{"id":20251,"date":"2022-11-23T07:10:21","date_gmt":"2022-11-23T07:10:21","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/23\/copa-masculina-tem-que-deixar-legado-para-as-mulheres-do-catar-diz-ana-thais-matos\/"},"modified":"2022-11-23T07:10:21","modified_gmt":"2022-11-23T07:10:21","slug":"copa-masculina-tem-que-deixar-legado-para-as-mulheres-do-catar-diz-ana-thais-matos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/23\/copa-masculina-tem-que-deixar-legado-para-as-mulheres-do-catar-diz-ana-thais-matos\/","title":{"rendered":"&#8216;Copa masculina tem que deixar legado para as mulheres do Catar&#8217;, diz Ana Tha\u00eds Matos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/OdGrrqyCBCu4_3wSsNAEXVAeN_M=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/U\/E\/zP5aqPT8K9DHbh5FyrCA\/20220822-esporte-jm-0001-68a3471.jpg\"><br \/>   1\u00aa mulher a comentar jogos do Brasil em Copa masculina na Globo comenta expectativas, inf\u00e2ncia no esporte e press\u00e3o das redes. g1 conta hist\u00f3rias das profissionais que cobrem torneio do Catar.  A comentarista Ana Tha\u00eds Matos<br \/>\nDivulga\u00e7\u00e3o\/TV Globo<br \/>\nComo futebol sempre foi assunto de mulher na casa de Ana Tha\u00eds Matos, ela lembra bem que estava ao lado da m\u00e3e e da irm\u00e3 quando viu o Brasil ser pentacampe\u00e3o em 2002. Foi a Copa mais importante da sua vida.<br \/>\n\u201cEssa Copa marcou uma virada de chave na minha cabe\u00e7a, alimentou muitos dos sonhos que eu estou realizando hoje\u201d, conta ao g1.<br \/>\nVinte anos depois, ela vive outro Mundial decisivo, agora in loco, como integrante da equipe de jornalismo esportivo da Globo, que viajou para o Catar para cobrir os jogos de 2022. Ana Tha\u00eds ser\u00e1 a primeira mulher a comentar as partidas da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira em uma Copa do Mundo masculina.<br \/>\nCriada na periferia de Itanha\u00e9m, no litoral de S\u00e3o Paulo, ela foi aluna de escola p\u00fablica, mudou-se sozinha para a capital aos 17 anos e conseguiu cursar a faculdade de jornalismo gra\u00e7as a uma bolsa de estudos.<br \/>\nAo longo de uma d\u00e9cada de profiss\u00e3o, chegou a ouvir que \u201chomem s\u00f3 quer uma mulher gostosa falando do time dele\u201d. Mas o machismo n\u00e3o a fez desistir: como comentarista, ganhou quadro fixo no programa &#8220;Encontro&#8221; e se tornou em 2018 a primeira mulher comentarista em um jogo de futebol masculino na Globo, em rede aberta.<br \/>\nHoje, ela vive seu momento de gl\u00f3ria no torneio do Catar. Mas o mais importante \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 sozinha.<br \/>\nNesta semana, o g1 conta as hist\u00f3rias das profissionais que v\u00e3o cobrir a Copa do Mundo 2022. Veja, de segunda a s\u00e1bado, entrevistas com comentaristas e narradoras que voc\u00ea j\u00e1 ouviu ou vai ouvir durante os jogos no Catar.<br \/>\n\u201cN\u00f3s sa\u00edmos do lugar do entretenimento e passamos a ocupar o lugar de opini\u00e3o dentro do jornalismo esportivo\u201d, avalia. \u201cSe voc\u00ea liga a TV de manh\u00e3 e passa pelos principais canais de esporte, sempre vai ter uma mulher debatendo.&#8221;<br \/>\nDa esq. para a dir., as narradoras Renata Silveira e Nata\u0301lia Lara e as comentaristas Renata Mendon\u00e7a e Ana Tha\u00eds Matos; todas participam da cobertura da Copa do Mundo no Catar<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\/Ana Tha\u00eds Matos<br \/>\nSua presen\u00e7a &#8211; e das colegas &#8211; \u00e9 ainda mais simb\u00f3lica no Catar, onde mulheres s\u00e3o oprimidas e vivem sempre guiadas pela tutela de pais e maridos. Em um dos mundiais mais controversos da hist\u00f3ria, as leis intolerantes do pa\u00eds anfitri\u00e3o t\u00eam gerado protestos e boicotes.<br \/>\n&#8220;A Copa do Mundo masculina tem que deixar um legado para as mulheres do Catar&#8221;, diz a comentarista. &#8220;Eu espero muito que os questionamentos sociais dessa Copa passem pelo papel da mulher, pela liberdade feminina.&#8221;<br \/>\nNa entrevista abaixo, Ana Tha\u00eds fala das outras expectativas para a Copa de 2022, relembra o in\u00edcio da rela\u00e7\u00e3o com o esporte e conta como se tornou um dos principais rostos da nova gera\u00e7\u00e3o de comentaristas esportivos.<br \/>\nTamb\u00e9m comenta a press\u00e3o que sofre na internet, nem sempre gentil com quem fala de futebol por profiss\u00e3o. Em 2020, ela chegou a ter o n\u00famero de celular vazado depois de criticar o an\u00fancio do retorno de Robinho ao Santos. Na \u00e9poca, ele respondia na Justi\u00e7a italiana a uma acusa\u00e7\u00e3o de estupro coletivo, cometido em 2013. Meses depois, o jogador foi condenado, e o acordo com o time acabou sendo desfeito.<br \/>\n&#8220;Durante muito tempo eu e outras mulheres nos sentimos muito sozinhas [nas redes sociais]. Mas eu tenho para mim que o pior j\u00e1 passou.&#8221;<br \/>\ng1 &#8211; Voc\u00ea costuma dizer que divide a vida em Copas do Mundo. Qual foi sua Copa mais importante?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; A de 2002. Eu tinha 16 para 17 anos e estava numa fase familiar muito complicada. Tinha que tomar algumas decis\u00f5es. Assisti a todos os jogos com minha m\u00e3e e minha irm\u00e3 e percebi que eu queria viver aquilo, queria estar perto. Foi depois desse Mundial que eu resolvi mudar de cidade, sair de Itanha\u00e9m para morar em S\u00e3o Paulo.<br \/>\nEssa Copa marca uma virada de chave na minha cabe\u00e7a. De alguma forma, ela me encorajou a mudar minha vida, a correr atr\u00e1s dos meus sonhos. Eu n\u00e3o sou uma pessoa de muitos planos porque acho que as coisas mudam muito r\u00e1pido, mas eu tenho muitos sonhos. E a Copa de 2002 alimentou muitos dos sonhos que eu estou realizando hoje.<br \/>\ng1 &#8211; Diante de tantos protestos e boicotes ao Catar, voc\u00ea acha que essa Copa ter\u00e1 um aspecto pol\u00edtico mais forte do que as outras?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; Vai ter um vi\u00e9s pol\u00edtico-social muito forte. As Copas s\u00e3o marcadas por isso. A Copa de 1934, por exemplo, foi usada pelo [ditador italiano Benito] Mussolini como propaganda do fascismo. A Copa sempre tem um recorte pol\u00edtico muito forte porque voc\u00ea re\u00fane pa\u00edses do mundo inteiro, praticamente. Tem muita diversidade cultural, pol\u00edtica, econ\u00f4mica, social.<br \/>\nDo ponto de vista do Brasil, como \u00e9 uma Copa depois as elei\u00e7\u00f5es, acho que tem tudo para ser mais voltada para o futebol. Mas n\u00e3o acho que vamos deixar de discutir pol\u00edtica porque uma coisa est\u00e1 associada a outra.<br \/>\nDo ponto de vista de outros pa\u00edses, a cultura isl\u00e2mica ser\u00e1 questionada por muitos ocidentais. Eu tenho trabalhado pensando muito nisso: acho que a Copa do Mundo masculina tem que deixar um legado para as mulheres do Catar. Esse \u00e9 um ponto fundamental.<br \/>\n&#8216;Vamos ter uma Copa do Mundo feminina no ano que vem e a gente quer mais mulheres praticando futebol, e tamb\u00e9m vivendo o futebol na arquibancada. Ent\u00e3o eu espero muito que os questionamentos sociais dessa Copa passem pelo papel da mulher, pela liberdade feminina.&#8221;<br \/>\nEstou esperando uma Copa muito masculina, com est\u00e1dios cheios de homens, com muitos jornalistas homens. Acho que n\u00f3s, como grupo, vamos quebrar um paradigma muito importante nesse Mundial.<br \/>\nParte da equipe do jornalismo esportivo da Globo, que viajou para o Catar para cobrir a Copa de 2022<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\/Ana Tha\u00eds Matos<br \/>\ng1 &#8211; Voc\u00ea acha que o futebol masculino tem contribu\u00eddo pra igualdade de g\u00eaneros no esporte?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; Ele \u00e9 um agente. O futebol \u00e9 um agente social, a gente nunca pode esquecer disso. \u00c0s vezes me perguntam se eu inspiro outras meninas a serem comentaristas. O mais importante para mim \u00e9 que essas meninas sejam ouvidas. No col\u00e9gio, elas t\u00eam que falar do time do cora\u00e7\u00e3o, com 9, 10 anos, e os meninos t\u00eam que ouvir e debater com elas. Acho que isso \u00e9 o principal. Se elas v\u00e3o se tornar jogadoras, jornalistas, advogadas, a\u00ed \u00e9 outra coisa.<br \/>\nA gente tem hoje pouqu\u00edssimas mulheres na linha de frente dos times masculinos. Eu estou falando de treinadoras, dirigentes, m\u00e9dicas\u2026 O ambiente do futebol ainda \u00e9 muito restrito. E o jornalismo esportivo n\u00e3o \u00e9 diferente disso, mas estamos vendo a m\u00e1quina girar.<br \/>\ng1 &#8211; Voc\u00ea j\u00e1 falou em entrevistas que o futebol enxerga a mulher num lugar de entretenimento para os homens. Isso tamb\u00e9m acontece no jornalismo esportivo?<br \/>\n&#8220;A mulher foi, e ainda \u00e9 muito invalidada no lugar da opini\u00e3o. Sempre foi permitida uma: uma apresentadora, uma comentarista, sempre um espa\u00e7o individual.&#8221;<br \/>\nA sociedade sempre impediu a chegada coletiva: uma transmiss\u00e3o s\u00f3 de mulheres, um grupo s\u00f3 de mulheres debatendo futebol, um programa s\u00f3 de mulheres, tr\u00eas mulheres e um homem&#8230; Isso \u00e9 uma conquista recente: n\u00f3s nos principais programas esportivos, que at\u00e9 ent\u00e3o eram dominados por homens. Isso mudou, eu acho que esse \u00e9 o grande ponto.<br \/>\nOuvi uma frase uma vez em 2009, que nunca esqueci.<br \/>\n&#8220;Fui pedir para fazer um teste de rep\u00f3rter numa emissora em S\u00e3o Paulo e o chefe me falou o seguinte: \u2018No esporte, no fim das contas, o homem s\u00f3 quer olhar se tem uma mulher gostosa falando do time dele e acabou\u2019. Aquilo me feriu muito.&#8221;<br \/>\nE o que eu estudo? E o meu preparo? Essas quest\u00f5es ficaram na minha cabe\u00e7a. Ser\u00e1 que \u00e9 esse o lugar que a gente vai ocupar? Ter que ser sempre o padr\u00e3o bonita e magra? Ser\u00e1 que \u00e9 isso? Aos poucos, as coisas foram mudando porque a gente foi recontando essa hist\u00f3ria. N\u00f3s sa\u00edmos do lugar do entretenimento e passamos a ocupar o lugar de opini\u00e3o dentro do jornalismo esportivo<br \/>\nSe voc\u00ea liga a TV de manh\u00e3 e passa pelos principais canais esportivos, sempre vai ter uma mulher debatendo. Eu acho que esse \u00e9 o principal legado das mulheres da minha gera\u00e7\u00e3o no jornalismo esportivo. A gente encontrou um momento em que a sociedade est\u00e1 a fim de discutir a presen\u00e7a das mulheres.<br \/>\nE n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a presen\u00e7a, mas tamb\u00e9m o ambiente que voc\u00ea proporciona para que essas mulheres consigam performar. N\u00e3o adianta colocar mulheres com caras que nos tratam mal, que nos deixam nervosas, que descredibilizam a nossa opini\u00e3o. Voc\u00ea tamb\u00e9m precisa criar um ambiente positivo para que a gente consiga ficar confort\u00e1vel naquele cen\u00e1rio.<br \/>\ng1 &#8211; Na adolesc\u00eancia, voc\u00ea chegou a tentar uma carreira como jogadora de futebol. Como nasceu essa rela\u00e7\u00e3o com o esporte?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; Cresci numa cidade do litoral de S\u00e3o Paulo, Itanha\u00e9m. E, l\u00e1, \u00e9 muito forte a quest\u00e3o do esporte. Voc\u00ea acaba sendo colocado diante do esporte porque as escolas estimulam. Joguei futsal, futebol, beach soccer e pratiquei capoeira, porque meu irm\u00e3o era das artes marciais e achava que eu deveria fazer alguma luta.<br \/>\nTamb\u00e9m fiz jazz, teatro\u2026 Eu n\u00e3o eu n\u00e3o me considero uma pessoa hiperativa, mas sempre fui muito ativa, no sentido de ter muita coisa para fazer, gostar de estar ocupada. Acabei focando no futebol, que foi o que me pegou mais. Tinha um campo de terra na rua da minha casa, e um time de meninas que n\u00f3s formamos.<br \/>\ng1 &#8211; Era uma paix\u00e3o compartilhada pela sua fam\u00edlia?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; \u00c9 mais da minha m\u00e3e. Ela \u00e9 mais voltada para o esporte, apaixonada por futebol, uma pessoa de arquibancada. Futebol sempre foi assunto l\u00e1 em casa. Tenho uma irm\u00e3 que \u00e9 muito corintiana e duas que s\u00e3o muito s\u00e3o paulinas. Meu irm\u00e3o, que \u00e9 palmeirense, era o que menos falava do assunto. Futebol, na minha casa, sempre foi um assunto das mulheres.<br \/>\nAna Tha\u00eds com a m\u00e3e, na formatura do colegial<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\/Ana Tha\u00eds Matos<br \/>\ng1 &#8211; Como voc\u00ea chegou ao jornalismo?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; Terminei o col\u00e9gio em 2003 e n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de fazer uma faculdade. Na \u00e9poca, eu j\u00e1 trabalhava em outra \u00e1rea, j\u00e1 morava sozinha. Fui muito mal nos vestibulares, ent\u00e3o eu dei um tempo, fui trabalhar com outras coisas.<br \/>\nEu estava estudando para fazer letras na USP [Universidade de S\u00e3o Paulo], porque eu queria ser professora. Achava que a faculdade de jornalismo era invi\u00e1vel para mim por dois motivos: porque as particulares eram muito caras e porque, na p\u00fablica, o vestibular era muito dif\u00edcil. Eu trabalhava e n\u00e3o tinha uma base muito forte por ter estudado em col\u00e9gio p\u00fablico, ent\u00e3o eu achava muito dif\u00edcil entrar em jornalismo na universidade p\u00fablica.<br \/>\nNo vestibular de 2007 para 2008, eu j\u00e1 tinha tomado pau em vestibulares por tr\u00eas anos seguidos. Prestei a PUC S\u00e3o Paulo e fiz a inscri\u00e7\u00e3o pelo ProUni, para ver se eu conseguia uma bolsa, porque eu n\u00e3o ia conseguir pagar a faculdade. Tinha colocado duas op\u00e7\u00f5es: letras na primeira e jornalismo na segunda, porque a faculdade de jornalismo n\u00e3o dava bolsa de 100%, s\u00f3 50%.<br \/>\nPerdi na segunda fase para letras na USP. E a\u00ed, um dia, estava na praia, em Itanha\u00e9m, e pensei: o que que eu vou fazer da minha vida? Eu n\u00e3o aguentava mais fazer cursinho pr\u00e9-vestibular, j\u00e1 trabalhava muito, 10 horas por dia. Fui abrir o e-mail numa lan house e tinha uma mensagem do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o me convocando para levar meus documentos na PUC, porque eu tinha sido aprovada para minha segunda chamada, em jornalismo. Tinha ido muito bem no Enem, especialmente na reda\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o puxaram minha bolsa de 100% para o jornalismo.<br \/>\ng1 &#8211; Voc\u00ea tem muita experi\u00eancia na reportagem de esporte. Como comentarista, sente falta da cobertura de campo?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; Eu fiquei na reportagem de 2012 a 2018. Acho que a principal mudan\u00e7a foi ter perdido um pouco do contato com a rua, com o campo. Mas, ao mesmo tempo, me deu uma vis\u00e3o mais ampla do que \u00e9 o futebol falado, da responsabilidade que temos, enquanto comunicadores, de falar sobre futebol, uma paix\u00e3o nacional.<br \/>\nEu tinha uma vis\u00e3o muito micro, do dia a dia do campo. Depois que eu passei a trabalhar por tr\u00e1s dos campos, comecei a perceber que tem um neg\u00f3cio muito maior, uma responsabilidade muito maior quando voc\u00ea fala de futebol como comentarista.<br \/>\nTive que romper com muitas fontes. Acho muito complicado voc\u00ea ficar ref\u00e9m de quem te d\u00e1 informa\u00e7\u00e3o, e ao mesmo tempo ter que criticar aquela pessoa. N\u00e3o condeno quem n\u00e3o faz isso, essa foi uma op\u00e7\u00e3o minha. Eu sou uma pessoa extremamente cr\u00edtica, \u00e0s vezes at\u00e9 de modo exagerado, e eu acho que esse foi um caminho que eu encontrei para me manter isenta.<br \/>\nAna Tha\u00eds em 2017, quando era rep\u00f3rter de campo<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\/Ana Tha\u00eds Matos<br \/>\ng1 &#8211; Voc\u00ea tem um quadro de esporte dentro de um programa que n\u00e3o \u00e9 especificamente sobre esse tema. Voc\u00ea acha que, ao longo dos anos, o jornalismo esportivo se orientou mais para pessoas leigas no assunto? Que mudan\u00e7as isso causou?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; De 2009, 2010 para c\u00e1, a gente passou, como televis\u00e3o, a tentar popularizar o que j\u00e1 \u00e9 popular. Se voc\u00ea usa uma linguagem muito acad\u00eamica, n\u00e3o importa se voc\u00ea est\u00e1 falando de pol\u00edtica, de culin\u00e1ria, de cultura, voc\u00ea vai falar com um nicho. Mas quando voc\u00ea traz para a linguagem do dia a dia, mais objetiva, mais popular, isso tende a alcan\u00e7ar um p\u00fablico maior. A TV aberta me trouxe e me ensinou isso.<br \/>\nEu trabalhei em r\u00e1dio AM, na R\u00e1dio Globo, que num primeiro momento falava para um p\u00fablico [das classes] C e D, para muitas pessoas que estavam trabalhando: o caminhoneiro, a dona de casa\u2026 N\u00e3o posso privar esse p\u00fablico de conhecer a linguagem acad\u00eamica, porque eu acho que, quanto mais voc\u00ea expande o conhecimento, mais as pessoas se sentem confort\u00e1veis. Mas, ao mesmo tempo, eu n\u00e3o posso tirar essas pessoas do debate. N\u00e3o posso usar uma linguagem que v\u00e1 exclui-las.<br \/>\nA TV aberta e o \u201cEncontro\u201d me trouxeram essa consci\u00eancia. O per\u00edodo em que eu trabalhei com a F\u00e1tima [Bernardes], principalmente. Ela me abriu muito o horizonte de como voc\u00ea pode tra\u00e7ar alguns perfis no dia a dia e atingir aqueles perfis. Eu acho que eu tenho hoje a condi\u00e7\u00e3o de atender v\u00e1rias demandas: a transmiss\u00e3o mais nichada do Premiere e do SporTV, mas tamb\u00e9m a transmiss\u00e3o e os programas da TV aberta.<br \/>\nAna Tha\u00eds com F\u00e1tima Bernardes, que apresentava o programa &#8216;Encontro&#8217;<br \/>\nReprodu\u00e7\u00e3o\/Instagram\/Ana Tha\u00eds Matos<br \/>\ng1 &#8211; Voc\u00ea faz parte de uma gera\u00e7\u00e3o de profissionais da TV que ganhou relev\u00e2ncia tamb\u00e9m nas redes sociais. Sente que isso gera uma press\u00e3o para alimentar as suas redes, mesmo quando voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 trabalhando?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; Com certeza. Eu j\u00e1 tive v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es com as redes. J\u00e1 tive um per\u00edodo em que eu estava mais engajada, em que falava: preciso fazer esse nicho acontecer.<br \/>\n&#8220;A rede social \u00e9 um espa\u00e7o conquistado, mas as pessoas est\u00e3o tentando te silenciar o tempo inteiro, dizer como voc\u00ea deve ou n\u00e3o se comportar.&#8221;<br \/>\nAo mesmo tempo, recebo muita mensagem de pessoas que n\u00e3o t\u00eam TV por assinatura e me acompanham pelo Instagram ou outra rede social. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o posso privar essas pessoas de ter acesso a um conte\u00fado. Mas tem sim essa press\u00e3o. Durante um tempo eu achei muito nociva. Hoje, eu acho que depende de mim: eu toco do jeito que d\u00e1.<br \/>\ng1 &#8211; Por comentar esporte, voc\u00ea \u00e9 frequentemente atacada nesses espa\u00e7os. Como os haters te afetam emocionalmente?<br \/>\nAna Tha\u00eds Matos &#8211; J\u00e1 foi muito pior. At\u00e9 2020, 2021, eu sofria muito. J\u00e1 aconteceu de o corpo doer, o cabelo cair, de ter que procurar ajuda da terapia. Durante muito tempo eu e outras mulheres nos sentimos muito sozinhas [nas redes sociais]. Como eu falei, estamos l\u00e1 para as pessoas falarem o que n\u00e3o devemos fazer. Eles n\u00e3o est\u00e3o acostumados com as mulheres ocupando esse espa\u00e7o. Mas eu tenho para mim que o pior j\u00e1 passou. Eu tomei algumas decis\u00f5es. Entendi que, talvez, para essas pessoas, a rede social \u00e9 tudo que elas t\u00eam. Elas precisam muito mais de mim do que eu delas.<br \/>\nEu n\u00e3o posso controlar o que as pessoas pensam ou falam sobre mim, desde que n\u00e3o sejam agressivas, que n\u00e3o inventem mentiras, como acontece o tempo inteiro: inventam coisas que eu n\u00e3o disse. Hoje eu acho que tenho uma rela\u00e7\u00e3o mais saud\u00e1vel. Fechei minha conta no Twitter, porque eu acho que \u00e9 um ambiente que n\u00e3o me acrescenta em nada. Sinto falta da troca, de comentar a novela, o \u2018BBB\u2019&#8230; Acabei perdendo esse espa\u00e7o, mas tem me feito melhor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1\u00aa mulher a comentar jogos do Brasil em Copa masculina na Globo comenta expectativas, inf\u00e2ncia no esporte e press\u00e3o das redes. g1 conta hist\u00f3rias das profissionais que cobrem torneio do Catar. 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