{"id":10204,"date":"2022-10-16T10:16:59","date_gmt":"2022-10-16T10:16:59","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/16\/ratos-ossos-e-lama-os-alimentos-do-desespero-a-que-famintos-recorrem-para-sobreviver\/"},"modified":"2022-10-16T10:16:59","modified_gmt":"2022-10-16T10:16:59","slug":"ratos-ossos-e-lama-os-alimentos-do-desespero-a-que-famintos-recorrem-para-sobreviver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/16\/ratos-ossos-e-lama-os-alimentos-do-desespero-a-que-famintos-recorrem-para-sobreviver\/","title":{"rendered":"Ratos, ossos e lama: os &#8216;alimentos do desespero&#8217; a que famintos recorrem para sobreviver"},"content":{"rendered":"<p>Itens que para muitos s\u00e3o b\u00e1sicos para outros s\u00e3o um luxo. A fome extrema \u00e9 um desafio di\u00e1rio em muitas partes do mundo, como mostram os relatos de pessoas que tentam sobreviver a uma situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. Fome, pobreza, guerra, doen\u00e7a \u2014 h\u00e1 muitos fatores que podem alterar drasticamente o que comemos.<br \/>\nEm circunst\u00e2ncias extremas, pessoas desesperadas podem recorrer a lama, frutos de cactos, flores, ratos, ossos descartados ou pele de animais para se manterem vivos.<br \/>\n A fome severa e a desnutri\u00e7\u00e3o s\u00e3o um desafio di\u00e1rio em muitas partes do mundo e sua escala \u00e9 verdadeiramente gigantesca: o Programa Mundial de Alimentos (PMA) da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) diz que &#8220;at\u00e9 828 milh\u00f5es de pessoas v\u00e3o para a cama com fome todas as noites&#8221; e &#8220;345 milh\u00f5es est\u00e3o enfrentando inseguran\u00e7a alimentar aguda&#8221;.<br \/>\nAntes do Dia Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o, em 16 de outubro, a BBC conversou com quatro pessoas de diferentes partes do mundo que passaram fome extrema e perguntou como sobreviveram.<br \/>\n&#8216;Carne de rato \u00e9 a \u00fanica que posso comprar&#8217;<br \/>\n&#8220;Eu como ratos desde a inf\u00e2ncia e nunca tive problemas de sa\u00fade. Eu alimento minha neta de 2 anos com ratos. Estamos acostumadas com isso&#8221;, diz Rani, que vive no sul da \u00cdndia.<br \/>\nA mulher de 49 anos mora perto de Chennai e faz parte de uma das comunidades mais marginalizadas do pa\u00eds \u2014 ela saiu da escola ap\u00f3s o quinto ano.<br \/>\nNa estrutura social hier\u00e1rquica baseada em castas da \u00cdndia, seu povo sofreu anos de discrimina\u00e7\u00e3o, e Rani trabalha para uma ONG que resgata pessoas de sua comunidade \u2014 a irula \u2014 que est\u00e3o presos a esquemas de servid\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Sempre moramos fora das cidades e vilas. Nossos pais e av\u00f3s nos diziam que \u00e0s vezes n\u00e3o tinham nada para comer \u2014 nem mesmo tub\u00e9rculos. Naqueles tempos dif\u00edceis, os ratos nos forneciam a comida necess\u00e1ria&#8221;, disse Rani \u00e0 BBC. &#8220;Aprendi a peg\u00e1-los desde muito jovem.&#8221;<br \/>\n As habilidades de sobreviv\u00eancia que Rani adquiriu quando crian\u00e7a agora ajudam sua pr\u00f3pria fam\u00edlia a comer \u2014 eles cozinham ratos pelo menos duas vezes por semana.<br \/>\nOs irula comem uma esp\u00e9cie de rato encontrada em arrozais, n\u00e3o aquelas normalmente encontradas em casas.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s\u00a0descascamos\u00a0a\u00a0pele\u00a0de\u00a0ratos\u00a0e\u00a0grelhamos\u00a0a\u00a0carne\u00a0sobre\u00a0uma\u00a0chama\u00a0e comemos.\u00a0\u00c0s vezes,\u00a0cortamos\u00a0em\u00a0pequenos\u00a0peda\u00e7os\u00a0e\u00a0cozinhamos\u00a0com\u00a0lentilhas\u00a0e\u00a0molho de\u00a0tamarindo&#8221;, diz Rani.<br \/>\nGr\u00e3os escondidos pelos ratos em suas tocas tamb\u00e9m s\u00e3o coletados e comidos pelos irula.<br \/>\n&#8220;S\u00f3 posso me dar ao luxo de comer frango ou peixe uma vez por m\u00eas. Ratos est\u00e3o dispon\u00edveis em abund\u00e2ncia e s\u00e3o gratuitos&#8221;, acrescenta ela.<br \/>\n&#8216;Bebi \u00e1gua barrenta e vi pessoas comendo carne de carca\u00e7as&#8217;<br \/>\nA ONU diz que a Som\u00e1lia est\u00e1 enfrentando uma crise de fome catastr\u00f3fica e a pior seca do pa\u00eds em 40 anos que j\u00e1 for\u00e7ou mais de 1 milh\u00e3o de pessoas a deixarem suas casas.<br \/>\n Sharifo Hassan Ali, de 40 anos, m\u00e3e de sete filhos, \u00e9 uma delas.<br \/>\nEla teve que abandonar sua aldeia e viajou por mais de 200 km \u2014 principalmente a p\u00e9 \u2014 da regi\u00e3o de Shabeellaha Hoose at\u00e9 um assentamento tempor\u00e1rio nos arredores da capital, Mogad\u00edscio. Ela levou cinco dias.<br \/>\n&#8220;Durante a viagem, com\u00edamos apenas uma vez por dia. Quando n\u00e3o havia muita comida, aliment\u00e1vamos as crian\u00e7as e pass\u00e1vamos fome&#8221;, diz ela.<br \/>\nNo caminho para a capital, ela testemunhou algumas cenas chocantes. &#8220;O rio secou completamente. H\u00e1 anos, tem pouca \u00e1gua fluindo, ent\u00e3o, tivemos que beber \u00e1gua barrenta&#8221;, diz Hassan Ali.<br \/>\n&#8220;Vi centenas de animais mortos a caminho de Mogad\u00edscio. As pessoas est\u00e3o comendo at\u00e9 mesmo as carca\u00e7as e as peles dos animais.&#8221;<br \/>\nHassan Ali costumava ter 25 vacas e 25 cabras. Todas morreram na seca. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 chuva e nada est\u00e1 crescendo na minha fazenda&#8221;, diz ela.<br \/>\nEla agora ganha o equivalente a menos de R$ 11 por dia lavando as roupas de outras pessoas \u2014 o que n\u00e3o \u00e9 suficiente para pagar a comida.<br \/>\n&#8220;Dificilmente posso comprar um quilo de arroz e legumes com isso, e nunca d\u00e1 para todos. Esta seca tem sido muito dura para n\u00f3s.&#8221;<br \/>\nEla recebe ajuda de algumas ag\u00eancias humanit\u00e1rias, mas diz que n\u00e3o \u00e9 o bastante. &#8220;N\u00e3o temos nada&#8221;, diz Hassan Ali.<br \/>\n&#8216;Minha fam\u00edlia depende de pele e ossos descartados&#8217;<br \/>\nNos \u00faltimos dois anos, Lindinalva Maria da Silva Nascimento, uma av\u00f3 aposentada de 63 anos de S\u00e3o Paulo, vem comendo ossos e pele descartados por a\u00e7ougueiros locais.<br \/>\nA aposentada tem um or\u00e7amento di\u00e1rio de apenas R$ 21 para alimentar ela, o marido, um filho e dois netos. Ela n\u00e3o pode comprar carne, ent\u00e3o vai a diferentes a\u00e7ougues e compra carca\u00e7as e peles de frango. Mesmo que custe cerca de R$ 3,70 por quilo.<br \/>\n&#8220;Eu cozinho os ossos com peda\u00e7os de carne que ficam na pele e adiciono feij\u00e3o para dar gosto.&#8221;<br \/>\nA pele do frango, diz ela, \u00e9 frita em uma panela sem \u00f3leo, e a gordura que se acumula \u00e9 ent\u00e3o coletada e armazenada. Lindinalva guarda em potes vazios de maionese e requeij\u00e3o e frita outros alimentos depois.<br \/>\n&#8220;Nem penso em comprar frutas, verduras ou doces. Antes, eu tinha um freezer cheio de carnes e verduras, e a geladeira tinha repolho, tomate, cebola, tinha bastante coisa&#8221;, conta. &#8220;Hoje est\u00e1 vazio, e a \u00fanica coisa que tenho \u00e9 uma cebola na fruteira.&#8221;<br \/>\nLindinalva perdeu o emprego durante a pandemia, e seu filho tamb\u00e9m est\u00e1 desempregado.<br \/>\n&#8220;Conto com doa\u00e7\u00f5es de alimentos de pessoas que conhe\u00e7o e tamb\u00e9m com a ajuda da igreja local. \u00c9 assim que sobrevivo&#8221;, diz ela.<br \/>\nMais de 33 milh\u00f5es de pessoas no Brasil vivem com fome, de acordo com um relat\u00f3rio recente da Rede Brasileira de Seguran\u00e7a Alimentar. O estudo divulgado em junho tamb\u00e9m constatou que mais da metade da popula\u00e7\u00e3o sofre de inseguran\u00e7a alimentar.<br \/>\n&#8220;Os a\u00e7ougueiros costumam dizer que n\u00e3o t\u00eam ossos&#8221;, reclama Lindinalva.<br \/>\nEla diz que tem que comer o m\u00ednimo poss\u00edvel para conservar os alimentos.<br \/>\n&#8220;Eu sobrevivo tamb\u00e9m gra\u00e7as \u00e0 minha f\u00e9 de que as coisas devem melhorar em algum momento.&#8221;<br \/>\n&#8216;Eu e meus filhos sobrevivemos com frutos de cactos vermelhos&#8217;<br \/>\n&#8220;N\u00e3o h\u00e1 chuva e n\u00e3o h\u00e1 colheita. N\u00e3o temos nada para vender. N\u00e3o temos dinheiro. N\u00e3o posso me dar ao luxo de comer arroz.&#8221;<br \/>\nFefiniaina \u00e9 uma m\u00e3e de dois filhos de 25 anos da ilha de Madagascar, no Oceano \u00cdndico.<br \/>\nDois anos de poucas chuvas destru\u00edram colheitas e dizimaram o gado. Isso est\u00e1 empurrando mais de 1 milh\u00e3o de pessoas para a fome, de acordo com a ONU.<br \/>\nFefiniaina mora na cidade de Amboasary, uma das \u00e1reas mais afetadas pela seca. Ela e o marido ganham a vida vendendo \u00e1gua.<br \/>\n&#8220;Quando ganho algum dinheiro, compro arroz ou mandioca. Quando n\u00e3o tenho nada, tenho que comer o fruto do cacto ou ir para a cama sem nada&#8221;, diz ela \u00e0 BBC.<br \/>\n&#8220;A maioria das pessoas aqui come frutos de cacto. Tem gosto de tamarindo. N\u00f3s comemos nos \u00faltimos quatro meses, e, agora, meus dois filhos est\u00e3o com diarreia.&#8221;<br \/>\nO PMA informou no ano passado que, no sul de Madagascar, &#8220;as pessoas estavam comendo barro com suco de tamarindo, folhas de cacto, ra\u00edzes silvestres, apenas para acalmar a fome&#8221;.<br \/>\nA fruta pode ajudar a manter a fam\u00edlia de Fefiniaina viva, mas n\u00e3o fornece as vitaminas e minerais de que precisam \u2014 seu filho de 4 anos est\u00e1 entre muitos que recebem tratamento para desnutri\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Quanto tem um pouco de chuva, podemos colher alguma coisa. Podemos comer batata-doce, mandioca e frutas&#8221;, diz Fefiniaina. &#8220;E n\u00e3o precisamos comer frutos de cactos.&#8221;<br \/>\nO PMA diz que o mundo est\u00e1 mais faminto do que nunca e atribui essa &#8220;crise s\u00edsmica da fome&#8221; a quatro fatores: conflitos, choques clim\u00e1ticos, consequ\u00eancias econ\u00f4micas da pandemia de covid-19 e aumento dos pre\u00e7os.<br \/>\n&#8220;Os custos operacionais mensais do PMA est\u00e3o US$ 73,6 milh\u00f5es (R$ 388 milh\u00f5es) acima da m\u00e9dia de 2019 \u2014 um aumento impressionante de 44%&#8221;, afirma o relat\u00f3rio de 2022. &#8220;O gasto extra em custos operacionais teria alimentado anteriormente 4 milh\u00f5es de pessoas por um m\u00eas.&#8221;<br \/>\nMas a organiza\u00e7\u00e3o diz que o dinheiro por si s\u00f3 n\u00e3o vai acabar com a crise: a menos que haja uma vontade pol\u00edtica para acabar com os conflitos e um compromisso para conter o aquecimento global, &#8220;os principais motores da fome continuar\u00e3o inabal\u00e1veis&#8221;, conclui o relat\u00f3rio.<br \/>\n*Com reportagem de Felipe Souza, da BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo.<br \/>\n&#8211; Este texto foi publicado em https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/internacional-63251273<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Itens que para muitos s\u00e3o b\u00e1sicos para outros s\u00e3o um luxo. 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