{"id":22603,"date":"2022-12-01T07:11:07","date_gmt":"2022-12-01T07:11:07","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/01\/aos-102-anos-sobrevivente-de-grande-fome-da-era-sovietica-quer-ver-a-ucrania-vencer\/"},"modified":"2022-12-01T07:11:07","modified_gmt":"2022-12-01T07:11:07","slug":"aos-102-anos-sobrevivente-de-grande-fome-da-era-sovietica-quer-ver-a-ucrania-vencer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/12\/01\/aos-102-anos-sobrevivente-de-grande-fome-da-era-sovietica-quer-ver-a-ucrania-vencer\/","title":{"rendered":"Aos 102 anos, sobrevivente de grande fome da era sovi\u00e9tica quer ver a Ucr\u00e2nia vencer"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/zDHM8okamYp2C1FcSOSdP4WlLUc=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/b\/W\/HQgxalShS26UOiYdDBBg\/63876816-1006.jpeg\"><br \/>   Lyubov Yarosh sobreviveu \u00e0 fome do Holodomor na d\u00e9cada de 1930, \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o comunista e \u00e0 Segunda Guerra. Agora ela ajuda soldados ucranianos na luta contra a R\u00fassia e espera ainda testemunhar o triunfo de seu pa\u00eds. O irm\u00e3o mais velho de Lyubov foi morto no Holodomor por ter ido ao vilarejo vizinho procurar nabos, e uma irm\u00e3 mais nova morreu de fome. Ela tamb\u00e9m quase morreu de desnutri\u00e7\u00e3o<br \/>\nDW<br \/>\nSentada em um sof\u00e1 em sua casa, Lyubov Yarosh desenrola um fio ap\u00f3s o outro. Ela tem dificuldade para ver e ouvir, mas est\u00e1 cheia de energia e tece incansavelmente redes de camuflagem para os soldados ucranianos que lutam por seu pa\u00eds na guerra de agress\u00e3o da R\u00fassia. A senhora de 102 anos vive no vilarejo ucraniano de Khodorkiv, a 120 km de Kiev. Ela nasceu no long\u00ednquo ano de 1920, na vizinha Pustelnyky, na regi\u00e3o de Zhytomyr.<br \/>\nNaquela \u00e9poca, a fam\u00edlia de Lyubov era considerada pr\u00f3spera porque tinha galinhas, porcos, vacas e cavalos. Mas ent\u00e3o, os animais e todos os bens dom\u00e9sticos foram confiscados pelo regime comunista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e levados para uma fazenda coletiva, como eram chamados os grandes empreendimentos agr\u00edcolas da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que deveriam ser administrados pelos membros do &#8220;coletivo socialista&#8221;.<br \/>\nQuando o Holodomor come\u00e7ou, Lyubov tinha apenas 13 anos de idade. A grande fome foi provocada intencionalmente na Ucr\u00e2nia em 1932 e 33 pela lideran\u00e7a sovi\u00e9tica, com o objetivo de for\u00e7ar os camponeses ucranianos a aderirem \u00e0s fazendas coletivas e, ao mesmo tempo, quebrar o movimento de resist\u00eancia nacional.<br \/>\nEm 1931, dezenas de milhares de intelectuais ucranianos j\u00e1 haviam sido deportados para a Sib\u00e9ria, incluindo os mais importantes poetas, escritores e artistas do pa\u00eds. Um debate p\u00fablico sobre essa persegui\u00e7\u00e3o e o Holodomor s\u00f3 p\u00f4de come\u00e7ar na Ucr\u00e2nia ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, no in\u00edcio dos anos 90.<br \/>\nEm 2006, o Parlamento ucraniano classificou o Holodomor como genoc\u00eddio contra o povo ucraniano. De acordo com historiadores ucranianos, quase quatro milh\u00f5es de pessoas morreram na Ucr\u00e2nia na d\u00e9cada de 1930 como resultado do Holodomor.<br \/>\nNesta quarta-feira (30\/11), o Bundestag (casa baixa do Parlamento alem\u00e3o) dever\u00e1 reconhecer o Holodomor como genoc\u00eddio, a pedido de quatro partidos alem\u00e3es.<br \/>\n&#8220;N\u00e3o havia nada para comer&#8221;<br \/>\n&#8220;O p\u00e3o velho n\u00e3o era suficiente, e faltava p\u00e3o novo. Aqueles que tinham batatas descascavam-nas para que brotos continuassem nas cascas. Essas cascas eram ent\u00e3o plantadas para que houvesse batatas. Foi assim que tentamos cultivar batatas&#8221;, lembra Lyubov Yarosh, com tristeza. &#8220;N\u00e3o havia nada para comer.&#8221;<br \/>\nPara sobreviver, as pessoas colhiam flores de limoeiros e urtigas, mo\u00edam-nas e assavam biscoitos feitos delas. E ch\u00e1 era feito a partir de nabos. &#8220;Mo\u00edamos um pouco de trigo e faz\u00edamos uma sopa fina, s\u00f3 para comer alguma coisa, e volt\u00e1vamos a dormir&#8221;, diz.<br \/>\nLyubov conta que todas as vacas morreram porque ningu\u00e9m podia lev\u00e1-las para os pastos. Mas as pessoas n\u00e3o tinham permiss\u00e3o para comer a carne do gado morto, que foi deliberadamente envenenada<br \/>\nDW<br \/>\nA constante desnutri\u00e7\u00e3o fez com que as m\u00e3os e os p\u00e9s de Lyubov inchassem. &#8220;Eu tinha feridas ruins e dolorosas e n\u00e3o conseguia andar. Meu pai me levou para fora&#8221;, diz. \u00c0 noite, ela tinha del\u00edrios, e seus pais temiam que ela n\u00e3o sobrevivesse.<br \/>\n&#8220;Muitas crian\u00e7as morreram de fome&#8221;<br \/>\nLyubov relata que muitas crian\u00e7as morreram de fome na \u00e9poca. &#8220;As crian\u00e7as morreram nas casas. Homens que ainda tinham alguma for\u00e7a foram de casa em casa e viram que algumas delas estavam deitadas sobre o fog\u00e3o, outras em outros lugares. Eles as recolheram, as colocaram em um carrinho e depois cavaram um grande buraco. Havia dez ou at\u00e9 mais crian\u00e7as. Elas foram todas enterradas dessa maneira.&#8221;<br \/>\nLyubov cresceu com cinco irm\u00e3os. O mais velho, Mychaylo, foi pego por uma patrulha e espancado at\u00e9 a morte por ter ido a outro vilarejo \u00e0 procura de nabos para a fam\u00edlia. E a irm\u00e3 mais nova, Olya, morreu de fome. O pai de Lyubov teve que enterrar os filhos sozinho.<br \/>\n&#8220;T\u00ednhamos um cemit\u00e9rio muito pr\u00f3ximo. Meu pai levou o filho mais velho para l\u00e1 e o enterrou&#8221;, diz Lyubov, enquanto lembra, com l\u00e1grimas nos olhos, que o irm\u00e3o e a irm\u00e3 de quatro anos foram enterrados nus e sem um caix\u00e3o. &#8220;Minha m\u00e3e ent\u00e3o encontrou um pano para envolver Olya&#8221;, diz.<br \/>\nSegundo ela, todas as vacas das fazendas coletivas morreram, porque ningu\u00e9m podia lev\u00e1-las para os pastos e aliment\u00e1-las. Mas as pessoas n\u00e3o tinham permiss\u00e3o para comer a carne do gado morto, que foi at\u00e9 deliberadamente envenenada pelos comunistas, diz Lyubov: &#8220;[O veneno] estava em garrafas e se chamava creolina. Eles abriram as vacas e as encharcaram com ele.&#8221;<br \/>\nDurante d\u00e9cadas, ucranianos n\u00e3o ousaram falar sobre todos esses horrores, por medo de acabar atr\u00e1s das grades.<br \/>\nHolodomor, Segunda Guerra e invas\u00e3o russa<br \/>\nLyubov sobreviveu ao Holodomor e tamb\u00e9m \u00e0 Segunda Guerra Mundial. Por duas vezes os nazistas tentaram deport\u00e1-la para a Alemanha para realizar trabalhos for\u00e7ados. Mas ela conseguiu escapar.<br \/>\n&#8220;Eles me levaram para a Alemanha, mas eu fugi. Quando eles quiseram me levar de casa novamente, peguei uma faca, feri minhas m\u00e3os e meu peito e coloquei sal. Eu causei tais feridas em mim mesma&#8221;, relata Lyubov. Com os ferimentos, ela n\u00e3o foi levada pelos nazistas.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 passamos por tanta coisa \u2013 fome e frio. E ainda temos que sofrer. Ainda estamos esperando por uma vit\u00f3ria, mas essa vit\u00f3ria eu ainda quero testemunhar&#8221;, diz Lyubov<br \/>\nDW<br \/>\nQuando a Segunda Guerra come\u00e7ou, Lyubov era uma jovem mulher. Ela trabalhava em uma fazenda coletiva, em uma serraria e at\u00e9 aprendeu a arar um campo com um trator, porque os homens da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica haviam sido convocados para a guerra contra a Alemanha nazista.<br \/>\nAgora, com uma idade muito avan\u00e7ada, Lyubov tem que vivenciar novamente a guerra \u2013 a guerra da R\u00fassia contra a Ucr\u00e2nia. &#8220;Esta \u00e9 a pior guerra. Deus nos livre, uma guerra dessas n\u00e3o deveria ser desejada a ningu\u00e9m&#8221;, diz Lyubov.<br \/>\n&#8220;Tr\u00eas de meus netos est\u00e3o no front&#8221;<br \/>\nAtualmente, tr\u00eas dos netos de Lyubov Yarosh est\u00e3o no front de batalha. Todos eles se voluntariaram. E a av\u00f3, enquanto isso, est\u00e1 tecendo redes de camuflagem. Junto com a filha, ela j\u00e1 entregou nove redes para os militares ucranianos. &#8220;Os meninos devem se esconder debaixo delas para que ningu\u00e9m possa atingi-los&#8221;, diz.<br \/>\nTodos os dias, a senhora de 102 anos ouve as not\u00edcias e espera que todos os soldados voltem para casa vivos. Ela tamb\u00e9m espera viver o suficiente para ver uma vit\u00f3ria ucraniana.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 passamos por tanta coisa \u2013 fome e frio. E ainda temos que sofrer. Ainda estamos esperando por uma vit\u00f3ria, mas essa vit\u00f3ria eu ainda quero testemunhar&#8221;, diz Lyubov.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lyubov Yarosh sobreviveu \u00e0 fome do Holodomor na d\u00e9cada de 1930, \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o comunista e \u00e0 Segunda Guerra. Agora ela ajuda soldados ucranianos na luta contra a R\u00fassia e espera ainda testemunhar o triunfo de seu pa\u00eds. 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