propriedades medicinais, ele \u00e9 um alimento&#8221;, contrap\u00f5e o entomologista Bruno de Almeida Souza, pesquisador da Embrapa Meio-Norte.<br \/>\n&#8220;Por isso, a venda dele \u00e9 regulamentada pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, e n\u00e3o pela Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria, a Anvisa&#8221;, acrescenta.<br \/>\nRecipientes para l\u00e1 de suspeitos<br \/>\nPara completar a lista de motivos para a baixa popularidade, n\u00e3o d\u00e1 para se esquecer do pre\u00e7o elevado do mel no mercado nacional e da quantidade consider\u00e1vel de fraudes nesse setor.<br \/>\n&#8220;Falamos de um dos alimentos mais adulterados do mundo, ao lado do azeite de oliva&#8221;, destaca Cavalcante.<br \/>\nE isso acontece pela facilidade de substituir o mel puro por outros ingredientes muito parecidos em termos de sabor, textura e colora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUma das fraudes mais frequentes \u00e9 o acr\u00e9scimo de xarope de glicose, obtido a partir da cana de a\u00e7\u00facar ou do milho.<br \/>\nMas os esquemas para enganar o consumidor est\u00e3o ficando cada vez mais sofisticados, e hoje s\u00e3o encarados pelo setor como um &#8220;problema mundial&#8221;.<br \/>\n&#8220;A \u00c1sia tem uma tradi\u00e7\u00e3o de falsifica\u00e7\u00e3o do mel muito intensa e isso tem se agravado. Na Mal\u00e1sia, por exemplo, mais de 70% dos frascos de mel encontrados no mercado tinham algum n\u00edvel de adultera\u00e7\u00e3o&#8221;, calcula Menezes.<br \/>\nEmbora n\u00e3o exista uma estat\u00edstica oficial sobre fraudes no Brasil, os pesquisadores observam que aqui essas pr\u00e1ticas ainda s\u00e3o mais artesanais \u2014 e geralmente acontecem com aqueles produtos vendidos na beira da estrada, em feiras livres ou de porta em porta, em garrafas de vidro fechadas com rolha de corti\u00e7a.<br \/>\n&#8220;Essas op\u00e7\u00f5es t\u00eam tudo para apresentar alguma falsifica\u00e7\u00e3o. Na melhor das hip\u00f3teses, aquilo at\u00e9 \u00e9 mel, mas foi produzido sem os padr\u00f5es de higiene exigidos e traz peda\u00e7os de abelhas e outros insetos mortos&#8221;, alerta Sousa.<br \/>\nMas ser\u00e1 que existem maneiras de o consumidor detectar essas adultera\u00e7\u00f5es?<br \/>\nA maioria dos testes caseiros divulgados nas redes sociais \u2014 como misturar mel com vinagre e outros compostos \u2014 n\u00e3o funciona, apontam os pesquisadores.<br \/>\nO \u00fanico que tem alguma validade envolve o iodo, um produto que pode ser comprado em farm\u00e1cias.<br \/>\n&#8220;Se o indiv\u00edduo n\u00e3o tem alergia a iodo, ele pode misturar duas gotinhas dessa subst\u00e2ncia com um pouco de mel e \u00e1gua. Se o conte\u00fado mudar de cor e ficar azul ou preto, isso quer dizer que existe amido ali e h\u00e1 uma falsifica\u00e7\u00e3o&#8221;, descreve Matos.<br \/>\nComo saber se o mel \u00e9 falso?<br \/>\nLuisa Blanco \/ g1<br \/>\nPor\u00e9m, por mais que funcione, esse teste n\u00e3o \u00e9 capaz de detectar todas as fraudes poss\u00edveis \u2014 ent\u00e3o pode ser que uma ou outra adultera\u00e7\u00e3o passe despercebida.<br \/>\nOs especialistas apontam que o melhor caminho, portanto, \u00e9 confiar nas institui\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o e prestar aten\u00e7\u00e3o em alguns detalhes que aparecem no r\u00f3tulo.<br \/>\n&#8220;A principal recomenda\u00e7\u00e3o para ter um mel de qualidade em casa \u00e9 comprar em grandes redes do varejo de supermercados e farm\u00e1cias, que costumam ter essa preocupa\u00e7\u00e3o em oferecer produtos de boa proced\u00eancia&#8221;, orienta Cavalcante.<br \/>\nNo r\u00f3tulo, o principal ponto de aten\u00e7\u00e3o \u00e9 o selo de inspe\u00e7\u00e3o, que pode ser federal, estadual ou municipal.<br \/>\nEsses selos informam a abrang\u00eancia de comercializa\u00e7\u00e3o do produto.<br \/>\nUm exemplo: o mel que tem o selo de inspe\u00e7\u00e3o municipal de Atibaia, em S\u00e3o Paulo, s\u00f3 pode ser vendido nesta cidade.<br \/>\nJ\u00e1 os frascos que trazem o Selo de Inspe\u00e7\u00e3o Federal, ou SIF, emitido pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento, est\u00e3o liberados para compra em todo o territ\u00f3rio nacional.<br \/>\nO SIF, selo emitido pelo Minist\u00e9rio da Agricultura, indica que o produto passou por uma inspe\u00e7\u00e3o<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o<br \/>\n&#8220;Vale tamb\u00e9m prestar aten\u00e7\u00e3o na lista de ingredientes e na tabela nutricional \u2014 e suspeitar se o r\u00f3tulo parece mal feito, ou tem algo suspeito e desatualizado&#8221;, diz Matos.<br \/>\nUma informa\u00e7\u00e3o importante: \u00e9 normal e esperado que o mel cristalize. Isso n\u00e3o significa que ele estragou ou est\u00e1 impr\u00f3prio para consumo.<br \/>\nAli\u00e1s, quando guardado da forma correta, ele \u00e9 um dos poucos alimentos que n\u00e3o apodrece. H\u00e1 registros de produtos desse tipo que foram encontrados em sarc\u00f3fagos de fara\u00f3s que, depois de mil\u00eanios, ainda estavam adequados.<br \/>\n&#8220;Se voc\u00ea quiser que o mel volte ao estado normal depois de cristalizar, basta coloc\u00e1-lo em banho maria com a \u00e1gua a cerca de 40 \u00baC&#8221;, aponta Cavalcante.<br \/>\nA legisla\u00e7\u00e3o brasileira exige que os fabricantes estabele\u00e7am uma data de validade, que no caso do mel \u00e9 de dois anos ap\u00f3s o envase \u2014 desde, claro, que o pote tenha sido guardado corretamente (longe do calor e bem tampado) e o conte\u00fado n\u00e3o apresente mudan\u00e7as no gosto ou a forma\u00e7\u00e3o de bolor.<br \/>\nOportunidades de crescimento<br \/>\nPara os profissionais que atuam na \u00e1rea, a falta de popularidade do mel entre os brasileiros representa uma oportunidade.<br \/>\nEles planejam aumentar a produtividade das colmeias nos pr\u00f3ximos anos por meio da capacita\u00e7\u00e3o dos apicultores e do desenvolvimento de novos modelos de neg\u00f3cio.<br \/>\nPara Cavalcante, a explora\u00e7\u00e3o do mel se encaixa perfeitamente no chamado &#8220;trip\u00e9 da sustentabilidade&#8221;.<br \/>\n&#8220;A apicultura gera renda no campo, ajuda a cuidar da biodiversidade e permite expandir a agricultura&#8221;, lista.<br \/>\n&#8220;Para ter ideia, manter colmeias perto de planta\u00e7\u00f5es de soja aumenta de 12 a 15% a produ\u00e7\u00e3o desse gr\u00e3o&#8221;, acrescenta.<br \/>\nIsso acontece justamente pelo papel das abelhas como &#8220;jardineiras&#8221; da natureza, ao garantir a reprodu\u00e7\u00e3o de diversas esp\u00e9cies vegetais.<br \/>\nMenezes concorda e aponta que o mel \u00e9 uma maneira de gerar renda mantendo a floresta em p\u00e9 \u2014 algo que tem sido cada vez mais discutido no Brasil.<br \/>\n &#8220;As abelhas se encaixam como uma luva nessa hist\u00f3ria. \u00c9 poss\u00edvel pensar na produ\u00e7\u00e3o de mel, pr\u00f3polis e outros produtos em \u00e1reas preservadas ou restauradas&#8221;, acredita.<br \/>\nAinda no campo das oportunidades, outro aspecto que chama a aten\u00e7\u00e3o dos especialistas brasileiros \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o das abelhas nativas.<br \/>\nUma breve explica\u00e7\u00e3o: a apicultura \u00e9 a atividade que extrai o mel a partir das abelhas da Apis mellifera e responde pela absoluta maioria do mercado produtivo.<br \/>\nMas essa abelha, conhecida no pa\u00eds como africanizada, n\u00e3o \u00e9 nativa do Brasil, apesar de ser extremamente comum. Trata-se de um h\u00edbrido, que se desenvolveu no pa\u00eds a partir do cruzamento acidental de abelhas europeias e africanas.<br \/>\nExistem cerca de 300 outras esp\u00e9cies t\u00edpicas do pa\u00eds, como \u00e9 o caso de jata\u00ed, manda\u00e7aia, uru\u00e7u, guaraipo, manduri, bugia\u2026 E elas tamb\u00e9m produzem mel \u2014 mas, ao contr\u00e1rio da Apis mellifera, n\u00e3o possuem ferr\u00e3o.<br \/>\nA explora\u00e7\u00e3o do mel dessas esp\u00e9cies \u00e9 conhecida como meliponicultura.<br \/>\nMenezes aponta que essa \u00e9 uma \u00e1rea que come\u00e7a a ganhar mais espa\u00e7o no Brasil. &#8220;E aqui n\u00f3s vamos ter m\u00e9is diferentes, com sabores mais suaves ou intensos&#8221;, informa.<br \/>\n&#8220;Existem algumas abelhas da Mal\u00e1sia que produzem um mel t\u00e3o azedo que lembra at\u00e9 o vinagre&#8221;, exemplifica.<br \/>\nA abelha jata\u00ed \u00e9 uma das esp\u00e9cies sem ferr\u00e3o encontradas no Brasil<br \/>\nGetty Images<br \/>\nO pesquisador acredita que, aos poucos, o consumidor vai conhecer e valorizar cada vez mais essas varia\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8220;\u00c9 um processo parecido ao que ocorreu com as cervejas. H\u00e1 algumas d\u00e9cadas, todas as marcas eram parecidas, sem muita diversidade nos sabores&#8221;, compara.<br \/>\n&#8220;Com o tempo, as pessoas foram se acostumando e aprendendo que existem outros aromas e gostos. Hoje temos v\u00e1rias op\u00e7\u00f5es de cervejas no mercado, que atendem a diferentes p\u00fablicos&#8221;, complementa.<br \/>\nConsuma com modera\u00e7\u00e3o<br \/>\nMas ser\u00e1 que o mel \u00e9 mesmo um alimento saud\u00e1vel? Ele pode ser um bom substituto para o a\u00e7\u00facar refinado?<br \/>\n Para come\u00e7o de conversa, as pesquisas mostram que, al\u00e9m de glicose e frutose, o mel carrega uma s\u00e9rie de compostos ben\u00e9ficos, como vitaminas, minerais e antioxidantes.<br \/>\nPara a nutricionista Eliana Giuntini, do Centro de Pesquisa em Alimentos da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), a dificuldade est\u00e1 em determinar exatamente a composi\u00e7\u00e3o deste alimento de uma forma padronizada.<br \/>\nIsso porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a nutricional consider\u00e1vel de acordo com a esp\u00e9cie da abelha e da florada da qual ela coleta o n\u00e9ctar.<br \/>\n\u00c9 comum ver no mercado mel de eucalipto, de laranjeira, de flores silvestres\u2026 E cada um ter\u00e1 uma &#8220;receita&#8221; totalmente distinta.<br \/>\n&#8220;A varia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito grande e a composi\u00e7\u00e3o do mel \u00e9 diferente de acordo com o clima, as flores, as abelhas\u2026&#8221;, refor\u00e7a.<br \/>\nA nutricionista tamb\u00e9m acredita que h\u00e1 uma certa dificuldade em determinar o \u00edndice glic\u00eamico do mel. Essa \u00e9 uma medida que permite estabelecer a rapidez com que os carboidratos aumentam e diminuem o n\u00edvel de glicose (ou a\u00e7\u00facar) no sangue.<br \/>\nEssa informa\u00e7\u00e3o \u00e9 valiosa: alimentos com um alto \u00edndice glic\u00eamico provocam um aumento da glicose num curto intervalo de tempo.<br \/>\nO cen\u00e1rio se inverte naqueles produtos em que essa medida \u00e9 considerada baixa.<br \/>\nIsso, por sua vez, interfere em quest\u00f5es como saciedade e fome \u2014 ora, se o a\u00e7\u00facar no sangue sobe e desce muito r\u00e1pido, a tend\u00eancia \u00e9 que fiquemos com vontade de comer mais vezes ao longo do dia.<br \/>\n&#8220;E o \u00edndice glic\u00eamico do mel tamb\u00e9m \u00e9 diferente de acordo com cada produto, o local, a florada, os compostos bioativos presentes\u2026&#8221;, diz.<br \/>\n&#8220;Temos distintos tipos de mel com \u00edndices glic\u00eamicos considerados altos, m\u00e9dios ou baixos&#8221;, completa.<br \/>\nPor ser muito rico em a\u00e7\u00facar, o mel deve ser consumido com modera\u00e7\u00e3o<br \/>\nGetty Images<br \/>\nQuestionada se \u00e9 poss\u00edvel determinar qual a melhor escolha entre o mel e o a\u00e7\u00facar refinado, Giuntini n\u00e3o tem d\u00favidas.<br \/>\n&#8220;Entre um e outro, eu fico com o mel. Isso porque ele tem minerais e uma s\u00e9rie de outras subst\u00e2ncias ben\u00e9ficas&#8221;, avalia.<br \/>\n&#8220;Mesmo assim, trata-se de um alimento que deve ser consumido com muita modera\u00e7\u00e3o&#8221;, pondera.<br \/>\nDe acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, as fontes de a\u00e7\u00facar devem representar 10% das calorias da dieta de um indiv\u00edduo saud\u00e1vel.<br \/>\n&#8220;Portanto, se considerarmos a m\u00e9dia de 2 mil calorias di\u00e1rias, cerca de 200 calorias podem vir dos a\u00e7\u00facares. E isso inclui bebidas ado\u00e7adas, doces, mel\u2026&#8221;, lista Giuntini.<br \/>\n&#8220;Isso representa cerca de 50 gramas no total, ou ao redor de tr\u00eas colheres de sopa de a\u00e7\u00facar por dia&#8221;, compara.<br \/>\nOs dados oficiais apontam que o brasileiro consome cerca de 80 gramas de a\u00e7\u00facar a cada 24 horas \u2014 e, portanto, j\u00e1 est\u00e1 al\u00e9m dos limites estabelecidos pelas autoridades em sa\u00fade.<br \/>\nO desafio ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 simplesmente em incluir o mel na alimenta\u00e7\u00e3o, mas pensar em como ele pode substituir e, de prefer\u00eancia, reduzir a presen\u00e7a de outras fontes de dul\u00e7or em comidas e bebidas.<br \/>\n&#8220;Um dos grandes problemas da nutri\u00e7\u00e3o \u00e9 o de encarar certos produtos como superalimentos&#8221;, lamenta Giuntini.<br \/>\n&#8220;Isso n\u00e3o existe e nenhum ingrediente faz milagres. Nem mesmo o mel&#8221;, conclui a pesquisadora.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-63820747<br \/>\nAssista a 3 epis\u00f3dios da s\u00e9rie &#8220;De onde vem o que eu como&#8221;:<br \/>\nDe onde vem a rosa<br \/>\nDe onde vem o que eu como: til\u00e1pia<br \/>\nDe onde vem o que eu como: morango<br \/>\nE ou\u00e7a o podcast &#8220;De onde vem o que eu como&#8221;:<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O alimento produzido pelas abelhas \u00e9 usado pela humanidade h\u00e1 mais de 10 mil anos \u2014 mas, no Brasil, n\u00e3o est\u00e1 entre as formas mais populares de ado\u00e7ar bebidas ou comidas. Entenda os motivos por tr\u00e1s disso e como os fabricantes planejam mudar esse cen\u00e1rio. O mel \u00e9 rico em a\u00e7\u00facares, especialmente glicose e frutose<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23051,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":{"0":"post-23050","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-economia"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23050"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23050\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23051"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}