{"id":11682,"date":"2022-10-21T15:12:23","date_gmt":"2022-10-21T15:12:23","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/21\/primeiro-conto-ebrio\/"},"modified":"2022-10-21T15:12:23","modified_gmt":"2022-10-21T15:12:23","slug":"primeiro-conto-ebrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/21\/primeiro-conto-ebrio\/","title":{"rendered":"Primeiro Conto \u00c9brio"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"480\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/jornalista_neysilva_acordacidade-2.jpeg?fit=640,480&#038;ssl=1\" class=\"attachment-large size-large wp-post-image\" alt=\"\" loading=\"lazy\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/jornalista_neysilva_acordacidade-2.jpeg?w=640&#038;ssl=1 640w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/jornalista_neysilva_acordacidade-2.jpeg?resize=346,260&#038;ssl=1 346w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/jornalista_neysilva_acordacidade-2.jpeg?resize=170,128&#038;ssl=1 170w, https:\/\/i0.wp.com\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2022\/10\/jornalista_neysilva_acordacidade-2.jpeg?resize=249,187&#038;ssl=1 249w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\"><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 N\u00f3s somos irm\u00e3os, porra! IRM\u00c3OS! H\u00e1 quantos anos a gente se conhece? Hein, Paulinho? H\u00e1 quantos anos a gente se conhece? FALA A\u00cd, FALA A\u00cd! PORRA!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">E apertava, efusivo, a m\u00e3o do interlocutor. Os dois \u00e9brios: a fala mole, tr\u00f4pega, os gestos tr\u00eamulos, os olhos congestionados. Ao p\u00e9 da mesa, garrafas vazias de cerveja. E ele recitando: \u201c\u2026 somos amigos, porra\u2026\u201d. Os outros enfastiavam-se: um examinava, com ostensiva aten\u00e7\u00e3o, as garrafas enfileiradas nas prateleiras do bar. O outro espichava o olhar para a pra\u00e7a onde skatistas arriscavam manobras.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 A amizade aqui \u00e9 s\u00f3lida! S\u00d3LIDA! Hein? Desde quando? Eu tava no Ex\u00e9rcito. A amizade aqui \u00e9 S\u00d3LIDA, S\u00d3LIDA! Amigos de verdade! Caralho!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Ia se debru\u00e7ando para refor\u00e7ar o abra\u00e7o e a cadeira amarela, pl\u00e1stica, se inclinava, amea\u00e7ando quebrar. O outro, absorvido pelo abra\u00e7o grudento <span><span><span lang=\"pt-BR\">por causa da<\/span><\/span><\/span> surrada jaqueta de couro, acrescentou, com voz pastosa:<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Lembra da Micareta? A Micareta de 89?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">A\u00ed ele se entusiasmou e at\u00e9 ajeitou o corpo para contar o epis\u00f3dio. A festa foi ali mesmo, naquela avenida, a Get\u00falio Vargas. Prestando servi\u00e7o militar, foi recrutado para auxiliar na seguran\u00e7a, naquelas patrulhas. \u201cDesci a ripa\u201d, ressaltou, um pouco de baba pastosa escorrendo pelo canto dos l\u00e1bios. O olho faiscou, radiante, tangendo um pouco a bebedeira. A pr\u00f3xima senten\u00e7a exigia toda a solenidade:<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Mas s\u00f3 desci a ripa em vagabundo. Hein? S\u00d3 BATIA EM VAGABUNDO! Pai de fam\u00edlia, homem direito, N\u00c3O! S\u00f3 em vagabundo!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Aquela ladainha ia longe. Um aproveitou para examinar as mesas pr\u00f3ximas: comerci\u00e1rios arrojavam-se sobre as cervejas na tarde radiosa de s\u00e1bado; retardat\u00e1rios mastigavam, no almo\u00e7o, vorazes, a carne que chiara na brasa de uma churrasqueira met\u00e1lica; um \u00e9brio fino e contumaz dedicava-se, enamorado, \u00e0 dose cristalina de aguardente que repousava no copo americano sobre a mesa pl\u00e1stica, amarela, de uma cervejaria. L\u00e1, do outro lado da rua, vans aguardavam os raros passageiros da tarde de s\u00e1bado. Motoristas e cobradores aproveitavam para devorar pratos-feitos no min\u00fasculo botequim da esquina. Da churrasqueira desprendia-se uma gordurosa fuma\u00e7a azulada. Na mesa o outro abanava-se, fingindo aten\u00e7\u00e3o. O calor de fevereiro era abrasador.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Sou empres\u00e1rio. Sabe? Empres\u00e1rio. Empreendedor! \u2013 O papo desembestara noutra dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">E sacudia uma chave de carro sobre a mesa pl\u00e1stica. Mais: manuseava-a, empunhava-a, brandia-a, apontava-a como prenda para os interlocutores. E sorria, triunfante, quando notava que os olhares pousavam \u2013 distra\u00eddos \u2013 sobre aquele objeto. Fetiche. Sim, objeto de fetiche. Subitamente se voltou para o mais jovem, o que passeava o olho ind\u00f3cil pelas cercanias:<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Qual \u00e9 a tua idade? Indagou, autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Quarenta\u2026<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Quanto?<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Quarenta!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Aquela idade contrariava a exposi\u00e7\u00e3o que ruminava: jovem demais. Teatral, percorreu os semblantes dos demais. \u201cE voc\u00ea, Paulinho? Voc\u00ea tem a minha idade!\u201d, esbravejava, em tom de amea\u00e7a. O amigo dileto balbuciou, intimidado.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Cinquenta e dois.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">O efeito foi melhor. \u201cE voc\u00ea?\u201d, indagou. O que suava reagiu: \u201cA mesma idade que voc\u00ea: 55 anos\u201d. A\u00ed ele descansou a chave sobre a mesa num gesto displicente. Espichou um sil\u00eancio que almejava suspense. Depois retomou:<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Em nossa idade n\u00e3o podemos vacilar! DEPOIS DOS 50 ANOS, VOC\u00ca N\u00c3O PODE COMETER ERROS! Vida empresarial \u00e9 assim! Percebem? Estamos na idade em que n\u00e3o podemos mais cometer erros!<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Essa \u00faltima frase o agradou. Repetia-a e pousava o olho em cada interlocutor. Media o efeito com a solenidade de consultor. A d\u00fazia de cervejas sob a mesa, os gritos dos gar\u00e7ons comunicando pedidos, a rodada do campeonato ingl\u00eas na tela do aparelho de tev\u00ea, as gargalhadas nas mesas pr\u00f3ximas, o ir-e-vir de quem ia ao banheiro, os preg\u00f5es dos ambulantes, nada disso tirava a seriedade daquela senten\u00e7a. Doutrinava. O sil\u00eancio indiferente lan\u00e7ou-o \u00e0 chave do carro.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Voc\u00ea pagou o aluguel do cara? O cara alugou a loja dele e voc\u00ea ficou devendo \u2013 Fustigou o que suava, com um sorriso mal\u00e9volo no canto do l\u00e1bio. Embolada antiga, de anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">A\u00ed ele estrilou. Encheu o peito de ar. Esbo\u00e7ou a express\u00e3o dolorida de quem sofre uma tremenda, uma brutal injusti\u00e7a. Mas modulou a encena\u00e7\u00e3o, apostou na personagem madura, que aprecia a autocr\u00edtica, que reconhece suas limita\u00e7\u00f5es. Sempre impressionava.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Aquilo foi no passado. Sei que errei. Mas se eu n\u00e3o tinha para pagar, o neg\u00f3cio n\u00e3o deu muito certo, o que voc\u00ea queria que eu fizesse? Me diga, qual a alternativa? N\u00e3o tive como pagar e reconhe\u00e7o meu erro! Foi um neg\u00f3cio que n\u00e3o saiu como o planejado\u2026 \u2013 Minimizou.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Da\u00ed em diante o papo arrastou-se, insosso. Os sil\u00eancios constrangidos come\u00e7avam a se impor, implac\u00e1veis. Um examinava, ostensivamente, as horas, no celular. O amigo b\u00eabado requisitava uma aguardente com uma rodela de lim\u00e3o. O outro suava, esvaziava o copo de cerveja e enveredava pelo cen\u00e1rio pol\u00edtico, espica\u00e7ava o sujeito, que empertigava o corpo, denotando a relev\u00e2ncia de suas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 Vamos pedir a conta \u2013 Sugeriu o que suava, mais adiante.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">A\u00ed come\u00e7ou a lamban\u00e7a: o que emborcava aguardentes estava liso, n\u00e3o tinha como bancar seu consumo; o que se distra\u00eda chegou depois, desobrigava-se da divis\u00e3o equ\u00e2nime, arcaria com a propor\u00e7\u00e3o do que consumiu; restavam ele e o que suava. Inquiria, acusava, contestava, escorregava, postergava, embolava.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2013 E o rapaz a\u00ed, vai pagar quanto? Paulinho, como \u00e9 que voc\u00ea sai pra beber sem dinheiro? Eu n\u00e3o vou pagar tudo n\u00e3o, a divis\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 justa, n\u00e3o! \u2013 Reclamava, fingindo indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Naquela balb\u00fardia brandia a chave do autom\u00f3vel com gestos loquazes: aquilo funcionava como s\u00edmbolo de distin\u00e7\u00e3o, de <i>status<\/i> social. Tran\u00e7avam-se regateando dinheiro mi\u00fado, mas ele se sobrepunha, distinguia-se daquela patuleia. Empres\u00e1rio. Sim, empreendedor. E tinha carro. Aquela canalha que se esbaldava no <span><span><span lang=\"pt-BR\">boteco<\/span><\/span><\/span>, bebendo cerveja barata, comendo lingui\u00e7a com feij\u00e3o tropeiro quando sobravam uns trocados, n\u00e3o estava \u00e0 sua altura. Enfrentava conting\u00eancias passageiras, tudo bem, mas era empres\u00e1rio. At\u00e9 os prestigiava ali, orientando-os, aconselhando-os de gra\u00e7a. Enfim, uns filhos da puta ingratos.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Pensou tudo isso enquanto esperava a saideira. Sim, tinham mandado descer a saideira e ele ia beber at\u00e9 o final. Agora suava com o casaco de couro, sob aquele sol de fevereiro. Tarde de s\u00e1bado e ele atropelando o fim-de-semana, j\u00e1 projetando a manh\u00e3 de segunda-feira, tinha neg\u00f3cios apalavrados, ia fech\u00e1-los, logo ia voltar ali, esbanjando, aqueles filhos da puta iam aprender. Enfim, despediram-se, foram saindo, o que suava e o desatento pretendiam beber a saideira ali nos quisoques que vendiam sandu\u00edches no canteiro da avenida.<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">Foi saindo\u2026<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2026 na esquina, enfiou a chave do carro no bolso do casaco, vasculhou os arredores \u00e0 cata de um moto-taxista. Chamou um que fazia ponto ali perto, requisitando-o com um gesto imperial. E pulou na moto, depois de enfiar o capacete como o general que enfia o adorno para a batalha\u2026<\/p>\n<p class=\"western\" align=\"JUSTIFY\">\u2026 na mesa, o desatento observava-o, atentamente, com impiedosa curiosidade, enquanto o moto-taxista sa\u00eda com a motocicleta numa arrancada abrupta\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2013 N\u00f3s somos irm\u00e3os, porra! IRM\u00c3OS! H\u00e1 quantos anos a gente se conhece? Hein, Paulinho? H\u00e1 quantos anos a gente se conhece? FALA A\u00cd, FALA A\u00cd! PORRA! E apertava, efusivo, a m\u00e3o do interlocutor. Os dois \u00e9brios: a fala mole, tr\u00f4pega, os gestos tr\u00eamulos, os olhos congestionados. 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