{"id":20247,"date":"2022-11-23T05:10:35","date_gmt":"2022-11-23T05:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/23\/a-curiosa-influencia-dos-idiomas-na-sensacao-de-tempo-e-espaco\/"},"modified":"2022-11-23T05:10:35","modified_gmt":"2022-11-23T05:10:35","slug":"a-curiosa-influencia-dos-idiomas-na-sensacao-de-tempo-e-espaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/23\/a-curiosa-influencia-dos-idiomas-na-sensacao-de-tempo-e-espaco\/","title":{"rendered":"A curiosa influ\u00eancia dos idiomas na sensa\u00e7\u00e3o de tempo e espa\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/Eza540kCNiLSqu5dVtwviijFI6k=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/V\/l\/ENX3cTQ96I04lAAczZOQ\/243.jpg\"><br \/>   Os idiomas que falamos podem influenciar de forma surpreendente nossa forma de pensar no mundo e at\u00e9 como nos movimentamos atrav\u00e9s dele Os idiomas podem exercer efeito fascinante sobre a forma em que pensamos sobre o tempo e o espa\u00e7o<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nSe algu\u00e9m pedisse para voc\u00ea andar atrav\u00e9s de um campo em diagonal, voc\u00ea saberia o que fazer? E se algu\u00e9m oferecesse a voc\u00ea 20 libras (cerca de R$ 126) hoje ou o dobro do valor em um m\u00eas, voc\u00ea iria querer esperar?<br \/>\nComo voc\u00ea alinharia 10 fotografias dos seus pais se algu\u00e9m pedisse para coloc\u00e1-las em ordem cronol\u00f3gica? Voc\u00ea as colocaria horizontal ou verticalmente? Em qual dire\u00e7\u00e3o se moveria a sua linha do tempo?<br \/>\nEstas parecem ser quest\u00f5es simples, mas, surpreendentemente, suas respostas podem ser influenciadas pelo idioma \u2014 ou os idiomas \u2014 que voc\u00ea fala.<br \/>\nNo nosso novo livro Are You Thinking Clearly? (&#8220;Estamos Pensando com Clareza?&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre) exploramos os muitos fatores internos e externos que influenciam e manipulam a forma como pensamos, desde a gen\u00e9tica at\u00e9 a tecnologia digital e a publicidade.<br \/>\nE, aparentemente, os idiomas podem exercer efeito fascinante sobre a forma em que pensamos sobre o tempo e o espa\u00e7o.<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o entre o idioma e a nossa percep\u00e7\u00e3o dessas duas importantes dimens\u00f5es \u00e9 o centro de uma quest\u00e3o debatida h\u00e1 muito tempo: o pensamento \u00e9 universal e independente da linguagem ou o idioma determina nossos pensamentos?<br \/>\nPoucos pesquisadores acreditam hoje em dia que os nossos pensamentos s\u00e3o inteiramente moldados pelo idioma \u2014 afinal, sabemos que os beb\u00eas pensam antes de come\u00e7ar a falar. Mas cada vez mais especialistas acreditam que o idioma pode influenciar como pensamos, da mesma forma que os nossos pensamentos e a nossa cultura podem moldar o desenvolvimento dos idiomas.<br \/>\n&#8220;\u00c9 realmente uma via de m\u00e3o dupla&#8221;, segundo a linguista Thora Tenbrink, da Universidade de Bangor, no Reino Unido. E, para o psic\u00f3logo cognitivo Daniel Casasanto, da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, \u00e9 dif\u00edcil ignorar as evid\u00eancias de que o idioma influencia o pensamento.<br \/>\nSabemos, por exemplo, que as pessoas se lembram das coisas \u00e0s quais prestam mais aten\u00e7\u00e3o. E diferentes idiomas nos for\u00e7am a prestar aten\u00e7\u00e3o em uma s\u00e9rie de coisas diferentes, que podem ser o g\u00eanero, o movimento ou as cores.<br \/>\n&#8220;Este \u00e9 um princ\u00edpio cognitivo que, eu acho, ningu\u00e9m mais contesta&#8221;, afirma Casasanto.<br \/>\nMesmo a dire\u00e7\u00e3o em que se l\u00ea um idioma escrito pode ter influ\u00eancia<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nOs idiomas e o tempo<br \/>\nLinguistas, neurocientistas, psic\u00f3logos e outros profissionais v\u00eam tentando h\u00e1 d\u00e9cadas descobrir as formas em que o idioma influencia os nossos pensamentos. Muitas vezes, eles se concentram em conceitos abstratos, como o tempo e o espa\u00e7o, que s\u00e3o abertos a interpreta\u00e7\u00f5es. Mas conseguir resultados cient\u00edficos n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil.<br \/>\nSe compararmos apenas o pensamento e o comportamento das pessoas que falam diferentes idiomas, \u00e9 dif\u00edcil ter certeza se as diferen\u00e7as n\u00e3o se devem \u00e0 cultura, \u00e0 personalidade ou a outro fator completamente diferente.<br \/>\nO papel central desempenhado pelo idioma na nossa express\u00e3o tamb\u00e9m dificulta sua separa\u00e7\u00e3o das outras influ\u00eancias. Mas existem formas de contornar esse dilema.<br \/>\nSabemos, por exemplo, que as pessoas frequentemente usam met\u00e1foras para pensar em conceitos abstratos \u2014 &#8220;pre\u00e7o alto&#8221;, &#8220;tempo longo&#8221; ou &#8220;mist\u00e9rio profundo&#8221;, por exemplo.<br \/>\nCasasanto ensina frequentemente \u00e0s pessoas no seu laborat\u00f3rio o uso de met\u00e1foras de outros idiomas (na sua pr\u00f3pria l\u00edngua) e pesquisa qual o impacto na sua forma de pensar.<br \/>\nDesta forma, voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 comparando pessoas de culturas diferentes, o que pode influenciar os resultados. Voc\u00ea est\u00e1 se concentrando em como o pensamento \u00e9 alterado nas mesmas pessoas, da mesma cultura, falando de duas formas diferentes. As diferen\u00e7as culturais s\u00e3o retiradas da equa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA cientista cognitiva Lera Boroditsky, uma das pioneiras das pesquisas sobre como o idioma manipula nossos pensamentos, demonstrou que os falantes do idioma ingl\u00eas tipicamente observam o tempo como uma linha horizontal.<br \/>\nEles podem transferir reuni\u00f5es para frente ou trazer os prazos para tr\u00e1s. Eles tamb\u00e9m tendem a observar o tempo como se movendo da esquerda para a direita, muito provavelmente da mesma forma que voc\u00ea est\u00e1 lendo este texto em portugu\u00eas, ou da forma em que a l\u00edngua inglesa tamb\u00e9m \u00e9 escrita.<br \/>\nEsta rela\u00e7\u00e3o entre o tempo e a dire\u00e7\u00e3o de escrita do texto tamb\u00e9m se aplica a outros idiomas. Os falantes nativos de hebraico, por exemplo, leem e escrevem da direita para a esquerda e imaginam o tempo seguindo a mesma dire\u00e7\u00e3o do seu texto.<br \/>\nSe voc\u00ea pedir para um falante de hebraico colocar fotografias em ordem cronol\u00f3gica, muito provavelmente ele come\u00e7ar\u00e1 com as imagens mais antigas \u00e0 direita e ir\u00e1 posicionar as mais recentes \u00e0 esquerda.<br \/>\nJ\u00e1 os falantes de mandarim, muitas vezes, idealizam o tempo como uma linha vertical \u2014 a parte de cima representa o passado e a de baixo, o futuro. Eles usam a palavra \u4e0b, xi\u00e0 (&#8220;baixo&#8221;) para falar sobre eventos futuros, por exemplo. Assim, &#8220;a pr\u00f3xima semana&#8221; fica, literalmente, &#8220;a semana para baixo&#8221;.<br \/>\nE, como ocorre com o ingl\u00eas e o hebraico, tamb\u00e9m est\u00e1 de acordo com a forma em que o mandarim era lido e escrito tradicionalmente \u2014 em linhas verticais, de cima para baixo.<br \/>\nEsta associa\u00e7\u00e3o entre a forma como lemos e organizamos o tempo nos nossos pensamentos tamb\u00e9m traz impactos sobre a nossa cogni\u00e7\u00e3o temporal. Falantes de diferentes idiomas processam informa\u00e7\u00f5es sobre o tempo com mais rapidez se estiverem organizadas na mesma dire\u00e7\u00e3o da escrita do seu idioma.<br \/>\nUm experimento demonstrou, por exemplo, que as pessoas que falam ingl\u00eas como \u00fanica l\u00edngua determinavam com mais rapidez se uma imagem era do passado ou do futuro (representado por imagens de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica) se o bot\u00e3o que eles precisavam pressionar para indicar o passado estivesse \u00e0 esquerda do bot\u00e3o do futuro, do que se eles estivessem na posi\u00e7\u00e3o inversa.<br \/>\nPara os falantes de ingl\u00eas, n\u00e3o fazia diferen\u00e7a se os bot\u00f5es fossem colocados um acima ou abaixo do outro.<br \/>\nO aimar\u00e1 e uma l\u00edngua aglutinante como o quechua, o japon\u00eas e o turco<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nO tempo dos bil\u00edngues<br \/>\nTudo come\u00e7a a ficar mais estranho quando observamos as mentes de pessoas que falam fluentemente mais de um idioma.<br \/>\n&#8220;Com os bil\u00edngues, voc\u00ea est\u00e1 literalmente observando dois idiomas diferentes na mesma mente&#8221;, explica o linguista Panos Athanasopoulos, da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. &#8220;Isso significa que voc\u00ea pode estabelecer um papel causal da l\u00edngua sobre a cogni\u00e7\u00e3o, se concluir que o mesmo indiv\u00edduo altera seu comportamento quando muda o contexto do idioma.&#8221;<br \/>\nFalantes bil\u00edngues de mandarim e ingl\u00eas que moram em Singapura demonstraram prefer\u00eancia pelo mapeamento do tempo mental da esquerda para a direita e n\u00e3o ao contr\u00e1rio. Mas, surpreendentemente, esse mesmo grupo tamb\u00e9m reagiu com rapidez \u00e0s imagens ordenadas no tempo se o bot\u00e3o do futuro estivesse localizado abaixo do bot\u00e3o do passado \u2014 em sintonia com o idioma mandarim.<br \/>\nIsso, de fato, tamb\u00e9m sugere que os bil\u00edngues podem ter duas vis\u00f5es diferentes de dire\u00e7\u00e3o do tempo, particularmente se aprenderem os dois idiomas desde cedo.<br \/>\nMas n\u00e3o estamos necessariamente presos a pensar de uma certa maneira para sempre. \u00c9 fascinante observar que Casasanto demonstrou que \u00e9 poss\u00edvel reverter rapidamente a representa\u00e7\u00e3o do tempo mental das pessoas, treinando-as para que leiam textos invertidos no espelho, em dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0quela a que est\u00e3o acostumadas.<br \/>\nIsso faz com que as pessoas reajam com mais rapidez a indica\u00e7\u00f5es que mostrem o tempo correndo no sentido oposto ao de costume.<br \/>\nMas tudo pode ficar ainda mais interessante. Em ingl\u00eas e em v\u00e1rios outros idiomas europeus, n\u00f3s tipicamente observamos o passado como estando atr\u00e1s de n\u00f3s e o futuro \u00e0 nossa frente. Em sueco, por exemplo, a palavra para &#8220;futuro&#8221;, framtid, significa literalmente &#8220;tempo \u00e0 frente&#8221;.<br \/>\nMas, em idioma aimar\u00e1 \u2014 falado pelo povo aimar\u00e1, que vive nos Andes da Bol\u00edvia, Chile, Peru e Argentina \u2014 a palavra para futuro significa &#8220;tempo atr\u00e1s&#8221;. O racioc\u00ednio \u00e9 que, como n\u00e3o podemos ver o futuro, ele deve estar atr\u00e1s de n\u00f3s.<br \/>\nDe fato, quando os aimar\u00e1s falam sobre o futuro, eles costumam fazer gestos voltados para tr\u00e1s. J\u00e1 as pessoas que falam espanhol, por exemplo, que veem o futuro \u00e0 sua frente, gesticulam para frente.<br \/>\nDa mesma forma que os aimar\u00e1s, os falantes de mandarim tamb\u00e9m imaginam o futuro atr\u00e1s deles, chamando &#8220;anteontem&#8221; de &#8220;dia em frente&#8221; e &#8220;depois de amanh\u00e3&#8221; de &#8220;dia atr\u00e1s&#8221;. E as pessoas bil\u00edngues que falam ingl\u00eas e mandarim tendem a alternar entre o conceito de futuro \u00e0 frente e atr\u00e1s, \u00e0s vezes de forma conflitante.<br \/>\nCasasanto observou tamb\u00e9m que as pessoas costumam usar met\u00e1foras espaciais para falar sobre a dura\u00e7\u00e3o do tempo. Em ingl\u00eas, franc\u00eas, alem\u00e3o e nos idiomas escandinavos, por exemplo, uma reuni\u00e3o pode ser &#8220;longa&#8221; e um feriado, &#8220;curto&#8221;, da mesma forma que em portugu\u00eas.<br \/>\nCasasanto demonstrou que essas met\u00e1foras s\u00e3o mais do que formas de falar. As pessoas conceitualizam os &#8220;comprimentos&#8221; de tempo como se fossem linhas no espa\u00e7o.<br \/>\nInicialmente, ele acreditava que fosse algo universal, para todas as pessoas, independentemente do idioma que elas falam. Mas, ao apresentar suas conclus\u00f5es em uma confer\u00eancia na Gr\u00e9cia, ele foi interrompido por uma pesquisadora local que insistia que isso n\u00e3o era correto no seu idioma.<br \/>\n&#8220;Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi um tanto depreciativa&#8221;, admite Casasanto, que acabou dobrando sua aposta. Mas ele conta que, em um dado momento, &#8220;parou de falar e come\u00e7ou a ouvir&#8221;.<br \/>\nE o resultado mudou o curso da sua pesquisa para concentrar-se nas diferen\u00e7as relativas ao idioma, n\u00e3o mais no pensamento universal. Ele descobriu que, na Gr\u00e9cia, as pessoas tendem a ver o tempo como uma entidade tridimensional, como uma garrafa, que pode estar cheia ou vazia. Por isso, em grego, uma reuni\u00e3o n\u00e3o \u00e9 &#8220;longa&#8221;, mas sim &#8220;grande&#8221; ou &#8220;muita&#8221;, enquanto um intervalo n\u00e3o \u00e9 &#8220;curto&#8221;, mas sim &#8220;pequeno&#8221;. E o mesmo ocorre em espanhol.<br \/>\n&#8220;Eu posso falar em &#8216;tempo longo&#8217; [em ingl\u00eas ou portugu\u00eas], mas, se usar essa express\u00e3o em grego, as pessoas ir\u00e3o achar engra\u00e7ado&#8221;, explica Athanasopoulos, que \u00e9 falante de grego nativo. &#8220;Eles ir\u00e3o pensar que estou usando de forma po\u00e9tica ou para enfatizar algo.&#8221;<br \/>\nAthanasopoulos achou fascinantes as conclus\u00f5es de Casasanto e come\u00e7ou a investigar essa quest\u00e3o.<br \/>\nEle colocou falantes de sueco e de espanhol em frente a uma tela de computador e pediu a eles que estimassem quanto tempo havia passado enquanto assistiam a uma linha crescer ou a um recipiente ficar cheio. A quest\u00e3o \u00e9 que os dois eventos ocorriam em velocidades diferentes.<br \/>\nOs falantes de sueco como \u00fanico idioma enganaram-se facilmente quando foi exibida a linha. Eles acreditavam que uma linha mais longa significava que havia decorrido mais tempo, mesmo quando n\u00e3o fosse o caso. Mas suas estimativas de tempo n\u00e3o foram influenciadas pelo enchimento de um recipiente. J\u00e1 para os falantes de espanhol, foi exatamente o contr\u00e1rio.<br \/>\nAthanasopoulos prosseguiu com seus estudos, agora observando falantes bil\u00edngues de espanhol e sueco \u2014 e suas conclus\u00f5es foram not\u00e1veis.<br \/>\nQuando a palavra para &#8220;dura\u00e7\u00e3o&#8221; em sueco (tid) aparecia no canto superior da tela do computador, os participantes estimavam o tempo usando o comprimento da linha e n\u00e3o eram prejudicados pelo volume do recipiente. Mas, quando a palavra era substitu\u00edda pelo termo em espanhol (duraci\u00f3n), os resultados se invertiam completamente.<br \/>\nE o efeito sofrido pelos bil\u00edngues devido \u00e0s met\u00e1foras de tempo do seu segundo idioma era proporcional \u00e0 sua profici\u00eancia naquela l\u00edngua.<br \/>\nIdiomas t\u00eam diferentes formas de expressar barreiras lingu\u00edsticas entre o presente e o futuro<br \/>\nGETTY IMAGES<br \/>\nOs idiomas e a f\u00edsica<br \/>\nEssas peculiaridades lingu\u00edsticas s\u00e3o fascinantes, mas qual o seu impacto real sobre o nosso pensamento?<br \/>\nCasasanto levanta um ponto curioso. Quando voc\u00ea imagina o tempo sobre uma linha, cada ponto \u00e9 fixado de forma que dois pontos no tempo n\u00e3o possam trocar de lugar \u2014 existe uma seta r\u00edgida. Mas, em um recipiente, os pontos do tempo est\u00e3o flutuando e podem ser capazes de mudar de lugar.<br \/>\n&#8220;Venho me perguntando h\u00e1 muito tempo se a nossa f\u00edsica do tempo pode ser moldada pelo fato de que os falantes de ingl\u00eas, alem\u00e3o e franc\u00eas foram fundamentais para sua cria\u00e7\u00e3o&#8221;, afirma ele.<br \/>\n\u00c9 interessante observar que o tempo \u00e9 um problema cada vez mais delicado na f\u00edsica e a impede de reunir seus diferentes ramos.<br \/>\nOs f\u00edsicos passaram muito tempo imaginando o tempo como uma seta, avan\u00e7ando de forma est\u00e1vel do passado para o futuro. Mas as teorias modernas s\u00e3o mais complicadas.<br \/>\nNa teoria da relatividade geral de Einstein, por exemplo, o tempo n\u00e3o parece fluir na maior escala do universo, o que \u00e9 uma ideia estranha at\u00e9 mesmo para os f\u00edsicos. Na verdade, o passado, presente e futuro parecem existir todos simultaneamente \u2014 como se fossem pontos flutuando em uma garrafa.<br \/>\nTalvez o tempo como met\u00e1fora linear tenha apenas retardado o desenvolvimento da f\u00edsica. &#8220;Este seria um efeito bastante surpreendente do idioma sobre o pensamento&#8221;, destaca Casasanto.<br \/>\nA preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro<br \/>\nOs idiomas tamb\u00e9m codificam o tempo na sua gram\u00e1tica. Em portugu\u00eas, o futuro \u00e9 um de tr\u00eas tempos simples, al\u00e9m do passado e do presente. N\u00f3s dizemos &#8220;choveu&#8221;, &#8220;chove&#8221; e &#8220;chover\u00e1&#8221;, por exemplo.<br \/>\nMas, em alem\u00e3o, voc\u00ea pode dizer Morgen regnet, que significa &#8220;chove amanh\u00e3&#8221;. Voc\u00ea n\u00e3o precisa conjugar o futuro.<br \/>\nE o mesmo ocorre em v\u00e1rios outros idiomas, incluindo o mandarim. Nele, as circunst\u00e2ncias externas muitas vezes indicam que algo ir\u00e1 acontecer no futuro, como &#8220;saio de f\u00e9rias no m\u00eas que vem&#8221; \u2014 o que tamb\u00e9m se diz em portugu\u00eas, mas apenas informalmente.<br \/>\nComo isso afeta nossa forma de pensar?<br \/>\nEm 2013, o economista comportamental Keith Chen, da Universidade da Calif\u00f3rnia em Los Angeles, nos Estados Unidos, procurou determinar se as pessoas que falam idiomas &#8220;sem futuro gramatical&#8221; podem sentir-se mais pr\u00f3ximas do futuro que as que falam outros idiomas.<br \/>\nPor exemplo, o alem\u00e3o, chin\u00eas, japon\u00eas, holand\u00eas e as l\u00ednguas escandinavas n\u00e3o t\u00eam barreiras lingu\u00edsticas entre o presente e o futuro. J\u00e1 os idiomas &#8220;com futuro&#8221;, como o ingl\u00eas, franc\u00eas, italiano, espanhol e grego, incentivam seus falantes a observar o futuro como algo separado do presente.<br \/>\nEle concluiu que os falantes dos idiomas sem futuro t\u00eam mais propens\u00e3o a dedicar-se a atividades voltadas para o futuro. Eles demonstraram probabilidade 31% maior de depositar dinheiro na poupan\u00e7a em qualquer ano dado e haviam acumulado 39% mais dinheiro para a aposentadoria.<br \/>\nEles tamb\u00e9m tinham 24% menos probabilidade de fumar, 29% a mais de ser fisicamente ativos e 13% menos chance de ser clinicamente obesos.<br \/>\nEstes resultados se mantiveram at\u00e9 quando eram controlados fatores como a situa\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica e a religi\u00e3o. E, de fato, os pa\u00edses da OECD (o grupo das na\u00e7\u00f5es industrializadas) com idiomas sem futuro poupam, em m\u00e9dia, 5% mais do seu PIB por ano.<br \/>\nPode parecer que esta correla\u00e7\u00e3o \u00e9 um mero acaso e que raz\u00f5es hist\u00f3ricas e pol\u00edticas complexas podem ser as verdadeiras causas. Mas Chen vem investigando desde ent\u00e3o se vari\u00e1veis como a cultura ou a rela\u00e7\u00e3o entre os idiomas poderiam estar influenciando os resultados.<br \/>\nE, quando ele descontou esses fatores, a correla\u00e7\u00e3o ficou mais fraca, mas ainda se manteve na maior parte dos casos. &#8220;A hip\u00f3tese ainda parece surpreendentemente robusta para mim&#8221;, argumenta Chen.<br \/>\nEla tamb\u00e9m \u00e9 sustentada por um experimento realizado em 2018 na cidade bil\u00edngue de Meran\/Merano, no norte da It\u00e1lia, onde cerca de metade dos habitantes fala alem\u00e3o (que n\u00e3o tem futuro gramatical) e a outra metade, italiano (que conjuga o futuro).<br \/>\nOs pesquisadores estudaram 1.154 crian\u00e7as da escola prim\u00e1ria para determinar sua capacidade de resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o, perguntando se elas gostariam de receber dois vales (que podiam ser trocados por presentes) no final do experimento ou uma recompensa maior (tr\u00eas, quatro ou cinco vales) dali a quatro semanas.<br \/>\nEles descobriram que as crian\u00e7as de fala alem\u00e3, em m\u00e9dia, tinham 16 pontos percentuais a mais de probabilidade de aguardar para receber um n\u00famero maior de vales do que as crian\u00e7as de l\u00edngua italiana \u2014 confirmando a hip\u00f3tese de Chen. E os resultados se mantiveram mesmo controlando as atitudes de risco, o QI, os antecedentes familiares e a \u00e1rea residencial das crian\u00e7as.<br \/>\nAs refer\u00eancias espaciais<br \/>\nOs efeitos do idioma podem estender-se ainda mais para o nosso mundo f\u00edsico, influenciando como nos orientamos no espa\u00e7o. Diferentes idiomas podem nos for\u00e7ar a pensar em termos de &#8220;quadros de refer\u00eancia&#8221; espec\u00edficos.<br \/>\nComo demonstraram Lera Boroditsky e sua colega Alice Gaby, o povo abor\u00edgene australiano Kuuk Thaayorre, por exemplo, usa os pontos cardeais \u2014 norte, sul, leste e oeste \u2014 para falar at\u00e9 de coisas comuns, como &#8220;o copo est\u00e1 a sudoeste de voc\u00ea&#8221;.<br \/>\nIsso \u00e9 chamado de quadro de refer\u00eancia &#8220;absoluta&#8221;: as coordenadas fornecidas s\u00e3o independentes do ponto de vista do observador ou da localiza\u00e7\u00e3o de objetos de refer\u00eancia.<br \/>\nMas muitos idiomas, incluindo o ingl\u00eas e o portugu\u00eas, usam termos um tanto confusos para orienta\u00e7\u00e3o espacial, como &#8220;perto&#8221;, &#8220;\u00e0 esquerda&#8221;, &#8220;atr\u00e1s&#8221; ou &#8220;acima&#8221;. E, como se n\u00e3o fosse suficiente, tamb\u00e9m precisamos calcular a qual quadro de refer\u00eancia eles se aplicam.<br \/>\nSe algu\u00e9m disser para voc\u00ea pegar as chaves que est\u00e3o \u00e0 direita do computador, seria no lado direito do computador ou no lado direito de quem olha para o computador? A primeira perspectiva \u00e9 chamada de quadro de refer\u00eancia &#8220;intr\u00ednseca&#8221; (que tem dois pontos de refer\u00eancia: o computador e as chaves), enquanto a \u00faltima \u00e9 chamada de quadro de refer\u00eancia &#8220;relativa&#8221; (existem tr\u00eas pontos de refer\u00eancia: o computador, as chaves e o observador).<br \/>\nIsso pode moldar a forma como pensamos e nos orientamos. E \u00e9 algo a se ter em mente se voc\u00ea estiver marcando um local de encontro com algu\u00e9m que fala um idioma diferente do seu. Os falantes de alguns idiomas, por exemplo, concentram-se mais nas a\u00e7\u00f5es do que no contexto mais amplo.<br \/>\nDepois de assistir a v\u00eddeos que mostram movimentos, falantes de ingl\u00eas, espanhol, \u00e1rabe e russo costumam descrever o que aconteceu em termos de a\u00e7\u00f5es, como &#8220;um homem andando&#8221;. J\u00e1 os falantes de alem\u00e3o, afric\u00e2ner e sueco concentraram-se no quadro hol\u00edstico, incluindo o destino, descrevendo a cena como &#8220;um homem anda em dire\u00e7\u00e3o a um carro&#8221;.<br \/>\nPanos Athanasopoulos relembra um incidente que exp\u00f4s claramente como isso pode interferir com a orienta\u00e7\u00e3o espacial.<br \/>\nAo trabalhar em um projeto lingu\u00edstico, ele saiu para um passeio com um grupo de pesquisadores estrangeiros em uma zona rural da Inglaterra. Eles pretendiam ir de uma cidade para uma pequena aldeia. Para isso, era preciso atravessar uma propriedade privada andando atrav\u00e9s de um campo, segundo uma placa que dizia: &#8220;atravesse o campo em diagonal&#8221;.<br \/>\nPara os falantes de ingl\u00eas e espanhol, era algo intuitivo. Mas uma falante de alem\u00e3o hesitou, parecendo levemente confusa.<br \/>\nQuando algu\u00e9m mostrou o caminho atrav\u00e9s do campo e que, no final, havia uma igreja, ela finalmente concluiu: &#8220;Ah, ent\u00e3o voc\u00ea quer dizer que devemos andar em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 igreja?&#8221; Ela precisava de um ponto inicial e um destino para visualizar a linha diagonal a que se referia a placa.<br \/>\n\u00c0 medida que os estudos avan\u00e7am, fica cada vez mais claro que o idioma influencia a forma em que pensamos sobre o mundo \u00e0 nossa volta e nossos caminhos atrav\u00e9s dele. O que n\u00e3o significa que uma l\u00edngua seja &#8220;melhor&#8221; do que outra. Como defende Thora Tenbrink, &#8220;o idioma desenvolve aquilo de que seus usu\u00e1rios precisam&#8221;.<br \/>\nConhecer como os idiomas s\u00e3o diferentes pode nos ajudar a pensar, transitar e comunicar melhor. E, ainda que ser poliglota n\u00e3o fa\u00e7a de voc\u00ea necessariamente um g\u00eanio, todos n\u00f3s podemos ganhar novas perspectivas e uma compreens\u00e3o mais flex\u00edvel do mundo, aprendendo um novo idioma.<br \/>\nEste texto foi publicado em www.bbc.com\/portuguese\/vert-fut-63639348<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os idiomas que falamos podem influenciar de forma surpreendente nossa forma de pensar no mundo e at\u00e9 como nos movimentamos atrav\u00e9s dele Os idiomas podem exercer efeito fascinante sobre a forma em que pensamos sobre o tempo e o espa\u00e7o GETTY IMAGES Se algu\u00e9m pedisse para voc\u00ea andar atrav\u00e9s de um campo em diagonal, voc\u00ea<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20248,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"om_disable_all_campaigns":false,"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[47],"tags":[],"class_list":{"0":"post-20247","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mundo"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20247"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20247\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20248"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}