{"id":17496,"date":"2022-11-13T14:11:52","date_gmt":"2022-11-13T14:11:52","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/13\/por-que-a-populacao-de-cuba-nao-passa-de-11-milhoes-de-habitantes-desde-1997\/"},"modified":"2022-11-13T14:11:52","modified_gmt":"2022-11-13T14:11:52","slug":"por-que-a-populacao-de-cuba-nao-passa-de-11-milhoes-de-habitantes-desde-1997","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/11\/13\/por-que-a-populacao-de-cuba-nao-passa-de-11-milhoes-de-habitantes-desde-1997\/","title":{"rendered":"Por que a popula\u00e7\u00e3o de Cuba n\u00e3o passa de 11 milh\u00f5es de habitantes desde 1997"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/1qib99yS5Ncxb2tTmxM7CVj94e8=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/b\/1\/xoAXjtRHWE49VwLzZOhw\/thumbnail-image001-17-.jpg\"><br \/>   Popula\u00e7\u00f5es em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina crescem a cada ano, mas na ilha caribenha a tend\u00eancia \u00e9 bem diferente. Cubanos jogando domin\u00f3s<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o mundial cresceu no \u00faltimo quarto do s\u00e9culo a uma taxa m\u00e9dia de 1,2% ao ano, chegando a quase 8 bilh\u00f5es de habitantes.<br \/>\nA tend\u00eancia foi semelhante na Am\u00e9rica Latina, onde a popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 passa de 600 milh\u00f5es.<br \/>\nExceto em casos de guerra ou outros eventos extremos, \u00e9 incomum que a popula\u00e7\u00e3o de um pa\u00eds fique estagnada ou at\u00e9 mesmo diminua em um per\u00edodo de 25 anos.<br \/>\nMas Cuba n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds normal.<br \/>\n Em 1984, a ilha ultrapassou a marca de 10 milh\u00f5es de habitantes; em 1997, de 11 milh\u00f5es;  e, depois de alguns altos e baixos, o dado mais recente, relativo a 2021, \u00e9 de 11,1 milh\u00f5es.<br \/>\nPara se fazer uma compara\u00e7\u00e3o: no Brasil, a popula\u00e7\u00e3o em 1984 era estimada em 132 milh\u00f5es; em 1997, de 167 milh\u00f5es, e em 2021, de 212 milh\u00f5es.<br \/>\nQuais s\u00e3o os motivos que explicam essa tend\u00eancia incomum em Cuba?<br \/>\nUm pouco de hist\u00f3ria<br \/>\n&#8220;Em Cuba, voc\u00ea pergunta a qualquer um quantos filhos quer ter, e a resposta \u00e9 2 filhos, e tem at\u00e9 a ordem, primeiro um menino e depois uma menina. \u00c9 um ideal reprodutivo que vem de nossos av\u00f3s espanh\u00f3is&#8221;, explica \u00e0 BBC News Mundo, servi\u00e7o de not\u00edcias em espanhol da BBC, Juan Carlos Albizu-Campos, professor do Centro de Estudos da Economia Cubana da Universidade de Havana.<br \/>\nO acad\u00eamico, que \u00e9 autor de diversos estudos sobre o tema, destaca que, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo 20, Cuba sempre teve um comportamento demogr\u00e1fico diferente de seus vizinhos latino-americanos.<br \/>\n&#8220;J\u00e1 em 1900, a fecundidade era relativamente baixa em compara\u00e7\u00e3o com o resto da Am\u00e9rica Latina, de 6 filhos por mulher (no M\u00e9xico, por exemplo, eram 7, e em outros pa\u00edses da regi\u00e3o, o n\u00famero era ainda maior), e a popula\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a adotar o esquema de fam\u00edlias pequenas&#8221;, explica.<br \/>\nNa primeira metade do s\u00e9culo passado, a ilha alcan\u00e7ou n\u00edveis de desenvolvimento inating\u00edveis em outros pa\u00edses da regi\u00e3o e recebeu uma grande onda de migrantes europeus, principalmente espanh\u00f3is.<br \/>\nAmbos os fatores marcaram sua tend\u00eancia demogr\u00e1fica diferenciada.<br \/>\nFam\u00edlias de dois filhos, como a desta fotografia de 1955, eram uma tend\u00eancia comum em Cuba<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nA partir de 1960, o decl\u00ednio da mortalidade infantil e o maior acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade e maternidade, entre outros fatores, levaram a um &#8220;baby boom&#8221;.<br \/>\nMas n\u00e3o durou mais de uma d\u00e9cada: nos anos 1970, a taxa de 2,1 filhos por mulher que garante a substitui\u00e7\u00e3o geracional caiu pela primeira vez.<br \/>\nAssim, no final de 1985, a combina\u00e7\u00e3o de fecundidade e expectativa de vida em Cuba j\u00e1 &#8220;se assemelhava mais \u00e0 m\u00e9dia europeia do que \u00e0 latino-americana&#8221;, diz Albizu-Campos.<br \/>\nOutra fam\u00edlia cubana, em 2017<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nNatalidade, mortalidade e pobreza<br \/>\nCuba registrou em 2021 o menor n\u00famero de nascimentos, 99.096, e o maior n\u00famero de mortes, 167.645, das \u00faltimas seis d\u00e9cadas.<br \/>\nEmbora o n\u00famero de mortos tenha sido elevado pela onda mortal de covid-19 que atingiu o pa\u00eds, os registros de nascimentos confirmam uma tend\u00eancia de queda acentuada que vem de anos atr\u00e1s.<br \/>\nHoje, a taxa de fecundidade total \u00e9 de 1,45 filhos por mulher, bem abaixo da taxa de reposi\u00e7\u00e3o \u2014 e tamb\u00e9m da m\u00e9dia de 2 filhos na Am\u00e9rica Latina, segundo dados do Banco Mundial.<br \/>\nEssa tend\u00eancia ocorre em um momento de extrema crise em Cuba, onde h\u00e1 escassez de alimentos, rem\u00e9dios, artigos m\u00e9dicos e outros bens b\u00e1sicos.<br \/>\nSegundo Albizu-Campos, o pa\u00eds est\u00e1 passando pelo que alguns acad\u00eamicos chamam de &#8220;malthusianismo da pobreza&#8221;.<br \/>\nO economista brit\u00e2nico Thomas Malthus (1766-1834) \u00e9 um dos primeiros e mais importantes dem\u00f3grafos da hist\u00f3ria \u2014 sua teoria, chamada Malthusianismo, relaciona a quest\u00e3o do crescimento populacional descontrolado com os limitados recursos necess\u00e1rios para sua sobreviv\u00eancia<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\n&#8220;Em Cuba, at\u00e9 3 ou 4 gera\u00e7\u00f5es vivem juntas na mesma casa, e a comida tamb\u00e9m \u00e9 escassa. Assim, a primeira pergunta que um jovem casal faz quando quer ter um filho \u00e9: onde vou coloc\u00e1-lo?, e uma vez que isso est\u00e1 resolvido, o que vou dar de comer a ele?.&#8221;<br \/>\nEm outras palavras, hoje as mulheres cubanas percebem o nascimento de mais um filho como um risco real para os que j\u00e1 est\u00e3o na fam\u00edlia.<br \/>\nQuando essa situa\u00e7\u00e3o se mant\u00e9m ao longo do tempo, ele ressalta, &#8220;acaba transformando o padr\u00e3o reprodutivo, e as mulheres protagonizam uma queda no n\u00edvel de fecundidade, como aconteceu no &#8216;per\u00edodo especial'&#8221;.<br \/>\nO &#8220;per\u00edodo especial&#8221; foi a crise extrema que se instalou em Cuba ap\u00f3s o colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, com uma situa\u00e7\u00e3o de escassez generalizada que muitos comparam com a atual.<br \/>\n&#8220;No &#8216;per\u00edodo especial&#8217;, o n\u00famero de filhos por mulher caiu de 1,8 para 1,6 e, como foi uma crise sustentada ao longo do tempo, modificou o padr\u00e3o reprodutivo da sociedade cubana&#8221;, indica Albizu-Campos.<br \/>\nA doutora em sociologia Elaine Acosta, pesquisadora associada da Universidade Internacional da Fl\u00f3rida, nos EUA, observa que Cuba &#8220;lidera os processos de envelhecimento na Am\u00e9rica Latina&#8221; devido \u00e0 sua pir\u00e2mide demogr\u00e1fica mais parecida com a de um pa\u00eds europeu.<br \/>\n&#8220;Mesmo em compara\u00e7\u00e3o com o que se vive nas sociedades europeias, o salto produzido entre 1970 e hoje foi mais vertiginoso em Cuba, onde a popula\u00e7\u00e3o idosa passou de 9% do total para 20%&#8221;, afirma.<br \/>\nNo entanto, ela considera problem\u00e1tica a combina\u00e7\u00e3o, nos \u00faltimos 25 anos, de uma pir\u00e2mide populacional semelhante \u00e0 de um pa\u00eds desenvolvido com a deteriora\u00e7\u00e3o gradual dos n\u00edveis de bem-estar e desenvolvimento humano.<br \/>\nEsta \u00faltima quest\u00e3o, segundo ela, n\u00e3o s\u00f3 contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o da fecundidade, como tamb\u00e9m fomentou outro fator que explica a estagna\u00e7\u00e3o populacional na ilha: a emigra\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA emigra\u00e7\u00e3o<br \/>\nMuitos jovens cubanos veem os Estados Unidos como o destino onde podem realizar seus sonhos profissionais e familiares<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nEstima-se que quase um milh\u00e3o de cubanos deixaram o pa\u00eds nos \u00faltimos 25 anos.<br \/>\nDestes, mais de 800 mil emigraram para os Estados Unidos, segundo os registros oficiais deste pa\u00eds.<br \/>\nO fluxo vinha oscilando entre 30 mil e 70 mil migra\u00e7\u00f5es por ano at\u00e9 a pandemia, mas somente nos primeiros nove meses de 2022, chegaram 200 mil cubanos ao pa\u00eds norte-americano \u2014 um recorde hist\u00f3rico que supera o de \u00eaxodos em massa anteriores, como o de Mariel em 1980 (quando 125 mil cubanos deixara a ilha em apenas 7 meses) ou a crise dos balseiros durante o &#8220;per\u00edodo especial&#8221;.<br \/>\nDurante a crise dos balseiros de meados da d\u00e9cada de 1990, dezenas de milhares de cubanos se lan\u00e7aram ao mar em balsas improvisadas para tentar chegar \u00e0 costa dos EUA \u2014 muitos morreram tentando<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\n&#8220;O aumento descontrolado da infla\u00e7\u00e3o, a queda do valor real dos sal\u00e1rios e pens\u00f5es, a inseguran\u00e7a alimentar, a escassez de medicamentos e a deteriora\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, entre outros, reduziram os n\u00edveis de bem-estar a n\u00edveis m\u00ednimos semelhantes aos do per\u00edodo especial, mas com menores n\u00edveis de prote\u00e7\u00e3o social e em um ambiente de maior tens\u00e3o pol\u00edtica e insatisfa\u00e7\u00e3o popular&#8221;, explica a soci\u00f3loga.<br \/>\n&#8220;Tudo isso acaba influenciando milhares de jovens e at\u00e9 idosos a se juntarem \u00e0 debandada migrat\u00f3ria que recome\u00e7ou quando os voos foram reabertos, em novembro de 2021.&#8221;<br \/>\nVai cair para 10 milh\u00f5es?<br \/>\nIsso significa que, ap\u00f3s 25 anos de estagna\u00e7\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o cubana pode estar iniciando uma tend\u00eancia de queda, especialmente se levarmos em conta que grande parte dos emigrantes s\u00e3o jovens ou pessoas em idade f\u00e9rtil que v\u00e3o gerar filhos fora da ilha.<br \/>\nO dem\u00f3grafo Albizu-Campos previu anos atr\u00e1s que a popula\u00e7\u00e3o cubana retornaria \u00e0 marca de 10 milh\u00f5es de habitantes a partir de 2030, com toda a gera\u00e7\u00e3o do baby boom dos anos 1960 na velhice.<br \/>\nNo entanto, o processo parece ter acelerado, e a redu\u00e7\u00e3o do patamar de 11 milh\u00f5es poder\u00e1 ocorrer j\u00e1 neste ano, quando o cadastro for atualizado com os novos dados de nascimentos, \u00f3bitos e emigrantes.<br \/>\n&#8220;A combina\u00e7\u00e3o perversa entre a emigra\u00e7\u00e3o sustentada e o aumento das mortes pode indicar que estamos mais perto novamente de baixar essa marca&#8221;, diz o especialista.<br \/>\nO panorama demogr\u00e1fico se mostra ainda mais complicado para 2050, quando mais de 3,7 milh\u00f5es de cubanos de uma popula\u00e7\u00e3o estimada em 10,1 milh\u00f5es de habitantes ter\u00e3o mais de 60 anos, segundo proje\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<br \/>\nDestes, quase 1,3 milh\u00e3o ser\u00e3o idosos com mais de 80 anos.<br \/>\nOs idosos ocupam cada vez mais uma porcentagem maior da popula\u00e7\u00e3o cubana<br \/>\nGETTY IMAGES\/via BBC<br \/>\nElaine Acosta observa ainda que estas proje\u00e7\u00f5es foram formuladas antes da atual crise migrat\u00f3ria.<br \/>\n&#8220;Consequentemente, a contra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o pode ser ainda maior do que a esperada.&#8221;<br \/>\nEste texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-63384033<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Popula\u00e7\u00f5es em pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina crescem a cada ano, mas na ilha caribenha a tend\u00eancia \u00e9 bem diferente. 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