{"id":22651,"date":"2022-12-01T10:12:22","date_gmt":"2022-12-01T10:12:22","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/01\/por-que-brasileiros-que-sonham-em-ser-medicos-estao-indo-para-a-argentina\/"},"modified":"2022-12-01T10:12:22","modified_gmt":"2022-12-01T10:12:22","slug":"por-que-brasileiros-que-sonham-em-ser-medicos-estao-indo-para-a-argentina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/01\/por-que-brasileiros-que-sonham-em-ser-medicos-estao-indo-para-a-argentina\/","title":{"rendered":"Por que brasileiros que sonham em ser m\u00e9dicos est\u00e3o indo para a Argentina"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/-yiOQDAJXVHv845QxJnrMPo_J_Q=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/i\/O\/f9oiRuQC2fTfdWE5vW4g\/bbc-argentina.jpg\"><br \/>   Presen\u00e7a de estudantes brasileiros \u00e9 muito forte no pa\u00eds vizinho \u2014 e pode ser atribu\u00edda a quest\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e educacionais. Maria Alice acredita que o acesso \u00e0 universidade na Argentina \u00e9 muito mais justo.<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\nA estudante Maria Alice de Oliveira, de 22 anos, chegou em Ros\u00e1rio, na Argentina, pouco antes da pandemia para cursar medicina. Como n\u00e3o queria fazer anos de curso pr\u00e9-vestibular, come\u00e7ou a procurar faculdades estrangeiras onde pudesse ter uma forma\u00e7\u00e3o de qualidade e sem pagar um pre\u00e7o exorbitante.<br \/>\n&#8220;Eu n\u00e3o queria ter que ficar seis anos no cursinho, pois essa \u00e9 a m\u00e9dia para passar numa faculdade p\u00fablica. J\u00e1 as particulares s\u00e3o caras e faturam muito&#8221;, conta em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<br \/>\nA jovem afirma que o acesso \u00e0 universidade no pa\u00eds vizinho \u00e9 muito mais justo e permite que estudantes com baixa renda possam ingressar nesse tipo de gradua\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAo contr\u00e1rio das faculdades tradicionais brasileiras, que apresentam vestibulares pr\u00f3prios ou usam o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) como forma de nivelar e eliminar candidatos, nas institui\u00e7\u00f5es argentinas basta se inscrever no curso, seguir um ciclo com mat\u00e9rias espec\u00edficas e, se atingir a nota exigida, o candidato de fato come\u00e7a a estudar mat\u00e9rias de medicina.<br \/>\nEm algumas universidades esse ciclo b\u00e1sico comum pode durar tr\u00eas meses, seis ou at\u00e9 um ano.<br \/>\n&#8220;Na minha faculdade, fiz um curso de ingresso que tinha mat\u00e9rias que envolviam qu\u00edmica, f\u00edsica, biologia, anatomia e para quem \u00e9 estrangeiro tem o espanhol. A gente faz esse curso de ingresso, depois tem as quest\u00f5es e entrevista com o reitor e professor. No final, eles fazem um ranking com um n\u00famero de pessoas aprovadas&#8221;, explica a estudante.<br \/>\nMesmo tendo op\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino, Maria Alice optou por uma faculdade privada pelo interc\u00e2mbio cultural e oportunidades de trabalhar na Europa no fim da gradua\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAtualmente, ela estuda no Instituto Universit\u00e1rio Italiano de Ros\u00e1rio, uma faculdade italiana que fica a quase 600 quil\u00f4metros da capital Buenos Aires.<br \/>\n&#8220;Temos materiais em ingl\u00eas e italiano e todas as mat\u00e9rias s\u00e3o em espanhol. Temos aula de ingl\u00eas m\u00e9dico e italiano para conhecer a l\u00edngua. Penso em ir para Espanha ou It\u00e1lia depois da gradua\u00e7\u00e3o, pois a Argentina tem um tratado com a Espanha&#8221;, diz a jovem que paga R$ 1,2 mil de mensalidade na atual faculdade.<br \/>\nMesmo tendo ajuda financeira dos pais e n\u00e3o podendo trabalhar por causa da carga hor\u00e1ria puxada, ela conta que viver no pa\u00eds sendo estudante \u00e9 uma realidade poss\u00edvel para muitos brasileiros que buscam qualidade de vida e ingresso em boas institui\u00e7\u00f5es.<br \/>\nHoje, ela consegue morar sozinha em um apartamento, ter gastos com alimenta\u00e7\u00e3o, passeios e mensalidade da faculdade com um custo mensal de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil.<br \/>\nFaculdade particular por R$ 600<br \/>\nCursando biomedicina no Brasil, Nattascha Dumke, de 30 anos, mudou seus planos quando come\u00e7ou a estagiar na \u00e1rea. Ao ter contato com os conte\u00fados pr\u00e1ticos, percebeu que suas aptid\u00f5es eram mais voltadas \u00e0 medicina.<br \/>\nNattascha paga R$ 600 de mensalidade pelo curso de medicina em Buenos Aires.<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\nEstudante de escola p\u00fablica, ela conta que seria quase invi\u00e1vel tentar prestar vestibular para uma faculdade p\u00fablica ou pagar uma institui\u00e7\u00e3o privada.<br \/>\n&#8220;Eu estava muito longe do conte\u00fado do ensino m\u00e9dio. N\u00e3o tinha uma base boa e teria que fazer muito tempo de cursinho. As particulares come\u00e7avam em R$ 8 mil e tinha algumas que chegavam a custar R$ 12 mil&#8221;, afirma.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que ela come\u00e7ou a procurar por faculdades na Argentina e se mudou para o pa\u00eds em 2018. No in\u00edcio, entrou na UBA  (Universidade de Buenos Aires), uma das principais refer\u00eancias em ensino p\u00fablico na Am\u00e9rica Latina.<br \/>\nAssim como as particulares, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio prestar um vestibular para ingressar na institui\u00e7\u00e3o de ensino.<br \/>\nMesmo gostando do curso, ela conta que, assim como a maioria das faculdades p\u00fablicas, sentia que a UBA carecia de estrutura em algumas modalidades. Por isso decidiu mudar a gradua\u00e7\u00e3o para uma faculdade privada, na qual paga 600 reais de mensalidade.<br \/>\n&#8220;Eu estudo na Fundaci\u00f3n Barcel\u00f3. Senti uma diferen\u00e7a no n\u00famero de alunos por sala, did\u00e1tica e achei mais moderna. Eu fiz a troca de faculdade quando estava indo para o terceiro ano&#8221;, diz.<br \/>\n&#8216;Na minha sala tem 60% de brasileiros&#8217;, diz Nattascha.<br \/>\nArquivo pessoal via BBC<br \/>\nEla tamb\u00e9m afirma que gra\u00e7as ao ensino do pa\u00eds, \u00e9 poss\u00edvel ter uma qualidade de vida excelente e morar em um bom apartamento. Ela pretende fazer o Revalida ao voltar para o Brasil, mas seu maior desejo \u00e9 trabalhar na Europa quando se formar.<br \/>\nMariel Ramos, de 33 anos, tamb\u00e9m escolheu uma faculdade particular para seguir com os estudos em medicina. Morando na cidade de Buenos Aires h\u00e1 cinco anos, ela conta que os cursinhos pr\u00e9-vestibulares a fizeram mudar os planos e optar por uma gradua\u00e7\u00e3o no exterior.<br \/>\n&#8220;Tive v\u00e1rios gastos financeiros e emocionais. A pessoa acaba se dedicando muito e de forma intensa. Fora isso, o ingresso nas faculdades particulares acaba limitando o acesso e a pessoa tem que fazer um financiamento para entrar. \u00c9 um ingresso extremamente dif\u00edcil e voc\u00ea ainda fica com d\u00edvida&#8221;, diz.<br \/>\nFormada em Ci\u00eancias Sociais por uma faculdade federal do Paran\u00e1, ela resolveu trocar de \u00e1rea e planejou a mudan\u00e7a para a capital da Argentina. Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio de muitos estudantes que t\u00eam a ajuda dos pais ou conseguem seguir com a faculdade sem trabalhar, ela precisou fazer jornada dupla e tinha uma rotina estressante, conciliando trabalho e estudos.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 trabalhei de gerente administrativo em uma assessoria especializada em tr\u00e2mites para brasileiros e equatorianos virem estudar aqui. Depois, como Inside Sales, em uma startup relacionada ao agro. Com a renda desses trabalhos, comecei um neg\u00f3cio pr\u00f3prio e desde maio estou s\u00f3 com ele&#8221;, afirma.<br \/>\nAtualmente, ela estuda medicina no per\u00edodo noturno na Universidad Abierta Interamericana (UAI).<br \/>\n&#8220;Nas particulares at\u00e9 o quarto ano voc\u00ea consegue escolher o turno. Ap\u00f3s esse per\u00edodo, a &#8216;cursada&#8217; acontece nos hospitais e n\u00e3o tem op\u00e7\u00e3o de escolha&#8221;. Ela conta que s\u00e3o seis horas todos os dias, incluindo aulas aos s\u00e1bados, que v\u00e3o das 8h \u00e0s 14h.<br \/>\nMesmo tendo um ritmo de vida mais puxado, ela afirma que vive muito bem com aproximadamente R$ 3 mil mensais.<br \/>\n&#8220;Pago R$ 1 mil por m\u00eas na minha faculdade e essa foi a melhor op\u00e7\u00e3o para mim. Tenho uma vida social bem ativa, gosto de bons restaurantes e entendo que hoje meu custo \u00e9 um pouco elevado comparado com outras pessoas&#8221;, diz.<br \/>\nEm rela\u00e7\u00e3o aos cursos no Brasil, ela acredita n\u00e3o sair perdendo na escolha, pois as mat\u00e9rias s\u00e3o muito parecidas e at\u00e9 alguns termos usados tamb\u00e9m s\u00e3o semelhantes.<br \/>\n&#8220;Minha faculdade tem at\u00e9 hospital pr\u00f3prio e eu diria que 80% do vocabul\u00e1rio \u00e9 o mesmo.&#8221;<br \/>\nConcluir o curso \u00e9 dif\u00edcil<br \/>\nEmbora o processo de admiss\u00e3o no curso pare\u00e7a f\u00e1cil, terminar a gradua\u00e7\u00e3o de medicina no pa\u00eds pode ser bem demorado e complicado.<br \/>\nAo contr\u00e1rio de muitas faculdades brasileiras, em que o professor passa as mat\u00e9rias para os alunos e h\u00e1 muitas aulas presenciais, em algumas institui\u00e7\u00f5es de ensino n\u00e3o h\u00e1 essa pr\u00e1tica. No caso da Universidade de Buenos Aires (UBA) h\u00e1 m\u00e9todos pr\u00f3prios e o estudante aprende muitas coisas sozinho.<br \/>\nDiego Alves Schmidt, de 20 anos, cursa o primeiro ano da carreira de medicina na institui\u00e7\u00e3o e defende os crit\u00e9rios adotados pela faculdade tanto na admiss\u00e3o dos alunos quanto nas provas.<br \/>\nVindo de um ritmo &#8220;fren\u00e9tico&#8221; de aulas no cursinho pr\u00e9-vestibular no Brasil, o estudante refor\u00e7a que as mat\u00e9rias do primeiro ano foram bem tranquilas.<br \/>\nO jovem destaca que o m\u00e9todo de entrada na faculdade \u00e9 o mais adequado.<br \/>\n&#8220;Eu estava em um ritmo de cursinho, que hoje considero extremamente t\u00f3xico, e que consome sua sa\u00fade mental. A melhor coisa \u00e9 n\u00e3o ter vestibular&#8221;, diz.<br \/>\nEla afirma ainda que as provas s\u00e3o orais, o que \u00e9 considerado, na vis\u00e3o dele, um diferencial na gradua\u00e7\u00e3o da Argentina. Al\u00e9m disso, \u00e9 menos prov\u00e1vel haver &#8220;colas&#8221; ou fraudes nos exames.<br \/>\n&#8220;O professor n\u00e3o vai correr atr\u00e1s de ti. \u00c9 bem diferente do Brasil e basicamente \u00e9 muito do aluno&#8221;, destaca.<br \/>\nO \u00fanico ponto negativo destacado  pelo estudante \u00e9 a falta de contato com pacientes  durante a gradua\u00e7\u00e3o. Em alguns cursos de medicina no Brasil, o estudante tem uma troca logo no primeiro ano, enquanto que, na faculdade p\u00fablica argentina, a pr\u00e1tica cl\u00ednica s\u00f3 ir\u00e1 ocorrer no quarto ano.<br \/>\n&#8220;No Brasil voc\u00ea come\u00e7a cedo nos postinhos e UPAs, por exemplo&#8221;, diz.<br \/>\nAssim como Diego, Gabriela Landini, de 18 anos, escolheu a UBA para cursar medicina na Argentina. Morando na capital h\u00e1 sete meses, ela conta que n\u00e3o achava justo ingressar em universidades por meio de um vestibular.<br \/>\n&#8220;Voc\u00ea fica muito tempo estudando em um cursinho ou pagando caro, no  fim acaba n\u00e3o passando e se frustra. Eu conhe\u00e7o pessoas que fizeram cursinho por quatro anos, desistiram e mudaram de carreira&#8221;, ressalta.<br \/>\nEla desembarcou no pa\u00eds para realizar o sonho de ser m\u00e9dica e teve o apoio de toda a fam\u00edlia, j\u00e1 que sua m\u00e3e tamb\u00e9m se mudou para o territ\u00f3rio argentino. A pesquisa para entrar na institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica come\u00e7ou com um ano de anteced\u00eancia.<br \/>\n&#8220;Tivemos que legalizar todos os documentos escolares, pessoais e ainda tive que fazer uma prova de profici\u00eancia em espanhol, porque para fazer a inscri\u00e7\u00e3o na faculdade precisava ter pelo menos um certificado com um n\u00edvel B2 no idioma&#8221;, diz.<br \/>\nEla tamb\u00e9m \u00e9 a favor do m\u00e9todo de ensino aplicado pela faculdade e ressalta que isso \u00e9 um diferencial frente ao Brasil.<br \/>\n&#8220;Aqui os estudantes s\u00e3o mais aut\u00f4nomos e vejo um incentivo para o aluno ir buscar e aprender sobre o assunto por conta pr\u00f3pria&#8221;, diz.<br \/>\nMesmo estando no primeiro ano de ensino, ela afirma que n\u00e3o pretende exercer carreira em territ\u00f3rio nacional. &#8220;Quero ir para Espanha e mais para frente posso at\u00e9 escolher algum outro pa\u00eds da Europa&#8221;, diz.<br \/>\nDefici\u00eancia come\u00e7a no ensino de base<br \/>\nMesmo o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o da Argentina e o governo do pa\u00eds n\u00e3o divulgando os n\u00fameros de quantos brasileiros entram todos os anos para cursar medicina em territ\u00f3rio argentino, a presen\u00e7a desses estudantes \u00e9 muito forte por l\u00e1.<br \/>\n&#8220;Na minha sala tem 60% de brasileiros&#8221;, destaca Nattascha. J\u00e1 Maria Alice tamb\u00e9m afirma que pelo menos um quarto dos alunos da sua gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o estudantes do Brasil. Essa debandada pode ser atribu\u00edda a quest\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e educacionais.<br \/>\nSegundo Evelise Labatut Portilho, p\u00f3s-doutora em Educa\u00e7\u00e3o e professora do programa stricto sensu de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Educa\u00e7\u00e3o da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Paran\u00e1 (PUCPR), o problema do acesso a faculdades de medicina no Brasil se d\u00e1, principalmente, pelas car\u00eancias no ensino de base.<br \/>\nA especialista tamb\u00e9m afirma que m\u00e9todos como vestibulares s\u00f3 servem ainda mais para excluir candidatos e aumentar a desigualdade educacional.<br \/>\n&#8220;Tem alunos que n\u00e3o conseguem ler e fazer um c\u00e1lculo mental. A solu\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 que as institui\u00e7\u00f5es deixem de ser empresas e voltem a ser institui\u00e7\u00f5es de ensino&#8221;, opina.<br \/>\nConsiderada uma profiss\u00e3o ainda elitista, cursar medicina no Brasil requer muito dinheiro se o candidato ingressar em uma faculdade particular ou anos de estudo para recuperar as mat\u00e9rias que n\u00e3o foram aprendidas durante o ensino m\u00e9dio em uma escola p\u00fablica, por exemplo.<br \/>\nSandro Schreiber, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica (ABEM), ressalta que \u00e9 necess\u00e1rio democratizar o acesso para que n\u00e3o haja essa &#8220;fuga&#8221; de estudantes.<br \/>\n&#8220;As pol\u00edticas de cotas melhoraram muito, mas ainda \u00e9 um curso muito elitizado. Investir nisso seria uma das formas e \u00e9 at\u00e9 mais eficiente para mudar o perfil da forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica no Brasil&#8221;, diz.<br \/>\nContudo, Schreiber n\u00e3o v\u00ea como uma problem\u00e1tica um profissional se formar em outro pa\u00eds. &#8220;Se o m\u00e9dico est\u00e1 bem formado, ele sabe onde buscar conhecimento das coisas que ele n\u00e3o aprendeu&#8221;, diz.<br \/>\nPara ele, o mais importante \u00e9 olhar para a forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que deve, sobretudo, cumprir um papel social na sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;O m\u00e9dico no Brasil precisa ser um profissional que atue numa pol\u00edtica social e n\u00e3o s\u00e3o todos os pa\u00edses que fazem isso. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade em qualquer lugar. Estados Unidos, por exemplo, n\u00e3o faz isso&#8221;, destaca.<br \/>\nEle ainda chama aten\u00e7\u00e3o para a melhoria das universidades que oferecem medicina no Brasil. Segundo o presidente da ABEM, falta fiscaliza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao ensino oferecido nessas institui\u00e7\u00f5es, incluindo as da rede p\u00fablica e privada.<br \/>\n&#8220;O Estado precisa autorizar cursos em locais que haja necessidade e, claro, realizar avalia\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas. Isso n\u00e3o tem sido exercido e precisa ser retomado com urg\u00eancia.&#8221;<br \/>\nDe acordo com os \u00faltimos dados divulgados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), o Brasil tem atualmente 353 faculdades de medicina, sendo que 173 delas foram abertas entre 2011 e 2021.<br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio revalidar o diploma<br \/>\nTerminar a gradua\u00e7\u00e3o no pa\u00eds vizinho e voltar para o territ\u00f3rio nacional n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples, caso o brasileiro queira exercer a profiss\u00e3o de m\u00e9dico.<br \/>\nAo retornar, \u00e9 necess\u00e1rio prestar o Exame Nacional de Revalida\u00e7\u00e3o de Diplomas M\u00e9dicos Expedidos por Institui\u00e7\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o Superior Estrangeira, conhecido como  Revalida. A prova \u00e9 destinada aos estrangeiros formados fora do pa\u00eds e a brasileiros que se graduaram no exterior. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 dividida em duas etapas eliminat\u00f3rias, que possuem provas escritas e de habilidades cl\u00ednicas.<br \/>\n&#8220;\u00c9 essencial que o Brasil tenha essa avalia\u00e7\u00e3o da qualifica\u00e7\u00e3o. Em outros pa\u00edses s\u00e3o realizadas at\u00e9 outras exig\u00eancias quanto \u00e0 pr\u00e1tica e o local de forma\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma perspectiva de que nos Estados Unidos s\u00f3 ser\u00e3o habilitados para fazer a prova, estudantes que tenham se formado em escolas de qualidade&#8221;, explica Julio Braga, coordenador da Comiss\u00e3o de Ensino M\u00e9dico do Conselho Federal de Medicina.<br \/>\nSchreiber tamb\u00e9m defende o modelo de prova e acredita que mesmo que o exame reprove muita gente, n\u00e3o \u00e9 uma prova inating\u00edvel.<br \/>\n&#8220;Obviamente pode haver adequa\u00e7\u00f5es e revis\u00f5es, mas n\u00e3o \u00e9 uma avalia\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel&#8221;, diz.<br \/>\nBraga acredita que o alto \u00edndice de reprova\u00e7\u00e3o se d\u00e1 \u00e0 baixa qualifica\u00e7\u00e3o dos estudantes.<br \/>\n&#8220;Inicialmente, o exame \u00e9 feito dentro de metodologias bem reconhecidas, a imensa maioria n\u00e3o questiona a qualidade do Revalida. Ent\u00e3o, a baixa taxa de aprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 porque o exame seja ruim. Eu acredito que os formados no exterior na verdade n\u00e3o t\u00eam a capacita\u00e7\u00e3o adequada. Muitos fizeram medicina em pa\u00edses cuja metodologia e pr\u00e1tica s\u00e3o question\u00e1veis.&#8221;<br \/>\nAtualmente, o Revalida pode ser feito duas vezes ao ano, no primeiro e segundo semestre. De acordo com dados divulgados pela institui\u00e7\u00e3o, no segundo semestre durante a primeira etapa, 5.259 brasileiros se inscreveram no teste, sendo que 680 foram aprovados, correspondendo a 12,93%. J\u00e1 na segunda etapa foram 1.318 inscritos, com zero aprova\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-63782955<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presen\u00e7a de estudantes brasileiros \u00e9 muito forte no pa\u00eds vizinho \u2014 e pode ser atribu\u00edda a quest\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e educacionais. Maria Alice acredita que o acesso \u00e0 universidade na Argentina \u00e9 muito mais justo. 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