{"id":13155,"date":"2022-10-27T10:29:20","date_gmt":"2022-10-27T10:29:20","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/27\/o-que-sao-as-ordens-mendicantes-da-igreja-que-cuidam-dos-pobres-desde-a-idade-media\/"},"modified":"2022-10-27T10:29:20","modified_gmt":"2022-10-27T10:29:20","slug":"o-que-sao-as-ordens-mendicantes-da-igreja-que-cuidam-dos-pobres-desde-a-idade-media","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/27\/o-que-sao-as-ordens-mendicantes-da-igreja-que-cuidam-dos-pobres-desde-a-idade-media\/","title":{"rendered":"O que s\u00e3o as ordens mendicantes da Igreja, que cuidam dos pobres desde a Idade M\u00e9dia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/1JwFtutC3mQzkpRoTQyvYRtSzjA=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/m\/I\/ZuAPTKQAA4A4XqPryRgg\/thumbnail-image001-77-.jpg\"><br \/>   Organiza\u00e7\u00f5es dentro da Igreja Cat\u00f3lica existem at\u00e9 hoje \u2014 entre as mais famosas est\u00e3o os franciscanos e os dominicanos. Obra de Domenico Ghirlandaio, feita no s\u00e9culo 15, retrata o que seria a confirma\u00e7\u00e3o da ordem franciscana junto ao Vaticano<br \/>\nBBC<br \/>\nA Europa atravessava um momento de transi\u00e7\u00e3o naquele per\u00edodo, o fim da chamada Baixa Idade M\u00e9dia. Depois do feudalismo rural ter experimentado seu auge, burgos come\u00e7avam a ganhar espa\u00e7o em um movimento de urbaniza\u00e7\u00e3o em que a velha divis\u00e3o entre servos que trabalham, nobres que guerreiam e religiosos que rezam era insuficiente.<br \/>\nUma classe de comerciantes, ainda incipiente, come\u00e7ava a ser vis\u00edvel. Ao mesmo tempo, pela pr\u00f3pria natureza da organiza\u00e7\u00e3o da vida em cidades, a pobreza deixava de ser uma chaga escondida e passava a ser percept\u00edvel nos espa\u00e7os p\u00fablicos.<br \/>\nPara historiadores, este contexto foi o causador do surgimento das chamadas ordens mendicantes, organiza\u00e7\u00f5es dentro da Igreja Cat\u00f3lica que existem at\u00e9 hoje \u2014 entre as mais famosas est\u00e3o os franciscanos e os dominicanos. Isto porque, para muitos religiosos de ent\u00e3o, n\u00e3o fazia mais sentido a ideia de um religioso enclausurado, em um mosteiro distante no alto de uma montanha. Para eles, a Igreja n\u00e3o deveria se esconder dos problemas do mundo, mas sim ir de encontro a eles.<br \/>\n &#8220;Essas ordens surgem num momento de mudan\u00e7a do mundo rural, em que o mosteiro \u00e9 uma unidade aut\u00f4noma, longe das tenta\u00e7\u00f5es do mundo, para a vida urbana&#8221;, explica o historiador Alex Catharino, professor na Funda\u00e7\u00e3o da Liberdade Econ\u00f4mica. &#8220;\u00c9 um momento de mudan\u00e7as n\u00e3o apenas sociais, mas tamb\u00e9m art\u00edsticas, culturais e intelectuais.&#8221;<br \/>\nEle lembra que a partir do ano 1000, a Idade M\u00e9dia viu um momento em que havia Cruzadas e o renascimento do com\u00e9rcio. E isto &#8220;acarretou no ressurgimento da vida urbana, mudando o centro da vida espiritual para as catedrais e tamb\u00e9m da vida intelectual para as universidades&#8221;, comenta o historiador.<br \/>\n&#8220;Nesse contexto que emergem as ordens mendicantes e elas come\u00e7am uma expans\u00e3o para toda a Europa, especialmente as cidades&#8221;, acrescenta. &#8220;Os religiosos deixam a paz de estarem enclausurados para se lan\u00e7ar num esfor\u00e7o de maior evangeliza\u00e7\u00e3o do mundo fora do mosteiro.&#8221;<br \/>\nResposta ao tempo<br \/>\n&#8220;Esses frades responderam \u00e0s novas necessidades de vida c\u00edvica que surgiam. Passaram a frequentar, principalmente, as cidades e atuar de forte modo nas universidades. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a maioria dos te\u00f3logos deste per\u00edodo eram frades de ordens mendicantes, como \u00e9 o caso de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, dominicano, e S\u00e3o Boaventura, franciscano&#8221;, enumera Catharino.<br \/>\n&#8220;E apesar dos votos de pobreza, n\u00e3o havia incompatibilidade entre a pobreza material e a riqueza espiritual e intelectual. Eles ajudavam pobres e doentes e tamb\u00e9m serviam a Igreja com a cultura liter\u00e1ria e o estudo&#8221;, diz o historiador.<br \/>\nFrei Marcelo Toyansk Guimar\u00e3es, da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a, Paz e Integridade da Cria\u00e7\u00e3o dos Frades Capuchinhos e assessor da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil, situa o nascimento das ordens mendicantes em um momento em que o chamado movimento pauperista era muito forte na Europa.<br \/>\n&#8220;A experi\u00eancia religiosa dos mosteiros, mesmo os reformados como os cistercienses [da Ordem de Cister], n\u00e3o conseguia responder ao desenvolvimento cultural, social e econ\u00f4mico que se dava no per\u00edodo, com as cidades cada vez maiores e mais presentes&#8221;, afirma ele.<br \/>\n&#8220;Se a realidade dos mosteiros era compat\u00edvel com a vida rural, feudal, com as cidades crescendo, a resposta da Igreja veio nesse campo&#8221;, comenta ele. &#8220;Havia uma Igreja poderosa e influente que, em contrapartida, n\u00e3o atendia ao surgimento da classe de comerciantes. Dessa realidade surgem os movimentos pauperistas.&#8221;<br \/>\nAlguns desses grupos, como os c\u00e1taros e os valdenses, foram tachados de hereges pelos l\u00edderes do catolicismo. No caso deles, como explica Guimar\u00e3es, havia uma nega\u00e7\u00e3o do material. Mas com os dominicanos e os franciscanos, a postura de n\u00e3o enriquecimento tinha a justificativa de uma volta aos pobres, de um servi\u00e7o apost\u00f3lico e social.<br \/>\nConsideradas as ordens mendicantes mais antigas, elas surgiram mais ou menos ao mesmo tempo. Os franciscanos foram oficialmente fundados em 1209, sob o nome de Ordem dos Frades Menores, por Francisco de Assis. Os dominicanos, ou Ordem dos Pregadores, foram oficializados pela Igreja em 1216 \u2014 a institui\u00e7\u00e3o foi fundada por Domingos de Gusm\u00e3o (1170-1221). Em 1218 foi criada a Ordem de Nossa Senhora das Merc\u00eas, ou os merced\u00e1rios. A Ordem do Carmo, ou os carmelitas descal\u00e7os, data de 1226.<br \/>\n&#8220;Elas t\u00eam em comum a ado\u00e7\u00e3o de uma vida mista, que une a vida contemplativa e vida ativa. Al\u00e9m da contempla\u00e7\u00e3o que era adotada pelos monges, esses frades tamb\u00e9m abra\u00e7avam a vida antes adotada por outros religiosos seculares, militares e hospitalares&#8221;, contextualiza o historiador Catharino. &#8220;Esses frades adotavam ainda, al\u00e9m dos votos de obedi\u00eancia e castidade, o voto de pobreza, rejeitando para si a aquisi\u00e7\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o de propriedades, abra\u00e7ando a vida comunit\u00e1ria e vivendo de doa\u00e7\u00f5es.&#8221;<br \/>\n&#8220;Cada uma dessas ordens tem uma constitui\u00e7\u00e3o, tem uma origem, tem uma natureza, uma finalidade e suas caracter\u00edsticas. Cada uma tem um carisma a ser trabalhado. Mas todas nasceram em um contexto medieval&#8221;, afirma frei Reginaldo Roberto Luiz, da Ordem dos Padres Merced\u00e1rios em Roma.<br \/>\n&#8220;Os fundadores por excel\u00eancia do fen\u00f4meno s\u00e3o os dominicanos e os franciscanos&#8221;, pontua a vaticanista Mirticeli Medeiros, pesquisadora de hist\u00f3ria do cristianismo na Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana, em Roma.<br \/>\n&#8220;Mas podemos enquadrar dentro desse novo estilo de vida os carmelitanos, agostinianos, trinit\u00e1rios, merced\u00e1rios e tantos outros, que surgiram depois. Lembrando que o nome, &#8216;mendicantes&#8217;, \u00e9 uma descri\u00e7\u00e3o feita pelos historiadores. Os franciscanos e dominicanos, em si, jamais atribu\u00edram esse nome \u00e0s suas ordens religiosas.&#8221;<br \/>\nDominicanos e a Virgem Maria, em pintura de Miguel Cabrera, do s\u00e9culo 18<br \/>\nBBC<br \/>\nPobreza no centro da miss\u00e3o<br \/>\n&#8220;Essas novas ordens t\u00eam muito claro que \u00e9 preciso ter a pobreza de modo central. Em vista de n\u00e3o enriquecer. S\u00e3o conhecidas como mendicantes por conta disso, dessa centralidade na vida apost\u00f3lica&#8221;, pontua Guimar\u00e3es. &#8220;N\u00e3o s\u00e3o mais monges, est\u00e3o no centro da cidade. Vivem e se deparam muito mais com a pobreza, diferentemente da realidade do campo em que os pobres vivem muito mais afastados. Na cidade, as pessoas est\u00e3o aglomeradas, e a pobreza \u00e9 mais vis\u00edvel e provocativa.&#8221;<br \/>\nPara sobreviver, eles recorrem \u00e0 chamada &#8220;provid\u00eancia divina&#8221;, traduzida por esmolas de benfeitores. Por isso o termo &#8220;mendicante&#8221;. Guimar\u00e3es explica, filosoficamente, que a ideia \u00e9 &#8220;mendigar como justamente o ato de n\u00e3o ter propriedade, evitar a propriedade&#8221;. Esses novos religiosos assumem um modo de vida despojado, muitas vezes itinerante. E, principalmente, um compromisso de que n\u00e3o cairiam novamente na &#8220;espiral de enriquecimento&#8221; que, \u00e0quela altura, contaminava o clero.<br \/>\n&#8220;Em Francisco de Assis essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 central&#8221;, afirma o frade. &#8220;Ao abra\u00e7ar a vida religiosa, ele v\u00ea que n\u00e3o quer ser monge porque nota o enriquecimento dos mosteiros e o distanciamento dos mesmos. Prop\u00f5e uma vida mais radical com a mensagem de Jesus, priorizando a doa\u00e7\u00e3o, a ajuda ao pr\u00f3ximo.&#8221;<br \/>\nMas se o surgimento das ordens mendicantes era para dar respostas a alguns problemas daquele momento hist\u00f3rico, \u00e9 preciso ressaltar tamb\u00e9m que havia a necessidade de se posicionar perante uma quest\u00e3o que incomodava no cerne da pr\u00f3pria Igreja: a corrup\u00e7\u00e3o da alta c\u00fapula, que enriquecia \u00e0s custas da f\u00e9 e dos jogos de poderes.<br \/>\n&#8220;Foi uma resposta direta \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o da Igreja e ao desejo de recobrar o cristianismo das origens e a radicalidade da viv\u00eancia do Evangelho&#8221;, ressalta Medeiros. &#8220;Por isso que, n\u00f3s, historiadores, identificamos esse movimento como uma manifesta\u00e7\u00e3o.&#8221;<br \/>\nEla frisa que esses religiosos, em sua origem, &#8220;sustentavam um ideal de pobreza e de uma vida religiosa sem privil\u00e9gios, vivendo somente da doa\u00e7\u00e3o de fi\u00e9is&#8221;. &#8220;Se tornaram um diferencial porque a refer\u00eancia da vida religiosa na \u00e9poca era a vida mon\u00e1stica, [cujos membros] acumulavam propriedades e tinham meios para garantir a pr\u00f3pria subsist\u00eancia.&#8221;<br \/>\nFora das paredes do claustro<br \/>\nPara o estudioso de cristianismo antigo Thiago Maerki, pesquisador na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e associado da Hagiography Society, nos Estados Unidos, o ponto importante \u00e9 essa vis\u00e3o ao encontro do mundo que esses novos religiosos da \u00e9poca adotaram, ao contr\u00e1rio da &#8220;espiritualidade de reclus\u00e3o&#8221; dos monges.<br \/>\n&#8220;As ordens mendicantes vieram com prega\u00e7\u00e3o, apostolado, assist\u00eancia aos pobres. De certa forma retiraram a espiritualidade de dentro dos muros e a inseriram no meio do povo&#8221;, compara ele. &#8220;Nesse sentido, foram pautadas pelo movimento urbano.&#8221;<br \/>\n&#8220;Se antes a ideia era fugir do mundo, porque o mundo &#8216;era pecaminoso&#8217;, a novidade era ir em dire\u00e7\u00e3o ao povo, em uma volta ao que fazia o cristianismo primitivo&#8221;, ressalta Maerki.<br \/>\nCome\u00e7o da reforma<br \/>\nEssa atitude de servi\u00e7o e de viv\u00eancia dos valores do evangelho fez com que essas ordens mexessem com o centro da Igreja. Era como um questionamento vindo de dentro para fora. Ao adotarem uma postura mais social e pobre, junto aos desfavorecidos, esses religiosos escancaravam a maneira com que muitos religiosos viviam, ostentando riqueza.<br \/>\nPara pesquisadores, isso acabaria sendo um dos fatores que, tr\u00eas s\u00e9culos mais tarde, descambaria no movimento da reforma, em que o cristianismo acabou rachando e surgiram as igrejas protestantes.<br \/>\n&#8220;Elas [as ordens mendicantes] representavam, por excel\u00eancia, o esp\u00edrito da \u00e9poca&#8221;, diz a vaticanista Medeiros. &#8220;\u00c9 resultado de uma sucess\u00e3o de fatos desde a reforma gregoriana [realizada entre 1073 e 1085], atrav\u00e9s da qual a pr\u00f3pria hierarquia da Igreja sentiu a necessidade de mudan\u00e7as. A Igreja, grosso modo, estava cansada de seu pr\u00f3prio mundanismo, digamos assim. H\u00e1 quem diga, por exemplo, que Lutero [que fez a reforma protestante, em 1517] \u00e9 fruto de todo esse esp\u00edrito reformador que come\u00e7ava a se manifestar na Europa.&#8221;<br \/>\n&#8220;As ordens mendicantes quebravam o c\u00edrculo em que os religiosos n\u00e3o respondiam \u00e0quela \u00e9poca em que a pobreza crescia. Foi um movimento que pedia novas formas eclesiais&#8221;, comenta Guimar\u00e3es.<br \/>\nNos tempos atuais, essas ordens ainda existem e desempenham seus trabalhos na sociedade. &#8220;Apesar de mudan\u00e7as conforme o tempo foi passando, muito se mant\u00e9m desse esp\u00edrito medieval de unir a vida contemplativa e ativa, os votos de obedi\u00eancia e castidade e tamb\u00e9m de pobreza&#8221;, avalia Catharino. &#8220;A Igreja n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica. Tradi\u00e7\u00e3o quer dizer, para muitos religiosos, a continuidade entre passado, presente e futuro.&#8221;<br \/>\nEle ressalta que, no entendimento desses religiosos, &#8220;defender a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 cultuar as cinzas, mas passar adiante a chama&#8221;. &#8220;Muitas dessas ordens se mant\u00eam com o mesmo nome, mas atingem agora outras finalidades, principalmente trabalhos educacionais e obras sociais. Muitas par\u00f3quias e igrejas dessas ordens hoje tomam conta de escolas, preocupadas em evangelizar, principalmente em comunidades carentes e popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas&#8221;, comenta Catharino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Organiza\u00e7\u00f5es dentro da Igreja Cat\u00f3lica existem at\u00e9 hoje \u2014 entre as mais famosas est\u00e3o os franciscanos e os dominicanos. 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