{"id":18769,"date":"2022-11-18T08:11:06","date_gmt":"2022-11-18T08:11:06","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/18\/como-a-mafia-albanesa-opera-na-america-latina-e-ate-onde-chegam-seus-tentaculos\/"},"modified":"2022-11-18T08:11:06","modified_gmt":"2022-11-18T08:11:06","slug":"como-a-mafia-albanesa-opera-na-america-latina-e-ate-onde-chegam-seus-tentaculos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/18\/como-a-mafia-albanesa-opera-na-america-latina-e-ate-onde-chegam-seus-tentaculos\/","title":{"rendered":"Como a m\u00e1fia albanesa opera na Am\u00e9rica Latina e at\u00e9 onde chegam seus tent\u00e1culos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/377nHiVJohdm_ZwQYdWWzTscf8k=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/B\/s\/X98v1zTwyRMqElCCZUfQ\/a-europol-anunciou-em-2020-um-grande-golpe-sobre-a-kompania-bello-que-deixou-a-organizacao-sem-varios-dos-seus-lideres.jpg\"><br \/>   H\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, os albaneses estabeleceram contato com cart\u00e9is e grupos de narcotraficantes em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia, Equador, M\u00e9xico e Peru. A Europol anunciou em 2020 um grande golpe sobre a Kompania Bello, que deixou a organiza\u00e7\u00e3o sem v\u00e1rios dos seus l\u00edderes<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nNo dia 9 de junho de 2022, um carregamento rotulado como sendo de &#8220;aspargos finos&#8221; deixou a cidade de Trujillo, no noroeste do Peru, em um caminh\u00e3o de 18 toneladas.<br \/>\nA carga se dirigia a Callao, o mais importante porto peruano, perto de Lima. Ali, ela seria levada para um navio que tinha como destino o porto de Roterd\u00e3, na Holanda.<br \/>\nMas a carga nunca chegou nem perto de sair do Peru. Os agentes da Dire\u00e7\u00e3o Antidrogas (Dirandro) da Policia Nacional do pa\u00eds descobriram que as latas de aspargo levavam coca\u00edna l\u00edquida.<br \/>\n&#8220;A droga em Huallaga [norte do Peru] talvez esteja custando US$ 500 ou US$ 700 [cerca de R$ 2,7 mil a 3,8 mil]. Para ir at\u00e9 Lima, seu valor sobe para US$ 1,3 mil [cerca de R$ 7 mil] e, ao chegar a um porto europeu, atinge o pre\u00e7o de US$ 40 mil [cerca de R$ 216 mil] por quilo&#8221;, explica o diretor da Dirandro, Deny Rodr\u00edguez.<br \/>\nForam encontradas duas toneladas da droga no carregamento \u2014 que poderia render estimados US$ 77 milh\u00f5es (cerca de R$ 416 milh\u00f5es).<br \/>\nRodr\u00edguez afirma que, na pir\u00e2mide desta opera\u00e7\u00e3o de tr\u00e1fico de coca\u00edna, havia dois cidad\u00e3os albaneses: Malo Franc, conhecido como &#8220;Pedro&#8221;, e Meta Gentjan, o &#8220;Barbas&#8221;. Ambos entraram legalmente no Peru como turistas, atrav\u00e9s da fronteira com o Equador. Mas a Dirandro vem vigiando os dois durante sua perman\u00eancia no pa\u00eds.<br \/>\n&#8220;Esses cidad\u00e3os albaneses s\u00e3o os encarregados das quest\u00f5es financeiras e log\u00edsticas para criar opera\u00e7\u00f5es de tr\u00e1fico il\u00edcito de drogas no territ\u00f3rio peruano&#8221;, afirma Rodr\u00edguez.<br \/>\nEmbora n\u00e3o seja numerosa, a presen\u00e7a de homens albaneses em pa\u00edses onde operam os cart\u00e9is de produ\u00e7\u00e3o e tr\u00e1fico de drogas na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 algo novo. Desde a d\u00e9cada de 2000, membros de cl\u00e3s familiares da chamada &#8220;m\u00e1fia albanesa&#8221; viajaram para a regi\u00e3o para ampliar seus neg\u00f3cios na Europa.<br \/>\n&#8220;Os cl\u00e3s criminosos albaneses est\u00e3o na Am\u00e9rica Latina por um motivo: comprar coca\u00edna a pre\u00e7os baixos&#8221;, segundo o investigador Alessandro Ford, da organiza\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica InSight Crime.<br \/>\nH\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, os albaneses estabeleceram contato com cart\u00e9is e grupos de narcotraficantes em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia, Equador, M\u00e9xico e Peru. Sem precisar contar com um comando de muitos homens e armas de alto calibre, como fazem os cart\u00e9is latino-americanos, eles v\u00eam fazendo neg\u00f3cios substanciais com os cart\u00e9is locais.<br \/>\n&#8220;Sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 fazer as conex\u00f5es dos neg\u00f3cios, fechar acordos e tratar de quest\u00f5es log\u00edsticas&#8221;, explica o investigador mexicano V\u00edctor S\u00e1nchez, que estuda o crime organizado. &#8220;Mas nunca veremos [na Am\u00e9rica Latina] um comboio armado da m\u00e1fia albanesa, a n\u00e3o ser guardas para oferecer prote\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nSeu poder reside no controle compartilhado com outras m\u00e1fias, como a italiana, de portos na Europa por onde ingressam drogas e outros produtos ilegais.<br \/>\nOs &#8216;aspargos finos&#8217; enlatados no Peru tinham coca\u00edna l\u00edquida, que seria comercializada na Europa<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nPor que albaneses?<br \/>\nA Alb\u00e2nia \u00e9 historicamente um corredor comercial entre a \u00c1sia e a Europa na pen\u00ednsula dos B\u00e1lc\u00e3s. E, &#8220;quando o comunismo entrou em colapso, a Alb\u00e2nia, junto com a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sofreu uma dram\u00e1tica revitaliza\u00e7\u00e3o do crime organizado&#8221;, explica Ford.<br \/>\nDo tr\u00e1fico ilegal de hero\u00edna e armas at\u00e9 cigarros e pessoas, &#8220;os cl\u00e3s criminosos albaneses contrabandeavam de tudo&#8221;, segundo o investigador.<br \/>\nNo in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000, os albaneses come\u00e7aram a se associar \u00e0 m\u00e1fia italiana. Eles se vincularam especialmente aos cl\u00e3s da &#8216;Ndrangheta, uma poderosa organiza\u00e7\u00e3o criminosa do sul da It\u00e1lia.<br \/>\n&#8220;Mas os albaneses logo enviaram seus pr\u00f3prios emiss\u00e1rios para a Am\u00e9rica Latina, para negociar a compra de coca\u00edna no atacado, a pre\u00e7os baixos&#8221;, explica Ford. &#8220;Essas pessoas se estabeleceram principalmente em duas cidades portu\u00e1rias do Pac\u00edfico: Guaiaquil, no Equador, e, em menor escala, Callao, no Peru.&#8221;<br \/>\nA partir de ent\u00e3o, eles estabeleceram contatos com outros pa\u00edses onde as drogas s\u00e3o produzidas, como a Bol\u00edvia, a Col\u00f4mbia e o M\u00e9xico.<br \/>\nMeta Gentjan e Malo Franc foram acompanhados pelas autoridades durante sua estada no Peru<br \/>\nDirandro via BBC<br \/>\nKompania Bello<br \/>\nA m\u00e1fia albanesa n\u00e3o \u00e9 um grupo \u00fanico. Existem diversos cl\u00e3s espalhados pela Europa, segundo os especialistas.<br \/>\nA organiza\u00e7\u00e3o mais importante, que re\u00fane v\u00e1rios cl\u00e3s, \u00e9 a autodenominada Kompania Bello. Ela se estende por pa\u00edses como Reino Unido, Holanda, B\u00e9lgica, Fran\u00e7a, Espanha, Portugal, It\u00e1lia e Alemanha.<br \/>\n&#8220;Ela funciona como uma esp\u00e9cie de di\u00e1spora, de certa forma como funcionaram, por muitos anos, m\u00e1fias italianas como a Cosa Nostra, a Camorra e a &#8216;Ndrangheta&#8221;, explica S\u00e1nchez.<br \/>\n&#8220;O que a m\u00e1fia albanesa fez foi exatamente come\u00e7ar a colonizar outros pa\u00edses com maiores entradas. E os imigrantes albaneses se re\u00fanem ent\u00e3o como uma esp\u00e9cie de fam\u00edlia e come\u00e7am a controlar os mercados ilegais&#8221;, segundo ele.<br \/>\nA Kompania Bello fortaleceu seu poder ao longo dos \u00faltimos 20 anos. Mas a Interpol anunciou, em 2020, uma grande opera\u00e7\u00e3o em 10 pa\u00edses europeus que levou \u00e0 captura de 20 de seus membros importantes. Foi um duro golpe para os cl\u00e3s familiares.<br \/>\nSegundo a Ag\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia para Coopera\u00e7\u00e3o Policial (Europol), a m\u00e1fia albanesa decidiu cobrir toda a cadeia de venda de drogas, &#8220;desde organizar grandes envios diretamente da Am\u00e9rica do Sul at\u00e9 a distribui\u00e7\u00e3o por toda a Europa&#8221;.<br \/>\nPara isso, os cl\u00e3s conseguiram controlar o tr\u00e1fego ilegal nos portos de Roterd\u00e3, na Holanda, e Antu\u00e9rpia, na B\u00e9lgica, de onde distribuem drogas e praticam o com\u00e9rcio ilegal.<br \/>\nA Europol informou que a Kompania Bello vem lavando dinheiro atrav\u00e9s de &#8220;um sistema clandestino alternativo de transfer\u00eancias de origem chinesa, conhecido como sistema &#8216;fei chien'&#8221;.<br \/>\n&#8220;Da mesma forma que o sistema de transfer\u00eancias hawala, as pessoas que usam o fei chien depositam uma soma em uma &#8216;ag\u00eancia&#8217; da rede em um pa\u00eds. Outro operador retira o montante equivalente em outro lugar do mundo e o transfere para o destinat\u00e1rio desejado&#8221;, segundo a ag\u00eancia.<br \/>\nDesta forma, milh\u00f5es de euros foram lavados ao longo dos anos, &#8220;sem deixar rastros de evid\u00eancias reveladoras para os investigadores&#8221;.<br \/>\nAs opera\u00e7\u00f5es da Kompania Bello foram combatidas por muito tempo em portos como o de Roterd\u00e3, na Holanda<br \/>\nGetty Images via BBC<br \/>\nInflu\u00eancia na Am\u00e9rica Latina<br \/>\nMais recentemente, a m\u00e1fia albanesa na Am\u00e9rica Latina se associou com uma ala do poderoso cartel de Sinaloa, no M\u00e9xico, dirigida por Ismael &#8220;El Mayo&#8221; Zambada, associado ao traficante Joaqu\u00edn &#8220;El Chapo&#8221; Guzm\u00e1n.<br \/>\nReportagens na imprensa, mencionando informa\u00e7\u00f5es do Gabinete de Seguran\u00e7a do governo mexicano, indicam que &#8220;El Mayo&#8221; Zambada formou uma associa\u00e7\u00e3o com o objetivo de lavar dinheiro com membros do cl\u00e3 dos irm\u00e3os Hysa.<br \/>\nCom sua ajuda, eles criaram empresas de fachada, como cassinos, restaurantes e uma empresa de exporta\u00e7\u00e3o, nos Estados mexicanos da Baixa Calif\u00f3rnia, Quintana Roo e Sonora, segundo documentos de intelig\u00eancia.<br \/>\nPara V\u00edctor S\u00e1nchez, que \u00e9 especializado nas opera\u00e7\u00f5es de grupos criminosos no M\u00e9xico, essa associa\u00e7\u00e3o tem l\u00f3gica, pois os albaneses &#8220;s\u00e3o melhores para lavar dinheiro que os mexicanos&#8221;.<br \/>\n&#8216;El Mayo&#8217; atua no narcotr\u00e1fico h\u00e1 mais de 40 anos e \u00e9 um dos grandes l\u00edderes do cartel de Sinaloa<br \/>\nBBC<br \/>\n&#8220;Para ter boas rela\u00e7\u00f5es com as organiza\u00e7\u00f5es mexicanas, eles podem ajud\u00e1-las com a lavagem de dinheiro. Mas, certamente, o que gerou o contato foi a venda de drogas&#8221;, afirma ele. E, para albaneses como os irm\u00e3os Luftar, Arben, Fatos e Ramiz Hysa, cuja presen\u00e7a foi detectada no M\u00e9xico, os pa\u00edses da regi\u00e3o latino-americana oferecem condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para os seus neg\u00f3cios.<br \/>\nAlessandro Ford afirma que a regi\u00e3o \u00e9 &#8220;muito atraente&#8221;, mesmo para aqueles que n\u00e3o s\u00e3o apenas emiss\u00e1rios, mas que se estabelecem por longos per\u00edodos ou de forma permanente.<br \/>\n&#8220;Muitos dos migrantes j\u00e1 t\u00eam antecedentes penais na Europa, enquanto alguns s\u00e3o foragidos&#8221;, explica ele. &#8220;Cruzar o Atl\u00e2ntico significa o anonimato, uma segunda oportunidade. Eles podem forjar novas identidades, viver em comunidades fechadas ricas e explorar a menor capacidade de aplica\u00e7\u00e3o da lei para traficar coca\u00edna.&#8221;<br \/>\n\u00c9 o caso do narcotraficante Dritan Rexhepi, que emigrou para o Equador no in\u00edcio da d\u00e9cada passada e formou um esquema de envio de drogas para a Kompania Bello.<br \/>\nRexhepi chegou a ser chamado de &#8220;rei da coca\u00edna&#8221;. Ele fugiu da Europa, onde era procurado pela Justi\u00e7a da It\u00e1lia e da Alb\u00e2nia, e adotou diversas identidades, como Edmir Kraja e Mutaraj Lulezim, entre outras.<br \/>\nEm 2014, foi detido e sentenciado a 13 anos de pris\u00e3o. A Europol o identificou como &#8220;cabe\u00e7a da organiza\u00e7\u00e3o&#8221; e ele continuou a liderar o narcotr\u00e1fico para a Europa mesmo de dentro da pris\u00e3o.<br \/>\nDritan Rexhepi, conhecido como o &#8216;rei da coca\u00edna&#8217;, foi um dos mais importantes traficantes albaneses na Am\u00e9rica Latina<br \/>\nEuropol via BBC<br \/>\n&#8220;Qualquer pessoa perseguida na Europa pode encontrar ref\u00fagio relativamente seguro [na Am\u00e9rica Latina], devido \u00e0 for\u00e7a das organiza\u00e7\u00f5es aliadas, \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o imperante e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas&#8221;, afirma S\u00e1nchez.<br \/>\nMas o especialista adverte que, para grupos como os albaneses, seria muito dif\u00edcil se estabelecer nos pa\u00edses da regi\u00e3o como um cartel completo e independente.<br \/>\n&#8220;O estabelecimento de uma c\u00e9lula da m\u00e1fia albanesa desta forma parece complicado porque chamaria muito a aten\u00e7\u00e3o&#8221;, segundo ele. &#8220;Para os concorrentes, seria muito f\u00e1cil elimin\u00e1-los, especialmente porque seria uma organiza\u00e7\u00e3o nova que chega sem prote\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nNa verdade, h\u00e1 poucos albaneses nesta regi\u00e3o e seus lucros na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o grandes quanto os dos grandes cart\u00e9is locais do narcotr\u00e1fico. Seus principais neg\u00f3cios est\u00e3o na Europa.<br \/>\n&#8220;Eles levam uma fatia do bolo, mas organiza\u00e7\u00f5es como as mexicanas det\u00eam a maior parcela&#8221;, conclui S\u00e1nchez.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-63664848<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pelo menos duas d\u00e9cadas, os albaneses estabeleceram contato com cart\u00e9is e grupos de narcotraficantes em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia, Equador, M\u00e9xico e Peru. 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