{"id":10198,"date":"2022-10-16T07:14:47","date_gmt":"2022-10-16T07:14:47","guid":{"rendered":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/16\/clorose-a-curiosa-doenca-do-amor-que-afetava-garotas-e-desapareceu-no-seculo-20\/"},"modified":"2022-10-16T07:14:47","modified_gmt":"2022-10-16T07:14:47","slug":"clorose-a-curiosa-doenca-do-amor-que-afetava-garotas-e-desapareceu-no-seculo-20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/comandogeraldanoticia.com.br\/index.php\/2022\/10\/16\/clorose-a-curiosa-doenca-do-amor-que-afetava-garotas-e-desapareceu-no-seculo-20\/","title":{"rendered":"Clorose: a curiosa &#8216;doen\u00e7a do amor&#8217; que afetava garotas e &#8216;desapareceu&#8217; no s\u00e9culo 20"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/s2.glbimg.com\/qsj_rfJy9wdoOVfHohyc0OU64Qg=\/i.s3.glbimg.com\/v1\/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a\/internal_photos\/bs\/2022\/i\/g\/KtnD5BSI2SGZtLKNlXPA\/dasd.jpg\"><br \/>   Mencionada em diagn\u00f3sticos durante s\u00e9culos, clorose nunca teve explica\u00e7\u00e3o clara e era vista como &#8216;coisa de mulheres nervosas&#8217;. Obra &#8216;A Visita do M\u00e9dico&#8217;, de Jan Steen (1668-1670); muitos artistas retrataram a clorose<br \/>\nGetty Images<br \/>\nNo s\u00e9culo 17, Jan Steen (1626-1679) e outros pintores holandeses, como Gabriel Metsu e Samuel van Hoogstraten, documentaram uma curiosa epidemia de &#8220;mal de amor&#8221; nos Pa\u00edses Baixos.<br \/>\nE n\u00e3o foram os \u00fanicos.<br \/>\nNessa e em outras \u00e9pocas, tamb\u00e9m escritores, poetas e dramaturgos se debru\u00e7aram \u2014 mais at\u00e9 do que m\u00e9dicos \u2014 sobre a doen\u00e7a. O motivo talvez esteja no perfil das v\u00edtimas: eram em sua maioria meninas adolescentes ou jovens ap\u00e1ticas.<br \/>\nO m\u00e9dico alem\u00e3o Johannes Lange llam\u00f3 classificou o problema, em 1554, como Morbo virgineo ou &#8220;doen\u00e7a das virgens&#8221;.<br \/>\nOs sintomas eram variados e muitas vezes vagos: apar\u00eancia &#8220;p\u00e1lida, como se estivessem sem sangue&#8221;, avers\u00e3o \u00e0 comida (carne em particular), dificuldade para respirar, palpita\u00e7\u00f5es, mudan\u00e7as de humor, fadiga, apatia e tornozelos inchados.<br \/>\nO rem\u00e9dio, para Lange, era &#8220;viver com homens e copular. Ao engravidar, se recuperar\u00e3o&#8221;.<br \/>\nPalidez verde<br \/>\nA doen\u00e7a recebeu outros nomes, como febris amatoria ou &#8220;febre amorosa&#8221;, at\u00e9  que Jean Varandal, professor de Medicina em Montpellier, cunhou o termo &#8220;clorose&#8221; em 1619.<br \/>\nObra &#8216;Clorose&#8217;, (circa 1899) do artista catal\u00e3o Sebasti\u00e0 Junyent (1865-1908)<br \/>\nGetty Images<br \/>\nO que fez foi escolher uma palavra para designar uma doen\u00e7a mencionada em tratados hipocr\u00e1ticos dos s\u00e9culos 4\u00b0 e 5\u00b0 a.C.<br \/>\nClorose, da antiga palavra grega cloros, significa &#8220;amarelo esverdeado&#8221; ou &#8220;verde p\u00e1lido&#8221;, que \u00e9, segundo relatos, a apar\u00eancia da pele das jovens adoentadas \u2014 embora isso seja discut\u00edvel, segundo especialistas modernos.<br \/>\n&#8220;Possivelmente muitos viram um verdor porque achavam que deveriam v\u00ea-lo&#8221;, avalia Irvine Loudon, da Universidade de Oxford, em artigo publicado no British Medical Journal.<br \/>\nO especialista acrescentou no artigo que o apelido de &#8220;doen\u00e7a verde&#8221; talvez se devesse ao fato de que as mulheres eram metaforicamente verdes, ou seja, sem experi\u00eancia ou maturidade.<br \/>\nO que se sabe \u00e9 que o mal foi classificado como uma doen\u00e7a nervosa, e, para al\u00e9m de nomenclaturas, com o passar dos s\u00e9culos foi agregando sintomas \u2014 em particular a aus\u00eancia de menstrua\u00e7\u00e3o (amenorreia) \u2014 e tratamentos, como sangria terap\u00eautica, hidroterapia e ferroterapia.<br \/>\nMas os rem\u00e9dios mais recomendados eram os indicavam comportamentos &#8220;adequados para uma mulher&#8221;: o sexo dentro do matrim\u00f4nio e a concep\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE a educa\u00e7\u00e3o era altamente contraindicada para as mulheres doentes.<br \/>\nEnigma<br \/>\nA clorose \u00e9 um enigma na hist\u00f3ria da medicina.<br \/>\nPublicidade em espanhol de &#8216;P\u00edlulas Hermosina&#8217;, que prometiam dar &#8216;beleza&#8217; e &#8216;curar anemia e clorose&#8217;<br \/>\nWellcome Images<br \/>\nCrescia e diminu\u00eda sem uma explica\u00e7\u00e3o clara, e chamou a aten\u00e7\u00e3o em particular no in\u00edcio do s\u00e9culo 19.<br \/>\nPara se ter uma ideia, nos registros hist\u00f3ricos da Enfermaria de Finsbury, em Londres, entre 20 de mar\u00e7o e 20 de abril de 1800, o transtorno &#8220;clorose e amenorreia&#8221; era o segundo mais citado, depois de &#8220;problemas pulmonares sem febre&#8221;.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 1890, 16% das interna\u00e7\u00f5es no Hospital S\u00e3o Bartolomeu, em Londres, eram por essa causa.<br \/>\nDepois, sem que haja uma explica\u00e7\u00e3o clara, os registros da doen\u00e7a come\u00e7aram a decair. No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, esses registros desapareceram, deixando perguntas: seria porque os sintomas foram atribu\u00eddos a um diagn\u00f3stico diferente? Ou porque o tratamento ficou mais eficiente ao focar a dieta das pacientes, em vez da sua virgindiade? Ou por algum motivo o mal deixou de ser diagnosticado?<br \/>\nH\u00e1 v\u00e1rias hip\u00f3teses que tentam explicar esse desaparecimento, geralmente mencionando melhoras na alimenta\u00e7\u00e3o e nas condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHouve m\u00e9dicos que relacionaram a doen\u00e7a \u00e0 riqueza, sugerindo que os costumes sociais das mulheres mais abastadas, como usar corpetes justos e levar uma vida sedent\u00e1ria de pouca exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luz solar e ao exerc\u00edcio f\u00edsico, causavam predisposi\u00e7\u00e3o \u00e0 clorose.<br \/>\nOutros defendiam que a doen\u00e7a era mais comum entre meninas com excesso de trabalho e mal alimentadas, que moravam em grandes \u00e1reas urbanas.<br \/>\nH\u00e1 historiadores m\u00e9dicos que sustentavam que se tratava simplesmente de um tipo de anemia por falta de ferro.<br \/>\nE tamb\u00e9m h\u00e1 quem afirme que era uma doen\u00e7a psicossocial, semelhante \u00e0 anorexia nervosa.<br \/>\nNo entanto, como comentou o pioneiro hematologista Leslie John Witts, em 1969, &#8220;fica a inquietante sensa\u00e7\u00e3o de que o mist\u00e9rio da clorose, como o de Edwin Drood (romance de Charles Dickens), segue n\u00e3o resolvido&#8221;.<br \/>\nHoje em dia, o termo &#8220;clorose&#8221; segue sendo usado, mas para se referir a plantas que sofrem de defici\u00eancia de ferro \u2014 a doen\u00e7a se manifesta como perda da colora\u00e7\u00e3o verde.<br \/>\nO termo &#8220;doen\u00e7a verde&#8221;, por sua vez, segue sendo usado em men\u00e7\u00e3o \u00e0 anemia hipocr\u00f4mica, em que gl\u00f3bulos vermelhos t\u00eam menos colora\u00e7\u00e3o do que o normal quando analisados em microsc\u00f3pio. A causa mais comum \u00e9 a insufici\u00eancia em ferro no corpo, e os sintomas s\u00e3o parecidos aos da doen\u00e7a que, durante s\u00e9culos, foi tratada como &#8220;coisa de mulheres nervosas&#8221;.<br \/>\nEste texto foi publicado em www.bbc.com\/portuguese\/geral-63191950<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mencionada em diagn\u00f3sticos durante s\u00e9culos, clorose nunca teve explica\u00e7\u00e3o clara e era vista como &#8216;coisa de mulheres nervosas&#8217;. 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