{"id":22465,"date":"2022-11-30T18:10:44","date_gmt":"2022-11-30T18:10:44","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/30\/catar-a-ilha-purpura-que-deu-aos-ricos-e-poderosos-a-cor-que-mais-desejavam\/"},"modified":"2022-11-30T18:10:44","modified_gmt":"2022-11-30T18:10:44","slug":"catar-a-ilha-purpura-que-deu-aos-ricos-e-poderosos-a-cor-que-mais-desejavam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/30\/catar-a-ilha-purpura-que-deu-aos-ricos-e-poderosos-a-cor-que-mais-desejavam\/","title":{"rendered":"Catar: a Ilha P\u00farpura que deu aos ricos e poderosos a cor que mais desejavam"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/-2UymtkDa1ROpy5jRFIL4aT7Oik=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/b\/n\/lCIZDPSmy3McNOiuHgiQ\/a-ilha-purpura-do-catar-e-descrita-como-tesouro-natural.jpg\"><br \/>   Neste local, foram encontrados os vest\u00edgios mais antigos de uma antiga ind\u00fastria que produziu uma cor associada \u00e0 realeza e \u00e0 classe dominante. A Ilha P\u00farpura do Catar \u00e9 descrita como &#8216;tesouro natural&#8217;<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nNo Catar, existe um lugar frequentemente descrito como um &#8220;tesouro natural&#8221; cujo nome n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 encantador, mas tamb\u00e9m tem uma hist\u00f3ria fascinante: a Ilha P\u00farpura.<br \/>\nHoje, \u00e9 muito valorizada por permanecer verde o ano todo em um pa\u00eds que registra menos de 71mm de precipita\u00e7\u00e3o de chuva por ano.<br \/>\n\u00c9 completamente cercada por manguezais e abriga uma grande variedade de p\u00e1ssaros, incluindo flamingos, e animais marinhos, al\u00e9m de pequenas praias e salinas naturais.<br \/>\nMas tamb\u00e9m abriga algumas ru\u00ednas, bem como os restos de alguns moluscos que lhe deram o nome por volta de 2000 a.C. e que foram a origem de uma ind\u00fastria fascinante.<br \/>\nEram com pequenos carac\u00f3is marinhos que se produzia um dos corantes mais antigos, caros e prestigiados.<br \/>\nDe fato, a Ilha P\u00farpura \u00e9 at\u00e9 hoje o mais antigo local conhecido de produ\u00e7\u00e3o dessa magn\u00edfica cor: a p\u00farpura real ou imperial, conhecida como p\u00farpura de Tiro, cidade fen\u00edcia &#8211; hoje, libanesa &#8211; que se tornou o centro da ind\u00fastria de tinturas.<br \/>\nO pano tingido de p\u00farpura de Tiro tornou os fen\u00edcios famosos. Eles o exportaram para suas col\u00f4nias, especialmente Cartago, de onde sua popularidade se espalhou, e foi adotado pelos romanos como s\u00edmbolo de autoridade e status imperial.<br \/>\nUm luxo fedorento<br \/>\nO p\u00farpura era, por\u00e9m, um paradoxo, uma contradi\u00e7\u00e3o transformada em cor.<br \/>\nP\u00farpura real, imperial ou de Tiro<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nAssociado \u00e0 realeza, \u00e0 exuber\u00e2ncia e \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o de ideais intelectuais e espirituais, por muitos mil\u00eanios foi destilado de uma gl\u00e2ndula encontrada logo atr\u00e1s do reto de carac\u00f3is marinhos espinhosos.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 sua proveni\u00eancia n\u00e3o era a mais nobre, mas tamb\u00e9m era notoriamente fedorento, embora simbolizasse superioridade.<br \/>\nDezenas de milhares de gl\u00e2ndulas hipobranquiais dissecadas, arrancadas das espirais calcificadas de carac\u00f3is marinhos (Bolinus brandaris) em putrefa\u00e7\u00e3o e deixadas para secar ao sol, eram necess\u00e1rias para colorir uma pequena amostra de tecido.<br \/>\nO processo, al\u00e9m disso, era trabalhoso e levava pelo menos duas semanas para ser conclu\u00eddo, conforme detalhado pelo autor romano Pl\u00ednio, o Velho, em sua Hist\u00f3ria Natural.<br \/>\nAs fibras retinham muito depois de tingidas o odor dos excrementos do invertebrado marinho.<br \/>\n&#8216;Murex brandaris&#8217;, 1645. Artista: Wenceslaus Hollar<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nMas, ao contr\u00e1rio de outras cores t\u00eaxteis cujo brilho desbotava rapidamente, o p\u00farpura de Tiro se iluminava com o tempo e o desgaste, uma qualidade milagrosa que levou a um pre\u00e7o exorbitante.<br \/>\nUma tabela de pre\u00e7os do ano 301 d.C. do reinado do imperador romano Diocleciano diz que uma libra de corante p\u00farpura custava 150 mil den\u00e1rios ou cerca de 3 libras de ouro (isso seria equivalente a cerca de R$ 450 mil nos dias de hoje).<br \/>\nO semideus e a ninfa<br \/>\nUma cor t\u00e3o preciosa deve ter uma lenda \u00e0 altura da linhagem daqueles que podiam us\u00e1-la. E o gram\u00e1tico grego do segundo s\u00e9culo J\u00falio Pollux deu isso a ela.<br \/>\nNo Onom\u00e1stico, ele contou que um dia o semideus H\u00e9rcules caminhava \u00e0 beira-mar com uma bela ninfa que ele cortejava quando seu cachorro come\u00e7ou a roer um caracol podre.<br \/>\nQuando a ninfa viu o focinho do cachorro manchado de p\u00farpura, pediu ao grande her\u00f3i que lhe desse uma vestimenta dessa linda cor.<br \/>\nObra de Peter Paul Rubens (por volta de 1636) retrata a descoberta do p\u00farpura por H\u00e9rcules<br \/>\nBBC<br \/>\nNa \u00e9poca em que Pollux escreveu essa lenda, o p\u00farpura era um s\u00edmbolo de majestade e poder duradouro na Gr\u00e9cia antiga h\u00e1 s\u00e9culos, embora nem sempre fosse esse o caso.<br \/>\nNo s\u00e9culo 5 a.C., os gregos consideravam que roupas caras n\u00e3o condiziam com sua identidade.<br \/>\nAl\u00e9m disso, a cor foi associada aos monarcas persas, que a usavam e se tornaram um s\u00edmbolo de tirania e decad\u00eancia ap\u00f3s as guerras greco-persas (492-449 a.C.).<br \/>\nMas a fobia foi superada e, em meados do s\u00e9culo seguinte, sua popularidade come\u00e7ou a aumentar, o que levou a uma expans\u00e3o do n\u00famero de locais de produ\u00e7\u00e3o no Mediterr\u00e2neo.<br \/>\nCom o tempo, o direito de usar p\u00farpura passou a ser controlado pela legisla\u00e7\u00e3o. Quanto mais elevada a posi\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica, com mais mantas dessa cor os dignit\u00e1rios poderiam se envolver.<br \/>\nCle\u00f3patra adorou, e, quando J\u00falio C\u00e9sar viajou ao Egito para visitar sua corte, ficou t\u00e3o fascinado com os tons de roxo que viu que voltou para casa vestindo uma toga p\u00farpura e decretou que s\u00f3 ele poderia usar aquela cor.<br \/>\nO imperador Caio J\u00falio C\u00e9sar Otaviano Augusto<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nAlguns anos depois de ter sido assassinado, Pl\u00ednio, o Velho, escreveu sobre o p\u00farpura.<br \/>\n&#8220;\u00c9 para esta cor que os seguran\u00e7as de Roma abrem caminho na multid\u00e3o; \u00e9 ela que afirma a majestade; \u00e9 isso que distingue o senador do homem comum; por pessoas vestidas com esta cor, ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o dirigidas para apaziguar os deuses; real\u00e7a qualquer vestimenta, e, na vestimenta triunfal, \u00e9 vista misturada com ouro.&#8221;<br \/>\nMas voc\u00ea tinha que us\u00e1-la com cuidado. A decis\u00e3o do rei Ptolomeu da Maurit\u00e2nia de usar p\u00farpura em uma visita ao imperador Cal\u00edgula custou-lhe a vida, segundo o historiador romano Suet\u00f4nio.<br \/>\nQuando, em 40 d.C., entrou no anfiteatro durante um espet\u00e1culo de gladiadores vestido com um belo manto daquela cor que atraiu a admira\u00e7\u00e3o de todos. Cal\u00edgula interpretou o gesto como um ato de agress\u00e3o imperial e mandou matar seu convidado.<br \/>\nNuances<br \/>\nQue a cor p\u00farpura causava derramamento de sangue lembra um fato curioso: quanto mais se assemelhava ao tom vermelho-escuro do sangue coagulado, mais preciosa era, supostamente tendo conota\u00e7\u00f5es divinas.<br \/>\nO famoso p\u00farpura de Tiro n\u00e3o era uma cor exata. Variava significativamente dependendo de onde vinham os carac\u00f3is, do mordente usado e at\u00e9 da hora do dia em que secava.<br \/>\nFios e tecidos tingidos pelo artes\u00e3o tunisiano Mohamed Ghassen Nouira<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nComo detalha o romano Vitr\u00favio em sua obra De Architectura, ao falar da cor &#8220;que entre todas \u00e9 a mais apreciada&#8221;, nas regi\u00f5es mais pr\u00f3ximas ao norte &#8220;\u00e9 negra&#8221;, mais para o oeste, &#8221; chumbo azul &#8220;, enquanto &#8220;nas regi\u00f5es quinociais, leste e oeste \u00e9 roxo. Mas, nas regi\u00f5es do sul, tem um tom avermelhado, porque est\u00e1 &#8220;mais pr\u00f3ximo do Sol&#8221;.<br \/>\nEm suma, costumava ser qualquer tom entre um lil\u00e1s p\u00e1lido e um preto arroxeado.<br \/>\nMas qualquer que seja sua nuance, sua import\u00e2ncia no mundo antigo era tal que aparece n\u00e3o apenas na Odiss\u00e9ia e na Il\u00edada de Homero, mas tamb\u00e9m na B\u00edblia.<br \/>\nDe acordo com o Evangelho de Marcos, por exemplo, os torturadores de Cristo o atormentaram em vestes p\u00farpuras, para zombar de sua condi\u00e7\u00e3o de &#8220;rei dos judeus&#8221;.<br \/>\nIncolor<br \/>\nDado seu valor, as lavanderias eram uma boa fonte de renda para os governantes, seja para arrecadar impostos ou apreend\u00ea-los.<br \/>\n&#8216;O Dia do Ju\u00edzo Final&#8217; na Capela Sistina do Vaticano (Michelangelo; 1526-1541)<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nQuando o Imp\u00e9rio Romano come\u00e7ou a declinar e a lend\u00e1ria cidade de Tiro foi tomada pelos \u00e1rabes, as lavanderias imperiais se mudaram para Constantinopla.<br \/>\nAp\u00f3s a convers\u00e3o ao cristianismo, o p\u00farpura foi usado para denotar o alto posto sacerdotal at\u00e9 que, em 1453, o sult\u00e3o Mehmed 2\u00ba conquistou a cidade.<br \/>\nPrivado do p\u00farpura e de sua renda, o papa Paulo 2\u00ba decretou em 1464 que a tinta fosse substitu\u00edda pelo igualmente caro carmesim que era produzido com o Kermes vermilio, um inseto parasita, e um mordente de alume, cujas minas na It\u00e1lia eram controladas por ele.<br \/>\nPerdeu-se o conhecimento exato da elabora\u00e7\u00e3o da p\u00farpura de Tiro, para a sorte dos carac\u00f3is que estavam em vias de extin\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo entanto, j\u00e1 tinha ra\u00edzes profundas e continuava a ser a cor da realeza, aquela com que os grandes mestres tingiam primorosamente as vestes de seres humanos ou divinos nas suas obras.<br \/>\nEm 1856, um aspirante a qu\u00edmico brit\u00e2nico de 18 anos, o brit\u00e2nico William Henry Perkin, descobriu acidentalmente, enquanto tentava encontrar uma cura para a mal\u00e1ria, um res\u00edduo artificial que poderia rivalizar com o brilho do p\u00farpura de Tiro.<br \/>\nFoi o primeiro corante sint\u00e9tico da hist\u00f3ria: anilina p\u00farpura, malve\u00edna, malva, violeta ou p\u00farpura de Perkin.<br \/>\nMais uma vez, o p\u00farpura se tornou a cor mais valorizada, mas desta vez n\u00e3o tanto por seu valor monet\u00e1rio, mas porque provocou uma revolu\u00e7\u00e3o e foi o in\u00edcio de toda a ind\u00fastria qu\u00edmica moderna.<br \/>\n&#8211; Texto originalmente publicado em http:\/\/bbc.co.uk\/portuguese\/geral-63786687<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste local, foram encontrados os vest\u00edgios mais antigos de uma antiga ind\u00fastria que produziu uma cor associada \u00e0 realeza e \u00e0 classe dominante. 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